Muitas pessoas têm dúvida se deveriam usar protetor solar (e proteger a pele dos danos da radiação) ou abdicarem do produto com o objetivo de ter maiores níveis de vitamina D.
“A vitamina D é produzida quando a radiação ultravioleta B (UVB) atinge a pele e transforma uma molécula chamada 7-dehidrocolesterol em pré-vitamina D3. Como o protetor solar reduz justamente a passagem da radiação UVB, é natural imaginar que ele também reduza essa produção. Entretanto, essa relação é mais complexa do que parece”, explica o dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-RESP) e coordenador do Grupo de Dermatologia do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Elimar Gomes.
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O problema, segundo a SBD-RESP, é que se expor ao sol sem proteção com o objetivo de aumentar os níveis de vitamina D pode elevar o risco de câncer de pele, como um efeito colateral.
O médico explica que, em condições experimentais, quando um protetor solar de alta proteção é aplicado de forma uniforme, na quantidade correta utilizada nos testes laboratoriais e sobre toda a pele exposta, a produção de vitamina D pode ser reduzida de forma importante, mas essa não é a realidade do uso cotidiano.
“Diversos estudos mostram que a maioria das pessoas aplica menos protetor do que o recomendado, não reaplica o produto adequadamente e deixa áreas da pele parcialmente descobertas. Além disso, a exposição solar ocorre de forma repetida ao longo da rotina diária, permitindo que parte da radiação UVB ainda alcance a pele. É justamente por isso que os estudos realizados em condições reais de uso mostram resultados diferentes dos estudos de laboratório. Na prática, o uso habitual do protetor solar, isoladamente, não é suficiente para explicar uma deficiência de vitamina D. Na ciência, a pergunta mais importante não é se o protetor solar reduz a produção de vitamina D, porque ele realmente reduz a passagem da radiação UVB. A pergunta é se essa redução, nas condições habituais de uso, é suficiente para causar deficiência clínica”, destaca Elimar.
E é justamente nesse ponto que as evidências atuais mostram um cenário muito mais complexo do que se imaginava há alguns anos. Como acontece em praticamente toda a medicina, continua o especialista, dificilmente existe um único responsável por um problema complexo. "A vitamina D é influenciada por um conjunto de fatores, como idade, quantidade habitual de exposição solar, alimentação, doenças crônicas, obesidade e características individuais. Por isso, não é correto atribuir automaticamente uma eventual deficiência apenas ao uso do protetor solar”, acrescenta o médico.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia não recomenda que as pessoas se exponham intencionalmente ao sol, sem proteção, com o objetivo de produzir vitamina D. “A luz UV é dividida em UVA e UVB com base no comprimento de onda da radiação. Além disso, existem protetores solares com baixa proteção UVA, o que pode levar silenciosamente os usuários a uma exposição significativa a doses de UVA. Repetidamente, esse efeito pode tornar-se relevante para desencadear o fotoenvelhecimento e o câncer de pele”, alerta o diretor de comunicação da SBD-RESP, Daniel Cassiano.
“A radiação UVA tem comprimento de onda mais longo, logo, atinge camadas mais profundas, degenerando o colágeno e fibras elásticas da derme. Ela também produz radicais livres que aumentam o risco de câncer. A radiação UVB é mais curta, atinge principalmente a epiderme e causa queimadura”, completa Daniel.
Além disso, Elimar reforça que não existe um tempo de exposição que seja seguro e suficiente para todas as pessoas para a produção de vitamina D. “Essa produção varia conforme a idade, a cor da pele, a quantidade de pele exposta, o horário do dia, a estação do ano, a intensidade da radiação ultravioleta e até a cidade onde a pessoa vive. No Brasil, essa recomendação torna-se ainda mais difícil. Nosso país apresenta alguns dos maiores índices de radiação ultravioleta do mundo durante praticamente todo o ano. Mesmo horários tradicionalmente considerados "mais seguros", como antes das nove horas ou após as 15 horas, podem apresentar níveis elevados de radiação em diversas regiões brasileiras”, comenta.
Além disso, a mesma radiação UVB que estimula a produção de vitamina D também provoca dano ao DNA das células da pele. Esse dano é cumulativo ao longo da vida e está diretamente relacionado ao envelhecimento precoce da pele e ao desenvolvimento do câncer de pele.
Segundo a SBD-RESP, o risco de se expor ao sol sem proteção para manter níveis adequados de vitamina D ainda é maior em pessoas de pele muito clara, que trabalham ou têm uma rotina de alta exposição ao sol e no caso de histórico familiar de câncer de pele. A entidade defende que, na prática, pessoas que mantêm um estilo de vida saudável, com atividades ao ar livre, alimentação equilibrada e exposição solar incidental durante sua rotina, frequentemente apresentam níveis adequados de vitamina D mesmo utilizando protetor solar regularmente.
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“Em caso de deficiência, é recomendada a suplementação via oral”, comenta Daniel Cassiano. “Durante muitos anos, vitamina D e fotoproteção foram tratadas como se fossem objetivos opostos. Hoje sabemos que isso não é verdade. É perfeitamente possível manter níveis adequados de vitamina D e, ao mesmo tempo, proteger a pele dos efeitos nocivos da radiação solar. O equilíbrio entre esses fatores é justamente um dos pilares da medicina preventiva”, aponta Elimar Gomes.
