Mesmo quando produzidos por médicos, a grande maioria dos conteúdos educativos sobre infertilidade carece de confiabilidade científica e imparcialidade. É o que revela um estudo do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Clínica Origen BH. No Brasil, onde o Instagram conta com cerca de 122,9 milhões de usuários, o consumo desse tipo de conteúdo é massivo e pode levar pacientes a tomar decisões equivocadas de saúde. 


Os pesquisadores fizeram a avaliação 220 posts de 11 hashtags populares, como #infertilidade e #fiv. O foco se manteve em posts educacionais e/ou com informações relativas ao assunto de fertilidade em português, excluindo as postagens de cunho comercial e vídeos. Para reduzir a influência dos algoritmos, foi criada uma conta destinada ao estudo.



Com base nos critérios estabelecidos, foram analisadas 37 postagens. As publicações avaliadas possuem objetivos claros (nota média de 4,86 em 5) e são consideradas altamente relevantes para o público (4,47). Foi percebido que 89,2% do conteúdo é produzido por profissionais de saúde, sendo 24 delas da autoria de médicos.


Apesar de produzidos por médicos, os posts falham gravemente em critérios científicos básicos. A pesquisa registrou notas muito baixas (indicando ausência parcial ou total do critério) para:



  • Clareza sobre as fontes de informação utilizadas

  • Imparcialidade e equilíbrio da informação

  • Referência a áreas de incerteza médica (como riscos ou falhas de tratamento)

  • Indicação de fontes de apoio e informações adicionais para o paciente


"Embora os médicos sejam os autores da maioria das postagens e declarem claramente o objetivo e a relevância, questões essenciais não estavam disponíveis. As postagens analisadas não apresentaram equilíbrio nem imparcialidade, e não informaram sobre possíveis áreas de incerteza", afirma a embriologista Renata Lima Bossi, chefe da Clínica Origen BH.



A infertilidade é uma questão de saúde pública que afeta uma em cada seis pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Com o acesso limitado a diagnósticos e tratamentos, cada vez mais pacientes recorrem às redes sociais em busca de informações e apoio.


Diante do rápido crescimento das redes sociais e do risco da desinformação, os autores ressaltam a necessidade urgente de que as postagens médicas ofereçam conteúdo não apenas claros, mas também imparciais, embasados cientificamente e transparentes quanto aos limites dos tratamentos.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


A pesquisa avaliou a confiabilidade de publicações brasileiras sobre fertilidade utilizando o instrumento internacional Discern – um questionário criado na Universidade de Oxford (Reino Unido) para ajudar pacientes, profissionais de saúde e produtores de conteúdo a avaliar a qualidade de informações escritas sobre opções de tratamento em saúde, sem exigir conhecimento técnico especializado.


compartilhe