COMPOSIÇÃO CORPORAL

'Bela e poderosa': por que todos nós precisamos da gordura corporal

Da liberação de hormônios até a regulagem da temperatura corporal, a gordura desempenha diversas funções no nosso corpo. Por isso, buscar a magreza extrema pode trazer sérios prejuízos à saúde

Publicidade
Carregando...

A gordura é algo indesejado há anos. A cultura das dietas nos manda queimá-la. Algumas empresas alimentícias nos vendem produtos com baixo teor de gordura. E os fóruns de levantamento de peso compartilham dicas sobre como ter o mínimo de gordura corporal possível.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Basta passar alguns instantes nas redes sociais para encontrar conselhos sobre como ficar "com o corpo definido", ou seja, com um físico vigoroso e músculos extremamente bem definidos.

Neste ano, os especialistas passaram a se preocupar com o ressurgimento da tendência à magreza extrema. Em alguns casos, ela é alimentada pela popularidade das medicações para perda de peso.

O excesso de gordura traz preocupações de saúde e pode levar à obesidade. Mas ter pouca gordura também não faz bem. Ter como objetivo eliminar totalmente a gordura pode ser biológica e socialmente prejudicial, segundo diversos especialistas.

"Precisamos amar nossa gordura", afirma a endocrinologista e professora de medicina Elif Oral, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. "Ela desempenha uma função biológica muito importante."

Mas de quanta gordura precisamos? E por que ter pouca gordura pode nos fazer mal?

Por que a gordura corporal é importante

De forma geral, existem dois tipos diferentes de gordura: a gordura alimentar e a gordura corporal.

A gordura alimentar é aquela que você ingere na alimentação. A gordura corporal é a forma encontrada pela natureza para armazenar a energia de que você não precisa.

Quando você come uma refeição, as gorduras alimentares, os carboidratos e as proteínas do alimento são decompostos em blocos de construção simples, que o seu corpo pode usar como combustível. Os carboidratos se transformam em glicose, as proteínas se tornam aminoácidos e as gorduras assumem a forma de ácidos graxos.

Se você comer frequentemente mais calorias do que consome, as células de gordura (conhecidas como adipócitos) armazenam esse excesso de nutrientes na forma de lipídios. Com isso, elas aumentam de tamanho.

Mas, em vez de permanecerem passivamente no corpo, sabemos, agora, que a gordura corporal é um órgão ativo que regula as funções do corpo.

Como na história de Cachinhos Dourados e os três ursos, o nosso corpo funciona melhor quando tudo está "na medida certa". A escassez e os grandes excessos são prejudiciais para a nossa saúde.

Podemos pensar na nossa gordura corporal como um cofre de armazenamento especializado, que absorve os nutrientes quando há energia demais e os libera apenas quando eles são necessários, explica o professor de pesquisa clínica e experimental do tecido adiposo Mikael Ryden, do Instituto Karolinska, na Suécia.

A gordura é um sistema que ajudou nossos ancestrais a sobreviver em períodos de escassez alimentar.

Pessoa comendo salada em uma tigela e olhando para o relógio de pulso.
Getty Images
A gordura corporal é um órgão ativo, vital para armazenar o excesso de energia

Outro papel importante é a comunicação.

As células de gordura produzem hormônios que dizem ao resto do corpo quanta energia nós temos e até que ponto estamos satisfeitos. O mais estudado desses hormônios é a leptina, segundo Elif Oral. "A leptina informa ao cérebro que há armazenamento de energia suficiente e, com isso, o cérebro pode quase relaxar", explica ela.

Este processo permite que o corpo se concentre em processos biológicos importantes, como a reprodução e o combate a infecções. Mas, sem a leptina, o cérebro começa a se preocupar com a quantidade de energia disponível, fazendo com que as funções essenciais comecem a perder prioridade.

A gordura corporal também é importante para preservar o calor do corpo.

A gordura branca armazena o excesso de energia, mas também age como camada de isolamento. Paralelamente, a gordura marrom e bege contém células especializadas que queimam energia para produzir calor, o que ajuda o corpo a manter sua temperatura.

