A recente notícia sobre a decisão da Federação Espanhola de Futebol de oferecer suporte para o congelamento de óvulos de jogadoras e árbitras levantou a discussão que vai muito além do meio esportivo: como mulheres que estão no auge da carreira podem conciliar alta performance profissional com o projeto de maternidade?

A iniciativa coloca em evidência o chamado planejamento reprodutivo, especialmente entre mulheres que optam por adiar a maternidade por motivos profissionais ou pessoais. No esporte de alto rendimento, a rotina de treinos, competições, viagens e preparação física pode fazer com que o desejo de ter filhos seja adiado.

“Atletas de alto rendimento podem apresentar alterações na função reprodutiva, especialmente quando há treinamento intenso associado à baixa disponibilidade energética. Em algumas situações, isso pode levar a alterações ou até à ausência da menstruação. Por isso, é importante olhar também para a saúde reprodutiva dessas mulheres. A preservação da fertilidade pode ser uma alternativa para aquelas que desejam postergar a maternidade, mas é importante esclarecer que congelar óvulos não significa a garantia de um filho no futuro”, explica a especialista em reprodução humana Maria do Carmo Borges de Souza, diretora médica da Fertipraxis.

“A idade em que o procedimento é realizado tem grande importância, especialmente porque a qualidade dos óvulos está diretamente relacionada à idade da mulher”, complementa.

De acordo com especialistas, com o avanço da idade, há redução progressiva da reserva ovariana e aumento da possibilidade de alterações cromossômicas nos óvulos. Por isso, mulheres que desejam adiar a maternidade precisam conversar com um especialista para averiguarem as possibilidades reprodutivas.

Para o ginecologista Roberto de Azevedo Antunes, presidente da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), o caso espanhol também chama atenção para a necessidade de ampliar o acesso à informação.

“É importante que a mulher tenha informação para tomar decisões sobre o próprio planejamento reprodutivo. No caso de atletas, existe uma particularidade: o período de maior dedicação à carreira pode coincidir com uma fase em que a fertilidade já começa a apresentar mudanças. A preservação pode ser discutida, mas sempre levando em consideração a idade, a reserva ovariana e as características individuais de cada paciente”, afirma.

De acordo com o médico, o procedimento de congelamento de óvulos envolve estimulação ovariana para que vários folículos se desenvolvam, seguida da coleta dos óvulos e de sua criopreservação. Posteriormente, caso a mulher decida utilizá-los, os óvulos podem ser descongelados e empregados em um tratamento de fertilização in vitro. No entanto, a preservação da fertilidade não deve ser apresentada como uma garantia de maternidade.

“Existe uma diferença importante entre preservar uma possibilidade e garantir um resultado. O congelamento de óvulos permite preservar células reprodutivas em uma determinada idade, mas o tratamento futuro dependerá de diversos fatores, como a quantidade e a qualidade dos óvulos armazenados, as condições clínicas da paciente e as características do tratamento realizado”, complementa o ginecologista Marcelo Marinho de Souza.

 

Segundo o especialista, a decisão também não deve ser tomada apenas a partir da idade cronológica. “Não existe uma resposta única que sirva para todas as mulheres. A avaliação deve ser individualizada, considerando histórico clínico, idade, reserva ovariana, planos reprodutivos e expectativas. Quanto mais informação a mulher tiver sobre sua fertilidade, mais elementos terão para fazer um planejamento consciente”, completa.

Assunto ultrapassa o universo esportivo

Embora o caso espanhol envolva atletas profissionais, a discussão também pode interessar a mulheres que pretendem adiar a maternidade em razão da carreira, estudos, relacionamentos ou outros projetos pessoais.

A iniciativa da Federação Espanhola, portanto, abre uma oportunidade para discutir não apenas o congelamento de óvulos entre atletas, mas também como mulheres podem conhecer melhor sua vida reprodutiva e planejar a maternidade sem deixar o assunto para o momento em que as opções já estejam mais restritas.

Para Maria do Carmo, a principal mensagem é que o planejamento deve acontecer antes de existir uma urgência reprodutiva. “Preservar a fertilidade não significa necessariamente que a mulher irá utilizar aqueles óvulos no futuro. É uma possibilidade que pode ser considerada dentro de um planejamento maior. O mais importante é que essa decisão seja tomada com informação e orientação médica, sem criar a falsa expectativa de que o congelamento garante uma gravidez”, finaliza a médica.

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