Toda jornada humana, em algum momento, nos convida à pausa e à reflexão. Recentemente, o tema que ocupou minha roda de conversa foi a natureza de nossas escolhas: o quanto do que vivemos hoje é, de fato, fruto de nossas decisões e em que medida isso nos define.

Estava entre amigos que caminham comigo há quase 40 anos. Estamos todos na casa dos 55, uma fase que muitos costumam chamar de “meio do caminho”. Ao longo das décadas, acompanhamos as vidas uns dos outros, desde os tempos de colégio e faculdade. Com alguns, tornei-me também colega de trabalho. Entre encontros e reencontros, presenciamos as diferentes fases da vida de cada um: casamentos, nascimento de filhos, separações, novas uniões, mudanças de cidade e as inevitáveis transformações do mercado de trabalho.

Quantas escolhas fizemos ao longo desse percurso?

Quando olhamos para trás, percebemos que a vida é feita de decisões. Algumas muito conscientes, outras tomadas no impulso ou dentro das circunstâncias possíveis naquele momento. Nem todas foram perfeitas. Algumas poderiam ter sido diferentes. Ainda assim, cada uma delas compôs o caminho que nos trouxe até aqui.

Talvez por isso exista uma liberdade particular que começa a surgir com o tempo. Uma liberdade que não tem relação com ausência de responsabilidades, mas com uma compreensão mais clara de quem somos, do que valorizamos e do que já não faz mais sentido sustentar.

Durante muito tempo aprendemos a acreditar que nossas decisões estão determinadas por circunstâncias externas, por expectativas familiares, pelas regras sociais ou até mesmo por aquilo que chamamos de destino. No entanto, com o passar dos anos, algo começa a se tornar mais evidente: mesmo quando não controlamos os acontecimentos, ainda somos responsáveis pela forma como respondemos a eles.

Essa percepção encontra eco na filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre, que propõe uma provocação profunda ao afirmar que o ser humano está “condenado a ser livre”.

À primeira vista, a frase parece paradoxal. Afinal, liberdade costuma ser associada a algo desejável, enquanto a palavra condenação sugere peso ou castigo. Sartre utiliza essa expressão justamente para destacar que a liberdade humana não é opcional. Não escolhemos nascer, nem as circunstâncias iniciais da vida. Mas, uma vez lançados no mundo, somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que recebemos.

Em outras palavras, não existe um roteiro previamente escrito. Cada pessoa constrói sua própria essência por meio das escolhas que faz e também daquelas que evita tomar. Mesmo quando tentamos nos esquivar de uma decisão, já estamos escolhendo o silêncio ou a omissão.

Essa ideia pode gerar angústia, pois implica reconhecer que não existem desculpas definitivas. Culpar apenas as circunstâncias, o passado, os pais ou os outros pode aliviar momentaneamente, mas não elimina a responsabilidade que carregamos por aquilo que decidimos fazer com a nossa própria vida.

Talvez seja por isso que muitas pessoas prefiram acreditar que estão presas a um papel que não escolheram. É mais confortável imaginar que a vida simplesmente acontece do que reconhecer que, em algum grau, participamos ativamente da direção que ela toma.

Nem sempre controlamos os acontecimentos. Mas sempre existe alguma escolha possível diante deles: a forma como interpretamos, a atitude que adotamos, o caminho que decidimos seguir a partir dali.

Perceber essa dimensão da liberdade não significa carregar o peso de ter todas as respostas. Significa apenas reconhecer que viver é, inevitavelmente, um exercício contínuo de escolha. 

Talvez seja por isso que, com o passar dos anos, muitas pessoas começam a se sentir mais livres. Não porque a vida se torne mais simples, mas porque certas ilusões deixam de ser necessárias. A necessidade de agradar a todos diminui. Algumas expectativas externas perdem força. E a pergunta muda de direção.

Em vez de tentar corresponder ao que esperam de nós, começamos a refletir com mais honestidade sobre o que realmente queremos viver.

Nos atendimentos observo diariamente o poder de transformação que surge quando alguém alcança essa consciência e se permite mudar. São transformações profundas, que muitas vezes acontecem em fases da vida nas quais, culturalmente, se espera acomodação. Já acompanhei pessoas na casa dos 70 anos promovendo verdadeiras revoluções em suas próprias trajetórias.

Talvez envelhecer também seja isso. Não apenas acumular anos, mas conquistar a coragem de assumir autoria sobre a própria história, mesmo sabendo que ela nunca estará completamente sob nosso controle.

No fim das contas, não temos domínio absoluto sobre o que nos acontece. Mas temos responsabilidade sobre o que fazemos com aquilo que nos acontece. É nesse espaço, entre circunstância e decisão, que a liberdade humana se revela.

Como escreveu Jean-Paul Sartre: “O homem está condenado a ser livre; condenado porque não se criou a si mesmo e, ainda assim, é responsável por tudo o que faz”.

Que, a partir de hoje, possamos olhar para o espelho e perguntar: o que quero começar a escolher agora?

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

 

compartilhe