O diálogo entre médicos e pacientes, aliado ao suporte de uma equipe multidisciplinar, tem se tornado estratégico para o diagnóstico precoce, controle de progressão e eficácia do tratamento de doenças complexas e crônicas, como a esclerose múltipla (EM) e a oncologia.
Desde os primeiros sinais, a escuta ativa é considerada essencial. Em muitos casos, a própria suspeita diagnóstica surge a partir da conversa entre médico e paciente, e é nesse espaço que ocorre a construção conjunta de informação e confiança. Após a confirmação do diagnóstico, esse diálogo se mantém como parte central do cuidado, orientando a definição de um plano terapêutico alinhado à realidade e às necessidades individuais.
Leia Mais
Um dos desafios, no entanto, está no tempo disponível para as consultas, que pode variar entre 15 e 30 minutos, o que exige dos profissionais uma abordagem ainda mais objetiva, empática e centrada no indivíduo. É neste momento que a atuação integrada de enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e farmacêuticos se mostra essencial para ampliar a percepção sobre a jornada do paciente, ajudando a identificar queixas que muitas vezes não chegam ao especialista.
Na esclerose múltipla, uma revisão de estudos publicada na revista Multiple Sclerosis and Related Disorders (MSARD), da Elsevier, mostra que o acompanhamento por equipes com diferentes especialistas está associado a melhores resultados clínicos e melhora da qualidade de vida. De forma geral, os estudos analisados indicam que quando neurologistas, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos trabalham de forma integrada, o cuidado se torna mais completo e o paciente tende a ter melhores desfechos clínicos.
Na prática, esse acompanhamento permite identificar mudanças sutis no comportamento dos pacientes. Segundo a enfermeira navegadora Thais Theodoro, do Dib Neurologia, muitos pacientes relatam à equipe de enfermagem questões que nem sempre aparecem na consulta médica, como:
- Fadiga
- Alterações cognitivas
- Impactos financeiros, profissionais ou sexuais
“Como os sintomas da esclerose múltipla são muitas vezes subjetivos — o paciente relata o que sente, mas nem sempre isso é visível —, um dos desafios é dar credibilidade a essas queixas. O paciente costuma se abrir mais com a enfermagem e traz informações que, muitas vezes, não chegam ao médico. Observamos sinais como esquecimentos, cansaço ou faltas recorrentes, que podem indicar possível progressão da doença e precisam ser avaliados em conjunto com a equipe”, afirma Thais.
A enfermeira também destaca situações em que a observação do cotidiano do paciente impacta diretamente o tratamento. “Já tivemos pacientes que não aderiram à infusão por dificuldade em permanecer muito tempo ou por ir muitas vezes à clínica. Ao entender isso, ajustamos a terapia e a adesão melhorou. O mais importante é compreender o que funciona para cada paciente”, diz.
Para ela, a atuação da equipe multiprofissional é essencial no cuidado contínuo. “É fundamental que os centros de atendimento contem com uma equipe multidisciplinar, pois isso faz toda a diferença. A enfermeira navegadora exerce um papel de acolhimento.
Quando temos um paciente recém-diagnosticado, eu ligo, converso, esclareço dúvidas e oriento que evite buscar informações em redes sociais sem orientação médica. Peço que ele anote suas dúvidas e traga tudo para a consulta. Esse acolhimento ajuda o paciente a entender a doença e reduzir inseguranças. A partir daí, começamos a construir sua jornada de cuidado”.
Na oncologia, o cenário é semelhante. Um estudo publicado na revista Frontiers in Oncology avaliou pacientes com câncer de pulmão e mostrou que aqueles acompanhados por equipes multidisciplinares viveram mais tempo em comparação aos que receberam o cuidado tradicional. Em média, a sobrevida foi de 45,2 meses no modelo multidisciplinar, contra 28,6 meses no modelo convencional. Além de viverem mais, esses pacientes também tiveram o cuidado mais organizado e coordenado entre os diferentes especialistas.
De acordo com Talita de Souza Matos, enfermeira da Associação de Câncer (Asfecer) e Conselheira Administrativa da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), para que o paciente consiga exercer seu protagonismo e passar pela jornada oncológica sem abandonar o tratamento, a equipe multiprofissional precisa atuar diretamente na educação em saúde.
Ela ressalta que o acolhimento exige uma sensibilidade fina para entender a realidade de cada indivíduo: "O profissional de saúde precisa alfabetizar o paciente, mas para cada caso, é necessário adotar um tipo de letramento diferente. O nosso papel é justamente traduzir as informações de forma personalizada, identificando se os medos ou resistências vêm de uma barreira de informação ou de uma fragilidade emocional. É esse entendimento que garante a adesão às terapias."
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
"O cuidado oncológico é longitudinal e passa por várias etapas complexas. Para que flua da melhor maneira, precisa haver uma comunicação efetiva e contínua entre o paciente e toda a equipe. Essa comunicação integrada é importantíssima para o desfecho clínico", aponta a profissional.