O que acontece quando temos pouca gordura?

As consequências à saúde de ter gordura demais são bem conhecidas. Elas incluem o maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, certos tipos de câncer e osteoartrite. Mas ter muito pouca gordura também não é bom.

A queda da gordura corporal para níveis muito baixos, devido à severa restrição de calorias, pode causar efeitos profundos para a nossa saúde e fisiologia, explica a estudante de pós-graduação Jessica Maung, pesquisadora de doenças metabólicas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

"Ter muito pouco tecido adiposo gera perturbações das funções do corpo e dos órgãos", explica ela.

Pessoa mede a barriga com fita métrica.
Stock Photo via Getty Image

Quando o corpo tem pouca gordura, ele reage tentando economizar energia. Basicamente, o corpo entra em modo de inanição.

Com isso, os sistemas começam a se desligar, incluindo nossa função imunológica. E, sem ter reservas, o corpo começa a decompor músculos e a construção e os reparos dos ossos são suspensos.

Este processo resulta em fragilidade e aumento do risco de fraturas, segundo o professor de medicina metabólica Fredrik Karpe, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

"Esta não é uma situação saudável", segundo ele, especialmente porque deixa o corpo sem reservas para enfrentar infecções sérias ou outras emergências médicas.

Ter pouca gordura também pode afetar os hormônios e a saúde reprodutiva.

Em homens que ficam extremamente magros por se alimentarem de forma cronicamente insuficiente, a testosterona pode diminuir, bem como os níveis de energia e o desempenho físico. E algumas mulheres atletas com muito pouca gordura corporal vivenciam irregularidade ou interrupção da menstruação.

Diversos estudos associaram o excesso de peso na meia-idade e entre os idosos a melhores probabilidades de sobrevivência no caso de doenças críticas.

As pessoas com obesidade são mais propensas a sofrer de doenças cardiovasculares, por exemplo, mas a sua probabilidade de morrer devido a elas é menor do que entre os indivíduos mais magros. Este fenômeno é conhecido como paradoxo da obesidade. Uma camada de reservas de gordura aparentemente ajuda o corpo a suportar eventos cardíacos sérios, AVCs e outras doenças agudas, segundo Elif Oral.

Em casos extremos, ter pouca gordura pode gerar graves consequências ou ser fatal. A condição de saúde mental conhecida como anorexia nervosa, por exemplo, pode gerar danos permanentes aos órgãos ou até a morte.

De quanta gordura realmente precisamos?

É surpreendentemente difícil avaliar a quantidade de gordura que temos no corpo. E também não existe um percentual ideal universal, pois as necessidades variam para cada indivíduo.

Mas, de forma geral, os homens adultos saudáveis costumam ter cerca de 10-20% de gordura corporal. Já as mulheres adultas saudáveis tendem a ter cerca de 20-29% e as pessoas que vivem com obesidade costumam ter gordura corporal acima de 30%.

Em termos de qual seria o ideal, "é muito difícil definir exatamente uma faixa", segundo Ryden. "Ela pode variar entre as pessoas, de acordo com o sexo e a etnia."

Entre os atletas, a quantidade típica de gordura corporal tende a ser mais baixa.

Nos seus estudos, a pesquisadora do desempenho esportivo Tamara Hew-Butler, da Universidade Estadual Wayne em Detroit, nos Estados Unidos, e seus colegas examinaram mais de 700 atletas. Para isso, eles usaram um scanner Dexa, que mede a composição do corpo, incluindo a gordura interna.

"Os menores índices de gordura corporal que já encontramos em atletas foram de 10% em um homem e 16% em uma mulher", afirma ela.

Alguns dos participantes ficaram surpresos com este resultado, segundo Hew-Butler, pois os atletas do estudo se exercitavam regularmente. Eles acreditavam que sua gordura corporal fosse entre 1% e 2%.

Homem sem camisa de pé, comendo uma tigela de salada
Getty Images
Não há percentuais ideais de gordura corporal para todas as pessoas, apenas orientações gerais

O local onde você armazena a gordura também é importante. A gordura visceral, também conhecida como abdominal, é especialmente prejudicial em quantidades excessivas.

