AMBIENTE DIGITAL

Nem tudo é TDAH: entenda quando a distração realmente indica um diagnóstico

Psiquiatra alerta para o aumento de autodiagnósticos e explica como diferenciar sintomas clínicos de dificuldades comuns do dia a dia

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Se você já se pegou rolando o feed das redes sociais e se identificou com uma lista de "sintomas de TDAH" por causa de um esquecimento ou uma distração no trabalho, saiba que você não está sozinho, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) virou um dos assuntos mais comentados do ambiente digital, gerando uma onda inédita de autodiagnósticos.

No entanto, o alerta dos especialistas é claro: nem toda distração é clínica. De acordo com o psiquiatra José Luis Leal, da Kora Saúde, o esquecimento e a dificuldade de concentração são respostas naturais do cérebro à sobrecarga de estímulos do mundo moderno e não significam, necessariamente, um transtorno mental.

"A verdade é que a gente exige demais do cérebro hoje em dia. É muita informação ao mesmo tempo, muita tela, e o resultado é uma mente exausta. Esse cansaço profundo cria uma desatenção que imita o TDAH perfeitamente. Só que, no fundo, quase sempre é apenas o corpo avisando que precisa desligar um pouco", explica o psiquiatra.

Para que a distração ou a impulsividade sejam consideradas sintomas de TDAH, elas precisam preencher critérios rígidos que vão muito além de um dia ruim ou de uma semana estressante. O psiquiatra aponta que existem três pilares que diferenciam o esquecimento comum do transtorno, e o primeiro deles é a cronicidade. “Como o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, os sintomas não aparecem de repente na vida adulta; eles precisam estar presentes e ser rastreáveis desde a infância, geralmente antes dos 12 anos”, ensina o médico.

Outro ponto fundamental é a consistência. A desatenção precisa ocorrer em praticamente todos os contextos da vida do indivíduo, no trabalho, nos relacionamentos afetivos, nos estudos e nas tarefas domésticas e não apenas em momentos de tédio ou desinteresse. Por fim, o médico destaca a necessidade de um prejuízo real. O comportamento deve causar um impacto negativo substancial e mensurável na rotina, como demissões recorrentes, problemas financeiros por desorganização ou um histórico crônico de dificuldades acadêmicas.

O perigo de assumir um diagnóstico baseado apenas em vídeos curtos da internet é duplo. Por um lado, há o risco da automedicação indevida com psicoestimulantes, que podem sobrecarregar o sistema cardiovascular e causar ansiedade extrema; já por outro, o indivíduo pode mascarar a verdadeira raiz do seu problema.

“Muitas vezes, a falta de foco é o reflexo de uma depressão subjacente, de um transtorno de ansiedade generalizada, de apneia do sono ou de um quadro de burnout. Ao focar em um diagnóstico errado, a pessoa acaba atrasando o tratamento correto e prolongando o sofrimento", alerta o médico.

Por isso, vale o lembrete de que o diagnóstico de TDAH é essencialmente clínico, dependendo de uma conversa detalhada no consultório, da análise do histórico familiar e, muitas vezes, do olhar de outros profissionais de saúde. Para quem sente que a falta de atenção está cobrando um preço alto demais no dia a dia, o caminho mais seguro e definitivo sempre será buscar a avaliação de um médico psiquiatra ou neurologista.

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