Um atleta que corre longas distâncias. Uma avó que acreditou que não veria a filha crescer e hoje ajuda a cuidar da neta. Advogados, engenheiros, professores, estudantes, empreendedores. Todos esses perfis podem ter algo em comum: a doença renal crônica.

Para dar visibilidade a essas histórias, a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) lança, no Dia Nacional da Diálise, celebrado anualmente na última quinta-feira de agosto, a campanha "A Vida Além da Diálise". A iniciativa convida pacientes, profissionais de saúde e toda a sociedade a compartilharem fotos e vídeos respondendo à pergunta "Quem eu sou além da diálise?", mostrando que, por trás do diagnóstico, existem pessoas com sonhos, profissões, famílias, talentos e projetos de vida.

"Ainda existe um olhar muito limitado sobre quem faz diálise. Muitas pessoas enxergam apenas a enfermidade ou a máquina e deixam de perceber o ser humano que está ali. Há pacientes que trabalham, estudam, praticam esportes, cuidam da família e realizam sonhos graças ao tratamento", afirma o presidente da ABCDT, Ricardo Akel.

"A campanha nasce para mudar essa percepção e mostrar que a diálise não representa o fim da vida, mas a oportunidade de continuar vivendo. Ao mesmo tempo, queremos lembrar que oferecer um tratamento de qualidade é essencial para que essas histórias continuem sendo escritas", complementa.

Segundo dados do Observatório da Diálise, da ABCDT, 170.868 brasileiros fazem tratamento dialítico. O volume reforça a dimensão crescente da doença renal crônica no país, que avança a uma taxa média de 9,2% ao ano — acima do crescimento populacional.

Mais do que o aumento absoluto de pacientes, o que chama atenção é a distribuição territorial do tratamento. O Sudeste concentra 47,7% dos pacientes em diálise, quase metade do total nacional. Em seguida aparecem Nordeste (21,0%), Sul (18,3%), Centro Oeste (8,0%) e Norte (5,0%). Essa concentração não se repete de forma proporcional quando se observa a infraestrutura disponível.

Na prática, essa diferença se traduz em desafios concretos para pacientes que dependem da terapia renal substitutiva, um tratamento que exige frequência elevada — em geral, três sessões por semana — e, portanto, alta dependência de deslocamento e acesso regular aos serviços de saúde. “Em algumas regiões, esse cenário pode significar longas distâncias percorridas até os centros de tratamento, impactando diretamente a rotina dos pacientes e suas famílias. A geografia, nesse contexto, passa a ser um fator determinante na continuidade do cuidado”, comenta o médico.

Sustentabilidade das clínicas impacta o cuidado

A campanha também chama atenção para um tema pouco conhecido pela população: a sustentabilidade das clínicas responsáveis pelo atendimento dos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a ABCDT, o financiamento da terapia renal substitutiva (TRS) ainda apresenta uma defasagem histórica em relação ao custo real do tratamento, o que compromete a capacidade de expansão da rede e dificulta a abertura de novas vagas.

Neste ano, houve um avanço importante com o reajuste de 15% destinado à Terapia Renal Substitutiva, composto por um aumento de 4,4% na tabela de remuneração do SUS e pela criação de um crédito tributário equivalente a 10,16% para as clínicas de diálise. "Esse avanço representa um passo importante para fortalecer a rede de diálise no país. Ainda há um longo caminho para superar a defasagem histórica do financiamento, mas começamos a construir condições que ajudem a garantir a continuidade da assistência", destaca o Akel.

O crédito tributário permitirá que as clínicas habilitadas utilizem os valores para compensar tributos federais vincendos, como Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), PIS e Cofins. A medida busca reduzir parte da diferença entre os custos reais da terapia e os recursos atualmente recebidos pelas unidades que atendem pelo SUS.

"Quem eu sou além da diálise?"

A mobilização acontecerá nas redes sociais com a hashtag #AVidaAlémDaDiálise e com a trend "Sua Vez – A Vida Além da Diálise", incentivando pessoas de diferentes regiões do Brasil a compartilharem suas histórias e mostrarem que viver com doença renal é muito mais do que fazer um tratamento.

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"Queremos que a sociedade conheça as pessoas por trás do diagnóstico. A doença renal faz parte da vida desses pacientes, mas não resume quem eles são. Eles trabalham, estudam, praticam esportes, cuidam da família, constroem carreiras, realizam sonhos e seguem escrevendo suas histórias todos os dias. É essa realidade que queremos colocar em evidência", reforça o especialista.

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