Para muitos pacientes com enxaqueca, o “sextou” após uma semana estressante é o começo de um tormento. Mesmo após uma semana sob pressão, cumprindo prazos, resolvendo problemas e mantendo uma rotina intensa, em vez de relaxar, muitos enfrentam uma forte dor de cabeça, acompanhada de náusea, sensibilidade à luz e ao som.
“Para algumas pessoas com enxaqueca, o momento de ‘desacelerar’ pode ser justamente o gatilho para uma nova crise. Esse fenômeno é conhecido como ‘let-down migraine’, ou enxaqueca de relaxamento, ou ainda cefaleia de alívio. O termo descreve crises que aparecem após uma redução abrupta do estresse, como na noite de sexta-feira, no primeiro dia de férias ou depois da conclusão de um projeto especialmente desgastante”, esclarece o neurologista Tiago de Paula, especialista em cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).
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“É comum que o paciente perceba que a crise não acontece necessariamente no auge do estresse, mas quando ele termina. Isso pode parecer contraditório, mas a enxaqueca é uma doença neurológica em que o cérebro pode ser particularmente sensível a mudanças. A transição brusca de um estado de alta exigência para um estado de relaxamento pode participar do desencadeamento da crise em algumas pessoas”, complementa.
Uma das hipóteses estudadas envolve a resposta fisiológica ao estresse. “Simplificando, o cortisol é o hormônio de luta ou fuga, mas com o estilo de vida atual ele se tornou o motor sobrecarregado das vidas modernas. Evolutivamente necessário, o cortisol era liberado em picos esporádicos e necessários, mas, agora, os níveis de cortisol permanecem cronicamente elevados durante grande parte do dia, devido ao ritmo acelerado e incessante do mundo contemporâneo”, explica a endocrinologista Deborah Beranger, com pós-graduação em endocrinologia e metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).
“Esse ambiente de hiperativação constante do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal leva a um estado contemporâneo de alerta, com efeitos devastadores sobre a saúde física e mental”, aponta a médica. “O problema é que, quando a situação termina, ocorre uma mudança nessa resposta. Para pessoas predispostas à enxaqueca, essa oscilação pode contribuir para a ativação dos mecanismos envolvidos na crise”, diz Tiago.
No entanto, o cortisol não deve ser tratado como um vilão isolado. “O cortisol não causa a enxaqueca. A relação entre estresse e a doença é mais complexa. A mudança abrupta na rotina, o atraso no horário de acordar, a alteração no padrão de sono, a omissão de refeições e a desidratação também podem contribuir para o ataque”, diz o neurologista.
“O estresse pode influenciar o apetite e o comportando alimentar, levando ao consumo de alimentos calóricos e pouco nutritivos. A exposição prolongada ao estresse também desregula a curva natural desses hormônios, resultando em insônia ou sono fragmentado. Mesmo depois de horas na cama, muitos acordam exaustos, perpetuando o ciclo de fadiga e estresse”, acrescenta Deborah. “E todas essas consequências também influenciam na piora do quadro de enxaqueca”, diz o neurologista.
A existência da enxaqueca “let-down” pode levar a uma conclusão equivocada: a de que a pessoa deveria evitar relaxar para não desencadear uma crise. “A estratégia não é manter o organismo em estado permanente de estresse. O mais importante é tratar a enxaqueca. O tratamento da condição vai além do manejo dos gatilhos e cronificadores da enxaqueca, podendo incluir uma série de outras estratégias para melhorar a intensidade da dor e diminuir a frequência das crises. Ele deve focar em uma abordagem global e integrada para atuar em todos os aspectos da doença, assim promovendo uma melhora rápida e devolvendo qualidade de vida ao paciente. Utilizamos tratamentos de primeira linha com evidência cientifica para a condição, como a toxina botulínica, que é aplicada em pontos nervosos específicos para reduzir a sensibilidade do cérebro a dor, ajudando, assim, no controle da enxaqueca”, diz o especialista.
Outra opção entre os tratamentos de primeira linha são os medicamentos monoclonais Anti-CGRP, primeiros medicamentos desenvolvidos, do início ao fim, para enxaqueca. “Eles bloqueiam o efeito do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), que contribui para a inflamação e transmissão de dor e está presente em maiores níveis em pacientes com enxaqueca”, detalha o neurologista, que acrescenta que, em pacientes com enxaqueca crônica, a combinação da toxina botulínica com os anti-CGRPs tem se mostrado mais eficaz do que o uso isolado dessas terapias.
Com relação ao estresse, evitar grandes oscilações e identificar os padrões individuais, pode ajudar, segundo o médico. “Se o paciente percebe que as crises aparecem sistematicamente no sábado, por exemplo, precisamos observar o que muda entre os dias úteis e o fim de semana”, orienta o especialista. “Manter horários de sono relativamente regulares, evitar longos períodos em jejum e manter uma boa hidratação também são ações importantes. Além disso, pode ser útil inserir momentos de relaxamento ao longo da semana, em vez de concentrar toda a recuperação física e mental em um único período, como o fim de semana”, diz o médico. “Mas é fundamental que o paciente entenda que somente o tratamento da enxaqueca vai devolver qualidade de vida e evitar o aumento da frequência dessas crises.”
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