Entre a prescrição de um medicamento de alta complexidade e a obtenção de um bom resultado clínico existe um percurso inteiro, muitas vezes invisível para o grande público. Embora os imunobiológicos (medicamentos de alta tecnologia feitos a partir de células vivas que ajudam a controlar o sistema de defesa do corpo) tenham revolucionado o tratamento de doenças inflamatórias como a psoríase, um novo estudo conduzido no Brasil demonstra que a eficácia teórica dessas terapias está atrelada a um aspecto prático e frequentemente negligenciado: a capacidade do sistema de saúde do país de entregar o medicamento de forma contínua e no momento exato em que o paciente precisa dele.

A pesquisa, publicada recentemente na revista científica Dermatology Therapeutics, teve como objetivo principal investigar se problemas na cadeia de distribuição, baixa adesão ao tratamento e armazenamento inadequado de terapias imunobiológicas representam riscos significativos para a interrupção precoce do tratamento em pacientes com psoríase moderada a grave.

Os achados do estudo revelam que a diferença entre a eficácia observada em ensaios clínicos (onde o paciente é rigorosamente acompanhado e recebe a dose exata no dia programado) e a efetividade na vida real é significativa. No estudo, quase metade dos 166 pacientes avaliados (49,4%) interrompeu ou trocou o tratamento durante o acompanhamento. O principal motivo para a interrupção foi a recidiva (reaparecimento das lesões e sintomas) da psoríase em 89% dos casos, mostrando que, quando o tratamento falha, o paciente piora.

Como a logística pode influenciar doenças crônicas de alto custo

Mais de um terço dos participantes do estudo relatou ter enfrentado falta do medicamento em algum momento do tratamento. Aproximadamente quatro em cada dez enfrentaram dificuldade de distribuição dos medicamentos ao longo do tempo, como atrasos na entrega, falta do produto em farmácias ou clínicas, ou ainda, dificuldade no recebimento do medicamento. Nas análises estatísticas, essas falhas na cadeia de suprimentos estiveram associadas a um risco significativamente maior de interrupção do tratamento e de recaída da doença.





O estudo também destacou que esquemas posológicos com administrações mais frequentes apresentam menor permanência terapêutica, ou seja, menor capacidade de manter um paciente em tratamento contínuo até alcançar a melhora, englobando a adesão aos remédios e a prevenção de abandono.

“A lógica é simples: medicamentos que exigem injeções a cada duas semanas têm mais "janelas de vulnerabilidade" ao longo do ano. Uma chuva que impede o deslocamento do paciente, um erro administrativo na farmácia do município ou um atraso na entrega estadual pode ser suficiente para interromper semanas de controle clínico”, exemplifica Licia Mota, médica reumatologista, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília e, também, coautora do estudo.

Licia explica que os desafios de garantir continuidade terapêutica em um país continental como o Brasil são reais. "O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo e uma distribuição centralizada de medicamentos de alto custo. Esse modelo traz importantes vantagens econômicas, mas também impõe desafios logísticos que podem repercutir diretamente no tratamento de doenças crônicas, especialmente quando os medicamentos exigem aplicações frequentes e cadeia de refrigeração", complementa.

De acordo com a especialista, a mensagem central da pesquisa reforça que tratar uma doença crônica não significa apenas prescrever um remédio potente. Ela aponta que é preciso garantir a continuidade do cuidado. A logística, a educação do paciente sobre armazenamento correto do medicamento e a organização dos serviços de saúde são componentes inseparáveis da resposta terapêutica.

"Durante muitos anos concentramos nossos esforços em desenvolver medicamentos cada vez mais eficazes para a psoríase. Este estudo mostra que existe outro componente igualmente importante: garantir que o tratamento chegue ao paciente no momento certo. A melhor terapia do mundo perde parte do seu potencial quando o acesso é interrompido", alerta Licia.

O futuro da psoríase

A perspectiva para o futuro, apontada pelo estudo, é a evolução para terapias que mitiguem essas barreiras logísticas. O desenvolvimento de novos medicamentos, tanto biológicos com intervalos muito maiores entre as doses (de semanas para meses) quanto novas opções orais, tende a simplificar a rotina do paciente e reduzir a dependência de cadeias logísticas complexas, garantindo a continuidade do tratamento.





Além dos desafios logísticos, o estudo também mapeou barreiras no dia a dia do paciente, como o medo de injeções e o desconforto com medicamentos injetáveis. Além disso, surgiu ainda um dado que acende um alerta de saúde pública: o descarte inadequado. Mais de 22% dos participantes admitiram descartar seringas ou canetas aplicadoras no lixo doméstico comum, evidenciando uma grave falha na orientação prestada aos usuários do sistema.

"Vivemos um momento extraordinário na dermatologia e na imunologia, com terapias cada vez mais eficazes. Mas a inovação só produz impacto real quando consegue chegar, de forma contínua, até quem precisa dela. Este estudo me deixa especialmente satisfeita porque amplifica uma discussão que ainda é insuficiente na medicina: a adesão ao tratamento não é apenas responsabilidade do paciente, mas um compromisso compartilhado entre o sistema de saúde, a cadeia de distribuição e a equipe médica. O que mais me anima é que esses resultados refletem a vida real: a dificuldade de receber o medicamento no tempo certo, o medo da injeção, a falta de orientação sobre o descarte. São questões simples do cotidiano que fazem diferença enorme no resultado final, e saber que essa pesquisa pode sensibilizar gestores e médicos para olhar além da prescrição e enxergar o percurso inteiro do paciente é, para mim, a maior recompensa de fazer ciência", diz Licia Mota.





Dúvidas frequentes sobre psoríase

A psoríase é contagiosa?

Não. A psoríase é uma doença inflamatória crônica e sistêmica, de natureza autoimune. Não é transmissível por qualquer tipo de contato físico, toque ou compartilhamento de objetos. Pode afetar o corpo todo, principalmente os joelhos, cotovelos, mãos, pés e o couro cabeludo.

Existe cura para a psoríase?

Atualmente, não existe cura definitiva para a psoríase, pois trata-se de uma condição genética e imunológica. No entanto, a doença tem controle. As terapias disponíveis hoje, especialmente os imunobiológicos e terapias orais, podem proporcionar um alívio excelente dos sintomas, permitindo que o paciente atinja uma pele totalmente limpa e viva com qualidade.

A psoríase é apenas um problema estético?

Não. Embora as lesões na pele (placas avermelhadas com descamação) sejam visíveis e causem grande impacto emocional e social, a psoríase é uma doença sistêmica. Pacientes com psoríase têm maior risco de desenvolver outras condições, como artrite psoriásica (inflamação nas articulações), doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

O que provoca as crises da doença?

A doença tem uma base genética e imunológica, mas as crises (chamadas de recidivas) podem ser desencadeadas por fatores externos ou comportamentais, como estresse emocional ou físico, infecções (como a faringite estreptocócica), consumo de álcool, tabagismo, uso de certos medicamentos (como betabloqueadores ou lítio) e alterações climáticas bruscas.

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