A grande maioria (86%) das crianças e dos adolescentes que sofrem com dores incapacitantes nos ossos, ligamentos ou músculos consegue se recuperar do problema em um período de 18 meses. O quadro, no entanto, exige atenção contínua, já que cerca de 32% dos pacientes que apresentam melhora voltam a sentir dor em algum momento.
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Os dados trazem um novo olhar para uma queixa bastante comum, que atinge três em cada dez crianças ou adolescentes brasileiros (leia mais em: agencia.fapesp.br/51220). Apesar de não ter relação com trauma, esforço repetitivo ou outra causa específica, a condição – popularmente conhecida como “dor de crescimento” – é severa o suficiente para fazer com que os jovens faltem à escola e abandonem atividades de rotina e lazer.
“É uma dor ainda muito subestimada e pouco estudada, apesar de comum. Isso faz com que crianças e adolescentes muitas vezes recebam um tratamento inadequado ou que suas queixas sejam pouco valorizadas pela família e pelo sistema de saúde. E não é algo para simplesmente esperar que passe. No estudo, mostramos que, embora na maioria das vezes a dor desapareça da mesma forma que surgiu, ela pode também persistir em 14% dos casos”, afirma Tiê Parma Yamato, pesquisadora associada da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e da Universidade de Sydney (Austrália) que coordenou a investigação.
No estudo, os pesquisadores identificaram que fatores como qualidade de vida e idade parecem ser preditores importantes de recuperação. “Crianças mais novas e com melhor qualidade de vida têm chances maiores de melhora espontânea. Conforme entram na adolescência, as chances estatísticas de melhora diminuem, o que reforça a urgência da intervenção precoce”, diz.
Um problema para o futuro
Yamato explica que a dor recorrente ou incapacitante na infância e adolescência é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de condições crônicas na fase adulta. “Entender o curso dessa dor na infância permite identificar quem precisa de atenção precoce para possivelmente evitar que se tornem adultos com problemas de saúde persistentes”, afirma.
Ela destaca que a dor crônica, como a lombar, por exemplo, é considerada um dos grandes impactos na saúde em todo o mundo, gerando gastos financeiros enormes para os sistemas públicos de saúde. “Tratar o problema na base pode ser uma forma de reduzir esse impacto econômico e social no futuro”, diz.
O trabalho, apoiado pela FAPESP, é o primeiro a entender o prognóstico da dor musculoesquelética em crianças e adolescentes, investigar os possíveis fatores relacionados à recuperação e possíveis episódios de recorrência, além de trazer os primeiros dados relacionados a essa condição provenientes de países de baixa e média renda.
Para selecionar os voluntários, foram contatados inicialmente 12.036 crianças e adolescentes de 28 escolas públicas e privadas dos Estados do Ceará (cidade de Fortaleza) e São Paulo (Itu, Salto, São Sebastião e São Paulo). Desse total, 2.688 (idade média de 12 anos) aceitaram participar. Eles responderam a um questionário com perguntas sobre a presença de dor no corpo capaz de causar impacto em sua vida cotidiana. Dentre os entrevistados, 694 foram monitorados por 18 meses.
As costas foram a parte do corpo mais citada – por 51,3% dos participantes acompanhados –, seguida pelas pernas (42,5%) e pelo pescoço (20,5%). “Mas ela pode surgir em qualquer articulação, osso, músculo”, diz Yamato.
Condição subestimada
Como a dor musculoesquelética em crianças e adolescentes é subestimada e pouco estudada, diz Yamato, ela é constantemente relacionada a um mito que nunca foi comprovado. “Muitas vezes, essa dor é chamada de dor de crescimento. O problema é que, atualmente, a dor do crescimento é muito mais um senso comum do que um diagnóstico comprovado. Não existem evidências científicas de que os estirões de crescimento comuns na infância e adolescência causem dor”, afirma a pesquisadora.
“Talvez por esse tipo de dor também não apresentar uma causa específica, diferentes quadros acabam sendo classificados como dor do crescimento. O problema dessa interpretação é que ela frequentemente leva à ideia de que basta esperar a criança crescer para a dor passar. No entanto, a literatura científica tem mostrado diversas consequências de não olhar para essa condição com a devida cautela”, completa.
Segundo Yamato, atualmente, as causas ou os fatores relacionados ao desenvolvimento da dor musculoesquelética em crianças e adolescentes permanecem desconhecidos. “Por isso, trata-se de uma condição que muitas vezes não pode ser identificada em exames de imagem, mas principalmente a partir do relato do paciente”, conta.
Ela destaca que o uso do termo “dor de crescimento” leva pais e profissionais de saúde a subestimar dores reais e incapacitantes, deixando as crianças sem diagnósticos claros ou protocolos de tratamento adequados.
“Por isso, a orientação para a prática clínica é tranquilizar as famílias sobre o bom prognóstico, mas manter um acompanhamento atento àqueles que apresentam episódios frequentes e/ou recorrentes de dor, visando interromper a trajetória rumo à dor crônica na vida adulta”, conta.
“Como descobrimos que a dor pode estar conectada a outras questões, como qualidade do sono, sintomas psicossomáticos e harmonia das relações familiares, o ambiente emocional também surge como possível preditor para a recuperação. Por isso, sugere-se que profissionais de saúde deem atenção especial à avaliação da qualidade de vida das crianças e adolescentes, indo além da análise apenas física da dor para entender o contexto de vida desse jovem”, alerta.
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