A menopausa deixou de ser um assunto restrito aos consultórios e passou a dominar conversas em podcasts e palestras, o que ajudou a conscientizar muitas mulheres sobre essa fase da vida. Mas, junto a isso, o tema agora também ocupa espaço nas prateleiras, nas redes sociais e nas estratégias de marketing de empresas de diferentes setores, com suplementos, cosméticos voltados para alterações da pele, roupas e tecidos com promessa de maior conforto térmico, dispositivos tecnológicos, aplicativos, serviços de telemedicina e diferentes fórmulas e soluções, que passaram a ser comercializados diretamente para mulheres que atravessam a transição menopausal.

O movimento acompanha uma mudança importante: durante décadas, sintomas da menopausa foram subestimados ou tratados como uma fase que deveria ser simplesmente suportada. O aumento da informação e da oferta de tratamentos pode, portanto, representar um avanço. Segundo o ginecologista Nélio Veiga Junior, pós-doutorando em menopausa, com foco em saúde hormonal e qualidade de vida da mulher no climatério, o problema surge quando a complexidade da menopausa é reduzida a uma coleção de sintomas isolados, cada um acompanhado de uma nova solução comercial.

“É importante diferenciar duas coisas. Uma é reconhecer que a mulher pode apresentar sintomas que precisam e podem ser tratados. Outra é transformar cada sintoma em um novo mercado de consumo, como se existisse necessariamente um produto específico para cada queixa. A menopausa não é uma doença única com uma solução universal, mas também não deve ser tratada como uma sequência de problemas independentes que podem ser resolvidos individualmente por meio de produtos comprados sem avaliação”, explica o ginecologista.

A expansão do setor mostra o tamanho dessa oportunidade comercial. Um levantamento da Grand View Research estima que o mercado global relacionado à menopausa, que inclui diferentes categorias de produtos e tratamentos, movimentou US$ 17,79 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 24,35 bilhões até 2030. No Brasil, a projeção é de crescimento de US$ 384,4 milhões em 2024 para US$ 527,1 milhões em 2030.





A própria análise aponta os suplementos alimentares como um dos segmentos de maior relevância no mercado brasileiro. Para o especialista, o crescimento da oferta não deve ser interpretado automaticamente como um problema. “A questão está na forma como esses produtos são apresentados e utilizados. Uma roupa que melhora o conforto durante ondas de calor, por exemplo, pode ser útil para uma mulher. Um produto de skincare pode contribuir para uma rotina adequada de cuidados com a pele. Um aplicativo pode ajudar no registro de sintomas. Um suplemento pode ter indicação específica em determinadas situações. O risco está em transformar essas possibilidades em soluções universais ou em substitutos da avaliação clínica. Às vezes um sintoma é só a ponta de um iceberg, por isso que o médico precisa estar envolvido”, diz Nélio.

“Uma mulher pode ter ondas de calor, alterações do sono, sintomas geniturinários, mudanças no humor, redução da libido, alterações na composição corporal e diferentes fatores de risco para doenças cardiovasculares e ósseas. Esses elementos não necessariamente têm a mesma causa, a mesma intensidade ou a mesma indicação de tratamento. Por isso, não é adequado imaginar que uma solução anunciada para um sintoma isolado seja capaz de resolver todo o conjunto de mudanças que ocorre nessa fase”, completa.





O médico explica que a avaliação individualizada é importante justamente porque a menopausa não acontece da mesma maneira para todas as mulheres. “Algumas apresentam sintomas intensos e incapacitantes; outras passam pela transição com poucas queixas. Há ainda mulheres com condições clínicas, histórico familiar ou fatores de risco que precisam ser considerados antes da indicação de determinadas terapias”, explica.

As diretrizes clínicas mais recentes reforçam que o manejo da menopausa deve considerar a história clínica, os sintomas, os riscos individuais e as preferências da paciente. Nélio esclarece que as opções podem incluir terapias hormonais ou não hormonais, além de medidas relacionadas ao estilo de vida e tratamentos direcionados a sintomas específicos, quando indicados.

