Juntas, estratégias terapêuticas avançam contra o câncer de pulmão
Estratégias combinadas aumentam a sobrevida global e o período de remissão em pacientes; estudos mostram que foco em mutações melhora a resposta ao tratamento
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A personalização e a combinação de tratamentos estão aumentando a resposta e a sobrevida de pacientes com câncer de pulmão, inclusive em casos avançados. É o que mostram pesquisas apresentadas na Conferência da Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC), que encerra nesta terça-feira (15/9), em Seul, na Coreia do Sul. Esse é o tipo de tumor mais comum no mundo, com estimativa de 2,6 milhões de novos diagnósticos anualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
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Um dos estudos é brasileiro e demonstrou que três estratégias combinadas — uma quimioterapia (pemetrexede), um medicamento oral (lazertinibe) e um anticorpo intravenoso (amivantamabe) permitiram que 66,7% dos pacientes estivessem livres da doença 18 meses após o início do tratamento. O resultado supera a referência histórica usada no planejamento da pesquisa, de 50%.
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Os participantes tinham câncer de pulmão de células não-pequenas, que representa 85% dos casos, em estágio avançado ou metastático que ainda não haviam sido tratados. "Esse resultado é especialmente interessante porque estamos falando de pacientes que, em geral, têm um prognóstico menos favorável. O fato de observarmos sinais de benefício nesses grupos mostra que vale a pena continuar investigando essa estratégia", afirma William Nassib William Jr., líder nacional da especialidade de tumores torácicos da Oncoclínicas e do estudo Amigo-1. No total, foram incluídas 54 pessoas em 13 centros brasileiros.
Subtipos
Segundo o médico, a ideia de combinar os tratamentos justifica-se porque existem diferentes tipos de tumores de pulmão, cada um com alterações genéticas capazes de influenciar a resposta do paciente. Uma delas ocorre no gene EGFR e está presente em cerca de 10% a 20% dos casos de câncer no órgão, especialmente em não fumantes ou ex-fumantes leves, e em adenocarcinomas. Pessoas com a alteração costumam ser beneficiadas pela terapia-alvo e, recentemente, estudos demonstraram que havia vantagens quando a estratégia era combinada com outros tratamentos.
William Jr. explica que esse cenário estimulou o estudo Amigo-1. "A pergunta foi justamente se poderíamos dar um passo além. Em vez de usar apenas a terapia-alvo, combinamos um inibidor de EGFR, um anticorpo e a quimioterapia", diz. "O objetivo era aumentar a eficácia sem perder de vista a segurança." No estudo, metade dos pacientes que receberam a estratégia tripla ficaram, em média, 25,1 meses em remissão.
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Além disso, aqueles que também tinham mutações no gene TP53 e considerados de maior risco foram beneficiados, o que chamou a atenção dos pesquisadores por ser um grupo com maior dificuldade de controle da doença.
Metástase
Também combinando um anticorpo (amivantamabe) com quimioterapia (carboplatina e pemetrexede), pesquisadores demonstraram que a estratégia aumenta a sobrevida de pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas avançado ou metastático que ainda não haviam sido tratados para a doença. Em comparação ao grupo da quimioterapia isolada, a sobrevida média foi de 6,4 meses a mais (34,3 meses contra 27,9) no período de acompanhamento, de quatro anos e meio.
O estudo Papillon foi realizado com 308 pacientes com um tipo de alteração chamada mutações no éxon 20 do EGFR, responsáveis por 12% dos casos de câncer de pulmão com variantes nesse gene. Metade recebeu a combinação, e o restante, a quimioterapia isolada — mais tarde, quando confirmado o benefício da estratégia dupla, esses participantes puderam migrar para o tratamento completo.
"O estudo Papillon demonstrou a maior mediana de sobrevida global relatada até o momento em pacientes com câncer de pulmão de células não pequena avançado com inserção no éxon 20 do EGFR tratados com amivantamab e quimioterapia em primeira linha", afirmou, em nota, Chul Kim, MD, da Divisão de Hematologia e Oncologia do Instituto de Câncer de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.
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"A análise mostrou um benefício de sobrevida estimado substancialmente maior, apoiando a quimioterapia com amivantamab como um regime fundamental de primeira linha para esses pacientes", disse.
Longo prazo
Outro destaque do congresso foi uma avaliação de oito anos do estudo de fase III Adaura, que incluiu pacientes com mutação no gene EGFR tratados com o medicamento oral osimertinibe após a cirurgia de remoção do câncer. Também publicado nessa segunda-feino Journal of Thoracic Oncology, o resultado mostrou que, no período, a sobrevida média desses participantes foi de 74%, comparado a 58% do grupo placebo, que passou pelo procedimento de ressecção do tumor, mas não usou o medicamento posteriormente.
"Esses resultados adicionais de longo prazo caracterizam ainda mais o benefício de sobrevida já estabelecido do osimertinibe adjuvante para pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas ressecado em estágio IB-IIIA com mutação no EGFR, com ou sem quimioterapia adjuvante", disse Roy Herbst, pesquisador do Dartmouth Cancer Center, nos Estados Unidos.
"Esse é o primeiro estudo a estabelecer o novo paradigma de que levar os melhores medicamentos direcionados a pacientes com doença em estágio inicial pode retardar a progressão e melhorar a sobrevida. Trata-se de uma ótima notícia para nossos pacientes", comemorou o líder do estudo.
Os resultados dos estudos reforçam a necessidade de se considerar as especificidades de cada tumor pulmonar, acredita a oncologista clínica Clarissa Baldotto, da Oncologia D'Or. "As atualizações desses estudos reforçam o benefício de longo prazo de estratégias já incorporadas à prática clínica e destacam a importância de conhecer os diferentes subtipos de câncer de pulmão para oferecer um tratamento cada vez mais personalizado e efetivo", diz.
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