Ao contrário da gordura que fica sob a pele, a gordura visceral envolve órgãos internos vitais e libera substâncias inflamatórias, que aumentam a pressão arterial e interferem com a insulina. Com isso, ela dificulta o controle do açúcar do sangue pelo corpo, aumentando o risco de diabetes tipo 2.

Como medir a gordura

Existem algumas formas de medir a quantidade de gordura corporal.

As avaliações mais detalhadas vêm dos scanners corporais completos Dexa. Eles conseguem diferenciar a gordura do corpo, a massa muscular magra e a massa óssea. Mas é necessário utilizar equipamentos especializados, que podem ser caros.

Um teste doméstico popular é o teste de dobra da pele. Ele envolve a medição da espessura da camada de gordura logo abaixo da pele, pressionando-a com um par de pinças especialmente projetado para esta função.

Mas este instrumento só consegue medir a espessura de dobras de gordura em partes específicas do corpo. A gordura visceral não pode ser medida diretamente desta forma. E os testes de dobra da pele não são particularmente precisos e podem fornecer números baixos e ilusórios.

Outra opção doméstica é o uso de balanças inteligentes. Elas funcionam enviando uma corrente elétrica baixa através do corpo, para estimar a massa de gordura.

Mas as leituras são influenciadas pela quantidade de fluido que temos no nosso corpo. Por isso, elas não são consideradas precisas para medir os níveis de gordura. E também não conseguem dizer onde ela está armazenada, nem diferenciar entre a gordura abdominal e os demais tipos.

Mulher jovem e um pouco acima do peso corre em um parque.
Stock Photo via Getty Images
Uma camada de reservas de gordura aparentemente ajuda o corpo a suportar eventos cardíacos sérios, AVCs e outras doenças agudas. É o paradoxo da obesidade

Na verdade, tentar medir os níveis de gordura em detalhes geralmente não é necessário para manter o corpo saudável. Mas existem duas medições que podem ajudar a manter o peso saudável e acompanhar onde a gordura está sendo armazenada.

Uma fita métrica pode ajudar a oferecer uma visão rápida. A razão entre a cintura e a altura mede a quantidade de gordura abdominal central em relação à altura.

Depois de medir a circunferência da cintura, você pode usar uma calculadora online para descobrir esta razão. Uma faixa saudável é entre cerca de 0,4 e 0,49.

A razão entre a cintura e os quadris também pode fornecer uma boa indicação. Para obter este número, meça a cintura na altura do umbigo e divida pela medida da parte mais larga dos seus quadris, ou use uma calculadora online.

Medidas acima de 0,90 para os homens e 0,85 para as mulheres são consideradas altas, pois o excesso de gordura em torno da cintura é um indicador de saúde metabólica precária.

O índice de massa corporal (IMC) não prevê com precisão a gordura corporal, pois não consegue diferenciar entre o teor de gordura e de músculos do corpo. Por isso, pessoas com grande percentual de músculos e muito pouca gordura podem ter IMC alto.

Você pode desejar acompanhar mais de perto sua composição corporal durante o envelhecimento. Nossa massa de gordura tende a aumentar, enquanto os níveis de músculos e ossos diminuem.

Como este processo pode causar prejuízos à saúde, é importante comer bem, fazer exercícios e praticar treinos de força.

Mas precisamos aprender a valorizar as importantes funções da gordura, que são muitas, sem ficarmos obcecados por objetivos extremos em relação à sua quantidade. O importante é ter a quantidade certa, sem lutar para reduzi-la ao máximo possível.

Como diz Elif Oral, "acreditamos que a gordura é bela e poderosa".

Melissa Hogenboom é repórter de saúde da BBC e autora dos livros Breadwinners ("Provedoras", em tradução livre) e The Motherhood Complex ("O complexo da maternidade"). Sua conta no Instagram é melissa_hogenboom.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Tópicos relacionados:

gordura-corporal

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay