A pesquisa clínica é uma das etapas mais importantes para que novos medicamentos, terapias e estratégias de tratamento cheguem aos pacientes. Na oncologia, esse processo tem papel ainda mais relevante, pois amplia o conhecimento sobre diferentes tipos de tumor, avalia novas possibilidades de cuidado e contribui para o desenvolvimento de tratamentos cada vez mais personalizados.

No Brasil, a pesquisa clínica representa cerca de 2,2% dos ensaios clínicos realizados no mundo. Embora essa participação ainda seja modesta, o cenário vem evoluindo com a atuação de centros especializados, equipes qualificadas e a ampliação das oportunidades de inclusão de pacientes em estudos.

Em hospitais, a pesquisa clínica integra um modelo que reúne assistência, ensino, pesquisa e inovação. As instituições conduzem estudos em diferentes frentes, sempre seguindo protocolos científicos, normas éticas e exigências regulatórias nacionais e internacionais.

"A pesquisa clínica permite que pacientes tenham acesso a estratégias inovadoras de tratamento, sempre dentro de critérios muito bem definidos, com acompanhamento próximo e segurança. Ela também amplia o impacto da instituição no avanço da oncologia, porque transforma perguntas da prática médica em conhecimento que pode beneficiar muitos outros pacientes", afirma Alessandra Sarti, gerente de Pesquisa Clínica do A.C.Camargo Cancer Center.

Para Mariana Brait, gerente sênior de Pesquisa e integrante da Diretoria de Ensino, Pesquisa e Inovação da mesma instituição, o futuro da pesquisa clínica está diretamente ligado à personalização do cuidado. "Caminhamos para compreender cada vez melhor as características de cada tumor e de cada paciente. Isso permite desenvolver tratamentos mais direcionados, com maior chance de benefício e menor exposição a abordagens que talvez não sejam as mais adequadas para aquele caso", explica.

Apesar de sua importância, a pesquisa clínica ainda é cercada de dúvidas. Muitos pacientes e familiares associam os estudos científicos à ideia de risco, falta de escolha ou ausência de alternativas terapêuticas. A seguir, Mariana Brait e Alessandra Sarti esclarecem alguns dos principais mitos e verdades sobre o tema.

1) "Participar de pesquisa clínica é ser cobaia?"

Mito. A participação em pesquisas clínicas é regulamentada por um comitê de ética, que avalia, por meio de um colegiado de especialistas, o projeto e sua segurança para os participantes. Somente após essa aprovação o estudo pode ser iniciado.

Antes de ingressar na pesquisa, o paciente recebe todas as informações sobre o objetivo do estudo, os procedimentos previstos, os possíveis riscos, os potenciais benefícios e as alternativas disponíveis.

Esse processo é formalizado por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, documento que deve ser lido, compreendido e assinado pelo paciente ou por seu responsável legal. A assinatura, no entanto, não representa uma obrigação definitiva: o consentimento pode ser retirado a qualquer momento, sem prejuízo ao tratamento.

"Esse é um medo muito comum. Mas a pesquisa clínica não é feita sem critérios nem sem proteção ao paciente. Existe um protocolo, uma equipe treinada, acompanhamento constante e uma estrutura ética que orienta todas as etapas", afirma Mariana Brait.

2) "A pesquisa clínica só acontece quando não há mais opções de tratamento?"

Mito. Existem estudos clínicos voltados para diferentes momentos da jornada do paciente, desde as fases iniciais da doença até situações em que outras alternativas terapêuticas já foram utilizadas. A indicação depende do objetivo do estudo, do tipo de tumor, das características clínicas do paciente e dos critérios estabelecidos no protocolo.

Em alguns casos, pacientes podem ser convidados a participar de pesquisas após terem passado por tratamentos anteriores. Em outros, os estudos avaliam novas combinações, estratégias ou abordagens mais personalizadas em diferentes etapas do cuidado.

3) "A pesquisa clínica pode trazer benefícios para os pacientes"

Verdade. A participação em um estudo clínico pode trazer benefícios, especialmente para pacientes que já passaram por linhas anteriores de tratamento e ainda necessitam de novas possibilidades terapêuticas. Em alguns casos, quando uma molécula inovadora demonstra bons resultados, ela pode contribuir para um melhor prognóstico ou qualidade de vida.

"A pesquisa clínica não ajuda apenas um paciente individualmente. Ela também beneficia outras pessoas com o mesmo diagnóstico, porque amplia o conhecimento e contribui para melhorar os tratamentos no futuro", ressalta Mariana Brait.

Os benefícios podem ocorrer tanto pelo acesso a uma estratégia inovadora quanto pela contribuição para a geração de dados comparativos e para o avanço do conhecimento científico.

4) "A pesquisa clínica contribui para a ciência"

Verdade. A pesquisa clínica é um dos pilares da evolução da medicina. Ela permite estudar tratamentos já existentes, avaliar o que pode ser aprimorado e desenvolver novas possibilidades de cuidado.

"A pesquisa clínica também pode surgir a partir de fármacos já utilizados para determinadas indicações que, ao longo dos estudos, demonstram eficácia em outros tratamentos. Assim, uma mesma molécula pode ser investigada para diferentes patologias", afirma Alessandra Sarti.

5) "A pesquisa clínica começa nos estudos com o paciente"

Mito. Antes de chegar aos pacientes, uma nova terapia ou estratégia de tratamento passa por diversas etapas de investigação. Muitas pesquisas começam em laboratório, com estudos em células, modelos experimentais e avaliações pré-clínicas. Somente após uma sequência de análises e aprovações o estudo pode avançar para a fase clínica.

Nos ensaios com pacientes, cada etapa possui objetivos específicos. Os estudos podem avaliar segurança, dose, eficácia, comparação com tratamentos já existentes ou combinações terapêuticas. Tudo isso é definido previamente em um protocolo científico.

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"Em geral, as pesquisas nascem de perguntas importantes da prática médica. Observamos os pacientes, os tratamentos disponíveis e as lacunas que ainda precisam ser respondidas. A partir daí, a ciência busca caminhos para melhorar o cuidado", esclarece Mariana.

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