INCLUSÃO

Por que o recreio ainda é um espaço díficil para muitas crianças autistas

Terapeuta alerta que as barreiras para alunos com TEA costumam surgir fora da sala de aula, nos momentos em que a interação social acontece de forma espontânea

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Nos últimos anos, o avanço das políticas de inclusão escolar permitiu que mais crianças autistas frequentassem escolas regulares e participassem das atividades acadêmicas ao lado dos colegas. Mas, para muitos especialistas, a verdadeira inclusão vai muito além da presença em sala de aula.

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É durante o recreio, nos corredores, nas brincadeiras coletivas e nos momentos livres que surgem alguns dos maiores desafios para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Embora muitas consigam acompanhar o conteúdo pedagógico, nem sempre conseguem participar das interações sociais que acontecem naturalmente entre os colegas.

Entrar em uma brincadeira já iniciada, compreender regras implícitas de um jogo, lidar com frustrações ou simplesmente iniciar uma conversa podem ser obstáculos importantes para crianças autistas. Segundo a terapeuta ocupacional Catiuscia Homem, o recreio funciona como um verdadeiro termômetro da inclusão.

“Estar matriculado em uma escola regular não significa necessariamente estar incluído. Muitas crianças autistas permanecem isoladas durante o recreio, observando os colegas brincarem sem conseguir participar efetivamente das atividades. É nesses momentos que percebemos se existe, de fato, pertencimento ao grupo”, explica.

O desafio da interação espontânea

Dentro da sala de aula, a rotina costuma ser mais previsível e estruturada. Existem horários definidos, orientações claras e mediação constante dos professores. Já nos momentos livres, as habilidades sociais passam a ser exigidas de forma muito mais complexa.“O recreio é um ambiente dinâmico, cheio de estímulos, mudanças rápidas e regras que nem sempre são verbalizadas. Para muitas crianças autistas, interpretar essas situações e responder adequadamente pode ser bastante desafiador”, afirma Catiuscia.

Além das dificuldades de interação, questões sensoriais também podem interferir na participação. Barulho excessivo, movimentação intensa, contato físico inesperado e ambientes muito estimulantes podem gerar desconforto e levar a criança a evitar esses espaços.

Quando a inclusão existe apenas no papel

A especialista destaca que uma das situações mais preocupantes ocorre quando a criança frequenta a escola regularmente, mas passa grande parte do tempo sozinha.“Muitas vezes os pais recebem boas notícias sobre o desempenho acadêmico, mas não sabem que o filho passa o recreio inteiro sem interagir com ninguém. A inclusão precisa considerar também as relações sociais, a construção de amizades e a participação nas experiências coletivas da infância.”

Segundo ela, o desenvolvimento social é uma habilidade tão importante quanto o aprendizado de conteúdos escolares.“É brincando que a criança aprende a negociar regras, esperar a sua vez, lidar com frustrações, desenvolver empatia e construir vínculos. Quando ela fica à margem dessas experiências, perde oportunidades importantes para o seu desenvolvimento.”

O papel da terapia ocupacional

A terapia ocupacional tem papel fundamental na promoção da participação social de crianças autistas. Mais do que trabalhar habilidades isoladas, o objetivo é favorecer o engajamento em atividades significativas do cotidiano, incluindo os momentos de lazer e convivência.“Nosso trabalho envolve identificar as barreiras que dificultam a participação da criança e desenvolver estratégias para que ela consiga se envolver de forma mais ativa nas atividades escolares e sociais”, explica Catiuscia.

Isso pode incluir o desenvolvimento de habilidades de comunicação, compreensão de regras sociais, flexibilidade comportamental, autorregulação emocional e adaptação aos diferentes ambientes.O que as escolas podem fazer?A construção de um ambiente verdadeiramente inclusivo depende da participação de toda a comunidade escolar. Pequenas mudanças podem fazer grande diferença na experiência da criança autista.Entre as estratégias recomendadas estão:

  • Promover brincadeiras mediadas nos momentos livres;
  • Incentivar a participação de colegas em atividades inclusivas;
  • Criar espaços mais tranquilos para crianças com maior sensibilidade sensorial;
  • Orientar alunos sobre respeito às diferenças;
  • Capacitar professores e equipes escolares para identificar situações de isolamento social.

“A inclusão acontece quando a criança não apenas frequenta a escola, mas se sente parte dela. Quando ela encontra espaço para participar, brincar, fazer amigos e desenvolver seu potencial de forma plena”, destaca a terapeuta ocupacional.

Um olhar além das notas

Para as famílias, a recomendação é observar não apenas o desempenho acadêmico, mas também como a criança se sente no ambiente escolar. Perguntas simples como ‘com quem você brincou hoje?’, ‘o que fez no recreio?’ ou ‘quem são seus amigos na escola?’ podem oferecer pistas importantes sobre sua experiência social.

“A escola é um dos principais ambientes de desenvolvimento da infância. Garantir que a criança esteja aprendendo é fundamental, mas garantir que ela esteja pertencendo é igualmente importante”, avalia.

PERFIL

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Catiuscia Homem é terapeuta ocupacional, educadora especial e psicopedagoga, com atuação no desenvolvimento infantil e no cuidado de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). É CEO da Bloom Centro Integrado de Autismo, possui formação no modelo TEACCH e atua como docente de Terapia Ocupacional na UNICNEC e na UniFECAF. Também é coordenadora no CRR/TEAcolhe, com foco na promoção da autonomia e funcionalidade no dia a dia.

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