No consultório, observo com frequência o quanto muitas pessoas tentam carregar dores que não lhes pertencem. A dor do pai, da mãe, do filho, do parceiro, do amigo, do colega de trabalho. Em nome do amor, do cuidado, da lealdade ou até da necessidade de serem aceitas e validadas, assumem pesos que não podem sustentar, por mais boa vontade que tenham. E é justamente aí que mora um dos grandes enganos das relações: querer se responsabilizar pelo outro naquilo que só o outro pode viver.
Existe uma diferença importante entre acolher e carregar. Acolher é estar presente, oferecer escuta, apoio e afeto. Carregar é tentar resolver a vida do outro, assumir responsabilidades que não são suas, sofrer no lugar dele e, muitas vezes, abandonar a própria vida nesse movimento. Quando estou excessivamente preocupado com a vida do outro, talvez seja importante me perguntar: o que estou deixando de olhar em mim? O que estou tentando conquistar ao me responsabilizar demais? Amor, reconhecimento, pertencimento, aprovação?
Tentar carregar a dor do outro não resolve o problema. Ao contrário, muitas vezes o amplia. A dor continua existindo para quem a sente e passa a pesar também sobre quem decide tomá-la para si. Já não é mais apenas um vivendo essa dor, mas dois envolvidos no mesmo sentimento. Ainda assim, a verdadeira origem do conflito permanece sem resolução.
Isso aparece com frequência, por exemplo, quando filhos se envolvem nas separações dos pais, tentando proteger um deles, tomar partido ou reparar uma história que pertence ao casal. A relação entre homem e mulher pode terminar, mas aquilo que foi construído entre os dois diz respeito apenas a eles. Há acordos visíveis e invisíveis que permanecem no âmbito dessa relação. Nenhum filho deve ocupar esse lugar. A dissolução do casamento não desfaz a relação parental. Pai e mãe continuam sendo pai e mãe. E a relação entre pais e filhos, sendo boa ou difícil, é eterna.
O mesmo acontece em muitas outras relações. Em algumas amizades, surge a tentativa de salvar o outro de suas próprias escolhas. Mães e pais que tentam viver a vida pelos filhos. Pessoas que se desgastam tentando impedir que o outro sofra, como se o sofrimento pudesse ser eliminado por intervenção externa. Mas não pode. Porque, no fim, ninguém salva uma pessoa dela mesma. Cada ser humano tem o direito e também a responsabilidade de construir a própria história. Isso inclui fazer escolhas, amadurecer, errar, aprender, recomeçar e encontrar o próprio caminho.
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Há ainda um outro movimento, mais sutil, mas igualmente presente nas relações: quando, em vez de assumir a própria dor, tentamos transferi-la para o outro, como se ele pudesse resolver, compensar ou carregar aquilo que é nosso. São, portanto, dois movimentos que se entrelaçam; nem é possível tomar a dor do outro, nem transferir para ele aquilo que nos cabe.
Compreender a essência de “essa dor não é minha” não é indiferença, frieza ou egoísmo. É discernimento. É reconhecer os limites do amor saudável. É entender que posso amar profundamente alguém sem tomar para mim aquilo que cabe a essa pessoa enfrentar. Posso apoiar sem invadir. Posso estar junto sem me perder. Posso oferecer presença sem assumir um papel que não me pertence.
Há liberdade nessa consciência. Quando deixamos com o outro o que é do outro, também recuperamos o que é nosso. Voltamos para a nossa vida, para as nossas escolhas, para os nossos desafios, para a responsabilidade de construir a nossa própria felicidade. E essa compreensão não enfraquece os vínculos. Ao contrário, torna as relações mais maduras, mais honestas e mais leves.
Nem sempre é simples. Muitas vezes fomos ensinados que amar é carregar, que cuidar é sofrer junto, que ser bom é se sacrificar além do possível. Mas relações saudáveis não se sustentam na anulação, sustentam-se no respeito. E respeito também é reconhecer que o outro tem sua própria história.
Compreender que essa dor não é minha pode ser o início de uma grande libertação. É ter a clareza de que posso amar sem tomar posse da dor do outro, cuidar sem ocupar o lugar dele, estar perto sem me confundir.
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Porque, afinal, nem tudo o que me toca me pertence.
