Cicatrizes podem permanecer na pele como resultado de cirurgias, acidentes, queimaduras e outros tipos de lesões. Quando a marca apresenta uma coloração diferente da pele ao redor, a dermopigmentação pode ser uma alternativa para torná-la menos perceptível. A técnica, no entanto, não é capaz de camuflar todos os tipos de cicatriz e precisa ser indicada de acordo com as características de cada caso.


Segundo o biomédico, mestre em medicina estética e professor universitário Thiago Martins, a técnica funciona principalmente como uma camuflagem óptica. Por meio da implantação de pigmentos, busca-se aproximar a tonalidade da cicatriz da cor da pele ao redor, diminuindo o contraste visual.





“Ela é mais indicada quando o principal problema da cicatriz é a diferença de cor em relação à pele ao redor, especialmente nas cicatrizes mais claras, planas e já estabilizadas. Antes da indicação, é preciso avaliar cor, textura, relevo, localização e as características da pele do paciente”, explica.


Isso significa que a técnica não necessariamente resolve cicatrizes que, além da diferença de cor, apresentam alterações importantes de textura. Depressões, elevações, aderências e irregularidades, por exemplo, podem continuar perceptíveis mesmo após a pigmentação.


Cicatriz precisa estar estabilizada


Outro cuidado importante está relacionado ao momento de realizar o procedimento. Após uma cirurgia ou trauma, a aparência da cicatriz continua mudando durante o processo de cicatrização e remodelamento do tecido.



De acordo com Thiago Martins, mais importante do que estabelecer um prazo fixo é observar a evolução da cicatriz. O processo de remodelamento pode se prolongar por um ano ou até mais.


“Para pensar em dermopigmentação, procuramos uma cicatriz que já não apresente mudanças significativas de cor, espessura ou formato e que não tenha sinais de atividade inflamatória. Fazer o procedimento precocemente pode prejudicar a previsibilidade do resultado, porque o pigmento estará sendo colocado em um tecido que ainda está se modificando." Por isso, em determinados casos, aguardar a estabilização da cicatriz faz parte do próprio planejamento do tratamento.


Queloides e cicatrizes inflamadas exigem atenção


A dermopigmentação envolve microperfurações na pele para que o pigmento seja depositado no tecido. Justamente por provocar um novo estímulo na região, não deve ser realizada indiscriminadamente.


Cicatrizes elevadas, em crescimento, muito avermelhadas ou com sinais de inflamação precisam ser avaliadas e tratadas antes de uma eventual camuflagem. O cuidado também deve ser maior em pessoas com tendência à formação de queloides ou cicatrizes hipertróficas, ou seja, aquelas que ficam espessas e elevadas.



“Quando a indicação é inadequada, podem ocorrer inflamação, infecção, alteração indesejada da cor, piora da cicatrização e, em pessoas predispostas, agravamento de uma resposta cicatricial anormal. Nem toda cicatriz que incomoda esteticamente está pronta para ser pigmentada”, alerta o profissional.


Camuflar é diferente de tratar


Uma distinção importante para quem considera a dermopigmentação é entender que camuflar uma cicatriz não é o mesmo que tratar todas as alterações presentes naquele tecido. Enquanto a pigmentação atua predominantemente sobre a diferença de tonalidade, tratamentos de pele podem ser empregados para modificar outras características da cicatriz, como textura, espessura, relevo, aderência e vascularização.


“Imagine uma cicatriz clara, mas também elevada ou irregular: aproximar sua cor à da pele não corrige o relevo. Dependendo do caso, podem ser utilizados previamente lasers, tecnologias fracionadas, microagulhamento ou outras abordagens para melhorar a qualidade da cicatriz. Depois desses tratamentos, caso ainda exista diferença de tonalidade, a dermopigmentação pode ser utilizada como complemento. Muitas vezes, ela representa a etapa final de um planejamento, e não necessariamente o primeiro procedimento”, acrescenta o especialista.


Cicatriz não desaparece


A expectativa em relação ao resultado também precisa ser realista. O objetivo da dermopigmentação não é eliminar a cicatriz, mas diminuir o contraste com a pele ao redor e, consequentemente, fazer com que ela chame menos atenção.


Mesmo quando o resultado estético é satisfatório, permanecem diferenças estruturais entre o tecido cicatricial e a pele sem cicatriz. O próprio pigmento também pode sofrer alterações com o passar do tempo.



“O pigmento implantado pode perder intensidade ou apresentar alguma mudança de tonalidade, e a necessidade de retoques varia de pessoa para pessoa. É importante evitar a ideia de um resultado absolutamente permanente ou de uma cicatriz que ficará ‘invisível’. Um bom resultado é aquele que reduz de maneira natural o contraste e torna a cicatriz menos perceptível."


Bronzeamento pode alterar o contraste


Há ainda uma característica da dermopigmentação que merece atenção: o pigmento utilizado para camuflar a cicatriz não bronzeia junto com a pele. A tonalidade da pele pode variar em resposta à exposição à radiação ultravioleta porque há alterações na produção de melanina, pigmento produzido naturalmente pelo organismo. Já o pigmento implantado durante a dermopigmentação não responde da mesma forma.


Assim, uma cicatriz que apresenta uma boa correspondência de cor após o procedimento pode voltar a ficar mais evidente quando a pele ao redor se bronzeia. “Dermopigmentar não significa simplesmente escolher uma ‘tinta da cor da pele’. É preciso analisar tom e subtom, conhecer o comportamento daquela pele e orientar adequadamente sobre fotoproteção."

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O cuidado ganha ainda mais importância para pessoas cuja tonalidade da pele varia bastante após a exposição ao sol. Por isso, Thiago ressalta que, além de uma indicação adequada, a dermopigmentação de cicatrizes exige planejamento, avaliação individualizada e compreensão dos limites da técnica.


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