Procedimentos complementares fazem parte da rotina de clínicas de reprodução assistida há anos, com a promessa de aumentar as chances de sucesso da fertilização in vitro (FIV). Testes para identificar o melhor momento da transferência embrionária, medicamentos imunológicos, acupuntura, plasma rico em plaquetas (PRP) e diferentes técnicas laboratoriais passaram a integrar o tratamento de milhares de pacientes em todo o mundo.
Agora, uma das análises científicas mais abrangentes já realizadas sobre o tema coloca essas práticas em perspectiva. Publicada na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health, a revisão avaliou as evidências disponíveis sobre dez dos principais procedimentos utilizados durante a FIV e concluiu que, na maior parte dos casos, ainda não existem provas consistentes de que essas intervenções aumentem as taxas de nascimento de bebês quando empregadas de forma rotineira.
Um dos principais diferenciais do estudo foi o rigor metodológico. Dos 157 ensaios clínicos inicialmente identificados, 72 foram excluídos por limitações metodológicas ou dúvidas sobre a integridade científica dos resultados.
Para o médico especialista em reprodução assistida João Guilherme Grassi, a revisão representa um marco para a medicina reprodutiva e reforça uma tendência que já vinha sendo adotada pelos principais centros internacionais: priorizar tratamentos sustentados por evidências científicas de alta qualidade.
"Durante muito tempo, diversos procedimentos foram incorporados à prática clínica porque existia uma hipótese biológica interessante ou porque pequenos estudos sugeriam algum benefício. Hoje a exigência é diferente. Precisamos demonstrar, com pesquisas de boa qualidade, que essas intervenções realmente aumentam a chance de nascimento de um bebê."
Leia Mais
Segundo o especialista, os resultados não significam que essas técnicas deixem de ter utilidade, mas indicam que elas não devem ser recomendadas automaticamente para todas as pacientes. "Hoje sabemos muito mais sobre o que funciona e, principalmente, sobre o que não faz diferença. A reprodução assistida caminha para uma medicina mais personalizada. Muitos conceitos aprendidos há 20 ou 30 anos continuam válidos em determinadas situações, mas hoje entendemos que dificilmente existe uma estratégia ideal para todos os casais."
Quais procedimentos foram avaliados?
Entre as intervenções analisadas está o teste de receptividade endometrial (ERA), utilizado para tentar identificar o momento mais adequado para a transferência do embrião. Segundo a revisão, seu uso rotineiro não aumenta as taxas de nascimento de bebês.
Resultado semelhante foi observado para procedimentos como a acupuntura, o uso de corticoides e as infusões de Intralipid, que também não apresentaram evidências suficientes para justificar sua adoção rotineira.
O scratching endometrial foi a única intervenção que demonstrou um possível benefício discreto nas taxas de nascimento. Ainda assim, o efeito foi considerado pequeno e insuficiente para recomendar sua utilização de forma universal.
No caso do EmbryoGlue, os resultados permanecem inconclusivos. Embora algumas análises tenham apontado possível benefício, a avaliação principal não demonstrou aumento nas taxas de nascimento, não havendo evidências suficientes para indicar seu uso rotineiro.
Já em relação ao teste genético pré-implantacional para aneuploidias (PGT-A) e à técnica PICSI, a revisão concluiu que as evidências atuais não justificam sua adoção universal, embora ambos possam ter indicação em situações clínicas específicas.
Os autores também analisaram procedimentos mais recentes, como a aplicação de plasma rico em plaquetas (PRP) nos ovários ou no útero. Nesse caso, as intervenções permanecem classificadas como experimentais devido à escassez de estudos clínicos robustos.
Medicina baseada em evidências ganha força na reprodução assistida
Na avaliação de João Grassi, uma das principais contribuições da revisão é estimular uma conversa mais transparente entre médicos e pacientes sobre o real potencial de cada intervenção. "A expectativa de quem busca um tratamento de fertilidade é enorme. Naturalmente, qualquer procedimento que prometa aumentar as chances desperta interesse. O papel da medicina baseada em evidências é justamente mostrar o que já possui comprovação científica, o que ainda está em investigação e quais recursos devem ser reservados para situações muito específicas."
O especialista ressalta que a fertilização in vitro continua apresentando avanços importantes, principalmente na qualidade dos laboratórios, dos meios de cultivo embrionário, na seleção dos embriões e na individualização dos protocolos clínicos.
"Os resultados da reprodução assistida continuam evoluindo. O que muda é a forma como incorporamos novas tecnologias. Hoje elas precisam demonstrar benefício real antes de passarem a fazer parte da rotina."
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Para os autores da revisão, o futuro da reprodução assistida dependerá cada vez mais de estudos clínicos rigorosos capazes de identificar quais pacientes realmente podem se beneficiar de cada estratégia. O objetivo é evitar intervenções desnecessárias, oferecer tratamentos mais seguros e direcionar recursos para abordagens que apresentem benefícios comprovados.
