O perigo oculto de buscar o corpo "perfeito" na menopausa
Especialistas alertam que o retorno do padrão estético da extrema magreza pode comprometer a saúde física e mental de mulheres no climatério
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A estética da magreza extrema voltou ao centro da cultura visual. Impulsionado pelas redes sociais e pelo uso indiscriminado de medicamentos para obesidade, como os agonistas do GLP-1, o padrão de um corpo cada vez mais magro ganhou força, principalmente entre as mulheres. Na menopausa, porém, a busca por esse ideal pode trazer consequências importantes para a saúde.
Segundo a médica nutróloga Marcella Garcez, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABN), o culto à magreza não é um fenômeno novo, mas ganhou um novo impulso com os medicamentos para perda de peso.
"A indústria da moda sempre reforçou um padrão corporal muito abaixo do considerado saudável. Hoje, esse ideal continua sendo associado ao sucesso e ao autocontrole, enquanto cresce a procura por soluções rápidas para emagrecer, muitas vezes sem indicação médica."
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Ela alerta que a exposição constante desse padrão pode favorecer transtornos alimentares, distorção da imagem corporal e sofrimento emocional.
Baixo peso acelera perda óssea e muscular
Na menopausa, a redução do estrogênio já favorece alterações naturais, como perda de massa muscular, diminuição da densidade óssea e redistribuição da gordura corporal. Quando esse processo é acompanhado de emagrecimento excessivo, os riscos aumentam.
O ginecologista Nélio Veiga Junior, pesquisador de pós-doutorado em Menopausa pela Unicamp, explica que mulheres com IMC muito baixo podem apresentar:
- osteopenia
- osteoporose
- sarcopenia
- anemia
- queda da imunidade
- maior predisposição a quedas e fraturas
"A combinação entre queda hormonal, restrição alimentar e baixo peso acelera a perda de massa óssea e muscular. Isso transforma o IMC baixo em um importante fator de risco para fraturas por fragilidade."
O especialista destaca que envelhecer com saúde não significa apenas pesar menos. "É preciso preservar músculos, ossos, força, mobilidade, cognição e autonomia. Muitas mulheres aparentam estar saudáveis pelo peso, mas apresentam metabolismo alterado, sarcopenia e baixa densidade mineral óssea."
Ele cita ainda uma metanálise publicada no American Journal of Clinical Nutrition, mostrando que idosos com IMC mais baixo apresentaram maior risco de mortalidade quando comparados à faixa considerada ideal.
O número na balança não conta toda a história
Segundo Nélio, durante o climatério, o foco deve deixar de ser apenas o peso corporal. "As alterações hormonais favorecem acúmulo de gordura abdominal, resistência à insulina, perda muscular e redução progressiva da massa óssea. Por isso, é fundamental avaliar a composição corporal e não apenas o IMC."
O médico ressalta que parte significativa do peso perdido pode corresponder justamente à massa muscular, essencial para manter força, independência e boa recuperação diante de doenças. "Uma mulher pode estar magra, mas metabolicamente frágil, com pouca reserva muscular e maior risco de quedas, fraturas e perda de autonomia."
Cirurgias plásticas aumentam após grandes perdas de peso
A rápida perda de peso também tem levado mais mulheres aos consultórios de cirurgia plástica. Segundo a cirurgiã plástica Heloise Manfrim, cresceram as buscas por procedimentos para tratar excesso de pele e flacidez, como lifting facial, mamoplastia, abdominoplastia e lifting de braços e coxas.
Já a cirurgiã plástica Flávia Bonato afirma que muitos pacientes apresentam um quadro semelhante ao observado após a cirurgia bariátrica. "Não é incomum vermos perdas de 30 a 40 quilos, com grande excesso de pele e flacidez. São pacientes que procuram uma reconstrução corporal após o emagrecimento."
Apesar disso, Heloise alerta que a principal preocupação não é apenas a gordura perdida, mas a redução da massa muscular. "Pacientes com sarcopenia costumam apresentar recuperação mais lenta, pior cicatrização, maior fragilidade metabólica e risco aumentado de complicações pós-operatórias."
Flávia acrescenta que mulheres na menopausa também precisam de uma avaliação clínica cuidadosa antes da cirurgia, incluindo correção de deficiências nutricionais e ajuste da terapia hormonal quando necessário, devido ao aumento do risco de trombose.
Dismorfia corporal pode dificultar percepção da própria imagem
Outro desafio é a dificuldade de reconhecer quando o emagrecimento já atingiu um limite saudável.
Segundo o cirurgião plástico Carlos Manfrim, a facilidade para perder peso fez com que muitas pessoas passassem a perseguir um padrão praticamente inatingível. "Muitas mulheres continuam se enxergando acima do peso, mesmo após grande emagrecimento. Quando a pessoa não consegue perceber sua imagem de forma realista, podemos estar diante da dismorfia corporal."
Ele ressalta que o acompanhamento psicológico é fundamental nesses casos.
Transtornos alimentares também preocupam
Além dos impactos físicos, especialistas alertam para o aumento do risco de transtornos alimentares.
Segundo Marcella Garcez, doenças como anorexia, bulimia e compulsão alimentar são multifatoriais, exigem tratamento multidisciplinar e podem colocar a vida em risco. "Os transtornos alimentares distorcem completamente a relação com o corpo e com a alimentação e representam um importante problema de saúde pública."
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Nélio acrescenta que a insatisfação corporal continua frequente entre mulheres acima dos 40 e 50 anos e nem sempre está relacionada ao excesso de peso. "Mesmo mulheres magras podem apresentar sofrimento intenso com a própria imagem, ansiedade, pior qualidade de vida e redução do bem-estar. O problema não é apenas o peso, mas a relação psicológica com o próprio corpo."