Vacina contra a dengue: 9 perguntas para o infectologista Carlos Starling
Segundo o especialista, quem já tomou a vacina não precisa entrar em pânico, já que eventos são raríssimos: 0,008%
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Com o anúncio do Ministério da Saúde, na última segunda-feira (8/6), de que vai suspender a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, o infectologista Carlos Starling esclarece algumas dúvidas a partir de questionamentos da própria população quanto à eficácia e os possíveis efeitos colaterais do medicamento.
A vacina estava sendo aplicada em profissionais de saúde e em moradores de alguns municípios brasileiros, incluindo Nova Lima (MG), após a divulgação de 42 casos de reações severas — incluindo duas mortes suspeitas e ainda sob investigação.
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Algumas pessoas relataram sintomas como: dores abdominais intensas, vômitos persistentes e sangramentos. Três casos foram considerados graves — incluindo os dois óbitos, que seguem em anáise.
Coincidentemente, hoje é o Dia Nacional de Imunização (9/6). Vamos às perguntas:
A suspensão da vacina não é a confissão de que ela é perigosa?
Não. É exatamente o contrário: é a prova de que o sistema de vigilância funciona. A vacina foi testada em cerca de 11 mil pessoas antes de ser aprovada — e nenhum estudo desse tamanho consegue detectar eventos que ocorrem em 1 a cada dezenas de milhares. É matematicamente esperado que sinais raríssimos só apareçam quando centenas de milhares são vacinadas. Detectar esses 42 casos e pausar para investigar é o sistema operando como foi projetado, não falhando.
Duas pessoas morreram. A vacina matou essas pessoas?
Até agora, não há comprovação de relação de causa e efeito. São eventos temporalmente associados — ocorreram depois da vacina —, o que é diferente de terem sido causados por ela. Com 500 mil pessoas vacinadas num país endêmico, uma fração teria dengue grave, problemas neurológicos ou morte por puro acaso, vacinada ou não. O trabalho do comitê de especialistas é justamente separar o que a vacina causou do que aconteceria de qualquer forma. A pausa existe para responder isso com dados.
Então por que parar, se nada foi provado?
Por precaução — o princípio que deve guiar quem respeita a vida e a ciência. A própria Anvisa chamou a decisão de "adequada e equilibrada". E o momento é favorável: a dengue está em níveis historicamente baixos em 2026, com queda de mais de 90% nos casos frente a 2024. Dá para investigar com calma sem expor a população a um surto. Parar agora custa pouco e protege muito.
Isso já aconteceu antes? Como terminou?
Sim, e os precedentes são esclarecedores. Em 1999, a primeira vacina contra rotavírus (RotaShield) foi suspensa nos EUA após 15 casos de obstrução intestinal. A investigação confirmou o risco e a vacina foi retirada — mas isso forçou o desenvolvimento de vacinas de segunda geração, hoje seguras e que salvam vidas num contexto em que o rotavírus matava 500 mil crianças por ano no mundo. As autoridades compararam essa suspensão à célebre remoção da bomba d'água de John Snow: uma ação decisiva de saúde pública.
E o caso da Dengvaxia, nas Filipinas? Não foi um desastre?
Foi, mas a lição principal é sobre comunicação, não sobre a vacina em si. Lá, mais de 830 mil crianças foram vacinadas em massa antes de se descobrir que pessoas nunca antes infectadas tinham risco aumentado de dengue grave. O risco real era pequeno — cerca de 4 casos graves por 1.000 nesse subgrupo em cinco anos —, mas a comunicação alarmista virou pânico nacional e destruiu a confiança vacinal por anos. A vacina nem foi descartada pela ciência: segue recomendada pelo ACIP dos EUA e está na lista de medicamentos essenciais da OMS, usada com triagem prévia. O Brasil parece estar evitando esse erro ao ser transparente desde o primeiro dia.
Afinal, o que é mais perigoso: a vacina ou a dengue?
A dengue, de longe. No pior cenário possível — assumindo que a vacina causou as duas mortes — o risco seria de 1 em 250 mil. Já a letalidade da dengue foi de cerca de 1 em 1.000 casos em 2024 e 2025. Ou seja, morrer pela dengue é da ordem de 240 a 270 vezes mais provável. E entre casos graves a letalidade chega a 4% — 1 em 25 — exatamente o desfecho contra o qual a vacina protege em 85%. Os números pedem rigor na investigação, mas não pânico.
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Quem já tomou não precisa entrar em pânico. Os eventos sob investigação são raríssimos — 0,008% dos vacinados apresentaram sinais de alarme. Quem tomou e está bem, está bem. A orientação é a de sempre: diante de febre, dor abdominal intensa ou vômitos persistentes, procurar atendimento — orientação que vale para qualquer pessoa em período de circulação de dengue, vacinada ou não.
A vacina vai voltar?
Essa é a pergunta honesta a que ninguém pode responder com certeza agora — e tentar seria desonesto. Depende do que a investigação encontrar. O Butantan declarou ter esperança de reunir dados que demonstrem o benefício e permitam a retomada. Mas o ponto mais importante não é se essa vacina específica volta: é que o mecanismo de pausar para investigar é justamente o que garante que vacinas seguras continuem e que problemas, se existirem, sejam corrigidos. Nos dois desfechos, a população sai protegida.
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Isso não vai alimentar o movimento antivacina?
O risco existe, e é por isso que a comunicação precisa ser clara. Mas a resposta certa ao negacionismo não é esconder dados — é mostrar que o sistema é tão sério que pausa até para investigar dois casos não comprovados. Como bem separou o ministro, isso nada tem a ver com as "mentiras" que associam vacina a autismo e afins; é o oposto: é ciência rigorosa baseada em dados de farmacovigilância. Transparência derrota desinformação; segredo a alimenta.