ACORDOS

Quando a confiança pode ser reconstruída depois de uma traição

Terapeuta de casais explica o que precisa ser conversado antes de decidir pela continuidade e por que reconciliação não pode ser exigida de quem foi traído

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Uma mensagem, uma conversa ou uma revelação pode mudar a forma como alguém enxerga o próprio relacionamento. Depois da descoberta de uma traição, planos compartilhados e lembranças passam a ser acompanhados por dúvidas. Além de entender o que aconteceu, surge uma decisão difícil: existe vontade e possibilidade de continuar?

Para a psicóloga e sexóloga Walkíria Fernandes, especialista em terapia cognitivo-comportamental e terapia comportamental integrativa para casais, essa resposta não deve ser apressada. A vontade de preservar a relação pode coexistir com raiva, tristeza e insegurança, sem que a pessoa consiga definir imediatamente seu próximo passo.

“Quem foi traído não precisa decidir pela continuidade apenas porque o outro pediu desculpas ou prometeu mudar. É importante ter espaço para compreender o que sente, esclarecer suas dúvidas e avaliar o que deseja. Reconciliação precisa ser uma escolha, não uma obrigação”, explica.

Antes de discutir o futuro, o casal precisa reconhecer quais acordos foram rompidos. O que caracteriza infidelidade depende dos limites estabelecidos na relação, mas minimizar o ocorrido ou atribuir a responsabilidade à pessoa traída dificulta uma conversa sobre suas consequências.

Assumir responsabilidade é diferente de justificar

Problemas anteriores podem ser discutidos, mas não devem servir para transferir a culpa pela traição. Insatisfação, conflitos ou distância entre os parceiros precisam ser tratados como questões da relação, sem transformar a quebra de um acordo em algo inevitável.

“Podemos investigar como o relacionamento estava funcionando e quais dificuldades já existiam. Isso não significa dizer que alguém provocou a traição. Quem rompeu o acordo precisa assumir sua decisão e reconhecer o impacto dela, sem exigir que o outro divida essa responsabilidade”, afirma Walkíria.

Quando ambos desejam tentar continuar, é necessário conversar sobre os limites que serão adotados e as atitudes esperadas. Interromper comportamentos que mantêm a quebra de confiança, cumprir combinados e responder às questões relevantes fazem parte desse processo. Promessas isoladas não substituem mudanças sustentadas no cotidiano.

A transparência também precisa ser discutida sem transformar a relação em vigilância permanente. O casal deve avaliar quais informações ajudam a esclarecer o ocorrido e quais práticas alimentam um ciclo de investigação e sofrimento.

“Reconstruir confiança não é encontrar uma forma de controlar todos os movimentos do parceiro. É observar se existe coerência entre o que ele diz e faz. Os acordos precisam ser claros e possíveis, com espaço para conversar quando a insegurança aparece”, ressalta.

Continuar não significa apagar o que aconteceu

A decisão de permanecer não encerra automaticamente as dúvidas. Também não obriga a pessoa traída a retomar carinho, intimidade ou relações sexuais antes de se sentir confortável. Respeitar esse tempo é parte do cuidado com os limites de cada um.

O acompanhamento profissional pode oferecer espaço para compreender os conflitos e avaliar caminhos. A terapia de casal não deve pressupor que a reconciliação seja o único resultado: o trabalho também pode ajudar a construir uma decisão de separação.

Para Walkíria, a possibilidade de reconstrução depende da participação dos dois, mas não oferece garantia de continuidade. “Há casais que conseguem criar novos acordos e outros que decidem encerrar a relação. O importante é que a escolha não seja sustentada por pressão ou culpa. Preservar um vínculo só faz sentido quando também existe respeito pela autonomia de quem está nele”, avalia.

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