Quando uma criança recebe o diagnóstico de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), é importante que ele não se transforme em uma etiqueta. Para o psicólogo infantojuvenil e escritor mineiro Tiago Gonçalves, o resultado é uma informação sobre o funcionamento do indivíduo, mas não é a definição de quem ele é.

“A criança não é o TDAH, ela tem TDAH, assim como apresenta uma série de características, interesses, habilidades, sonhos e potencialidades que vão muito além do diagnóstico”, afirma.



O psicólogo Tiago Gonçalves reforça que o objetivo é compreender a criança por inteiro

Arquivo Pessoal


Na prática, isso significa reconhecer os prejuízos causados por sintomas como desatenção, hiperatividade e impulsividade, mas também identificar aquilo que ela faz bem. Criatividade, curiosidade, persistência, senso de humor e capacidade de resolver problemas são alguns dos aspectos que, para Gonçalves, devem ser valorizados.

Essa preocupação também está presente em TDAH Futebol Clube, livro recém-lançado pelo psicólogo. A protagonista, Rafinha, apresenta características que podem lembrar o transtorno, mas não é definida pelo diagnóstico. Desde o início, a personagem é apresentada por suas habilidades, como proatividade, vivacidade, empatia e agilidade.

A própria sigla do título ganha outro significado na história: TDAH é o time das amigas heroínas". A escolha reforça a proposta de mostrar que reconhecer dificuldades é importante, mas conhecer as próprias habilidades também pode ajudar a enfrentá-las.

“A literatura para as infâncias contribui para o bem-estar psicoemocional ao estimular a imaginação, a expressão de sentimentos e a construção da empatia. As histórias oferecem um espaço seguro para compreender emoções e enfrentar desafios”, destaca o psicólogo.

Livro TDAH Futebol Clube

Ciranda na Escola/Divulgação

Nem toda agitação é TDAH

Outro cuidado está em diferenciar os sintomas das atitudes próprias da personalidade ou das fases do desenvolvimento infantil. “Quando falamos de transtornos, a ‘luzinha de atenção’ deve estar justamente na combinação de duas palavras: sofrimento e prejuízo”, explica o autor.

Por isso, o diagnóstico não deve ser baseado em um modo de agir isolado. Segundo Tiago, “essa diferenciação exige uma avaliação cuidadosa, porque comportamentos como hiperatividade, impulsividade e/ou desatenção, que são a 'pontinha do iceberg', podem fazer parte do funcionamento e das diferentes fases do desenvolvimento infantil”.

O psicólogo reforça que o objetivo é compreender a criança por inteiro. “Mais do que rotulá-las, precisamos escutá-las, acolhê-las e fortalecê-las”, resume.





Diante dos alertas, o especialista dá quatro dicas para os pais:

1. Valorize as potencialidades

Observe e incentive interesses, habilidades, criatividade e aquilo que a criança faz bem, e não apenas suas dificuldades.

2. Separe a criança do diagnóstico

Prefira dizer “ela tem TDAH” a usar o transtorno como uma característica que defina toda a personalidade da criança.

3. Observe sofrimento e prejuízo

Agitação, impulsividade ou desatenção isoladas não significam necessariamente TDAH. O que merece atenção é a persistência dos sintomas e seus impactos na vida da criança.

4. Crie espaços de competência

Esportes, brincadeiras, leitura e atividades artísticas podem ajudar a criança a descobrir habilidades, fortalecer a autoestima e perceber que é muito mais do que suas dificuldades.

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