“A terapia hormonal, por exemplo, não deve ser encarada como uma solução universal nem como uma estratégia para prevenir indiscriminadamente doenças crônicas, mas pode ser uma opção eficaz para sintomas específicos em mulheres adequadamente avaliadas”, aponta o médico.

A lógica do “um sintoma, um produto”

Na avaliação do ginecologista, um dos riscos do boom comercial é a fragmentação da experiência da mulher. Ou seja, em vez de procurar compreender o conjunto de sintomas e mudanças que está vivenciando, ela pode ser estimulada a consumir diferentes produtos de maneira sucessiva: um suplemento para o sono, outro para os fogachos, um cosmético para a pele, uma fórmula para a libido e um aplicativo para acompanhar os sintomas.





“Essa lógica pode fazer com que a mulher acumule produtos sem necessariamente compreender o que está acontecendo com o próprio corpo. O consumo pode se tornar uma tentativa e erro permanente. Em alguns casos, isso pode significar apenas gasto financeiro. Em outros, pode atrasar o diagnóstico de uma condição que exige investigação ou levar à combinação inadequada de produtos e medicamentos”, alerta o médico.

De acordo com Igor Padovesi, ginecologista, autor do livro 'Menopausa Sem Medo' (Editora Gente) e especialista em menopausa certificado pela North American Menopause Society (NAMS), há até um termo chamado menowashing. “A palavra é uma junção de menopause (menopausa) e brainwashing (lavagem cerebral), e se refere ao marketing agressivo e, muitas vezes, sem respaldo científico, de produtos que prometem aliviar os sintomas da menopausa. O uso comercial desse conceito pode representar riscos à saúde, atrasar o tratamento e fornecer desinformação para o público”, esclarece.

O médico explica que o menowashing está presente na divulgação massiva de suplementos alimentares, vitaminas, cremes, chás e cosméticos com alegações como ‘restauração hormonal natural’, ‘rejuvenescimento feminino’ ou ‘fim dos sintomas da menopausa’. “Apesar da promessa de bem-estar, muitos desses produtos não possuem comprovação científica robusta ou aprovação por agências reguladoras como a Anvisa ou o FDA, nos Estados Unidos”, diz Igor Padovesi.

Nélio também chama atenção para a necessidade de avaliar criticamente as promessas feitas por produtos voltados à menopausa. O fato de uma solução ser vendida como “natural”, “personalizada” ou direcionada especificamente para mulheres nessa fase da vida não significa, por si só, que ela seja eficaz, segura ou necessária para todas, segundo o médico.

“Suplementação inadequada pode levar a problemas como hipervitaminose ou interação medicamentosa. É essencial que o tratamento seja individualizado e baseado em diagnóstico preciso”, explica Igor. “O fato de as mulheres ainda terem dificuldade de encontrar médicos qualificados para o tratamento adequado da menopausa também favorece o menowashing, já que elas acabam se tornando alvo fácil dessas campanhas de marketing prometendo melhora dos sintomas”, complementa o especialista.

“Uma estratégia de comunicação pode transformar uma característica comum da menopausa em uma deficiência que precisa ser corrigida imediatamente. A mulher passa a receber a mensagem de que sua pele, seu sono, seu corpo, sua temperatura, sua libido e seu envelhecimento precisam de produtos específicos. É preciso ter cuidado para que a maior visibilidade da menopausa não seja acompanhada por uma nova forma de medicalizar ou comercializar cada aspecto dessa etapa da vida”, afirma Nélio.

Não se trata de dizer que todo produto para menopausa é inútil ou que a mulher não deve consumir nada. O ponto é entender que o produto não deve substituir a avaliação. "A mesma solução pode ser útil para uma mulher, desnecessária para outra e inadequada para uma terceira. O cuidado deve partir da necessidade da paciente, e não da existência de um produto procurando uma necessidade para preencher”, reforça o ginecologista.

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