Em um cenário em que separações se tornam cada vez mais frequentes e judicializadas, um aspecto ainda permanece à margem das discussões: o impacto emocional sobre crianças e adolescentes.

Muitas vezes invisibilizados no centro dos conflitos entre adultos, filhos acabam expostos a disputas, tensões e rupturas que podem deixar marcas silenciosas e duradouras.

Especialistas apontam que, quando o fim da conjugalidade não é elaborado de forma consciente, há uma tendência de transferência dos impasses do casal para a dinâmica parental.

Nesse contexto, crianças podem ser colocadas em posições delicadas, como mediadoras involuntárias, alvo de disputas por guarda ou até mesmo instrumento de retaliação entre os pais. O resultado, segundo profissionais da área, pode se manifestar em ansiedade, insegurança, dificuldades escolares e prejuízos na construção de vínculos afetivos.

Durante o processo de separação, as principais dores vividas pelos adultos costumam envolver sentimentos de frustração, luto pelo fim do projeto de vida em comum, medo do futuro e dificuldades na comunicação, que intensificam conflitos e ressentimentos.

Já para crianças e adolescentes, o sofrimento aparece de forma mais silenciosa e, por vezes, difusa: insegurança diante das mudanças, medo de abandono, culpa pela separação dos pais e angústia ao se verem no meio de disputas ou obrigados a tomar partidos.

“Esse conjunto de emoções, quando não compreendido adequadamente, pode gerar impactos significativos no desenvolvimento emocional e na forma como esses jovens constroem suas relações ao longo da vida”, pontua a psicanalista Renata Bento, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

Para Renata, é fundamental reposicionar o olhar diante dessas situações. “O centro não é o conflito entre adultos, mas os filhos. Partimos da convicção de que duas casas podem existir sem infâncias fragmentadas”, afirma.

A psicanalista destaca ainda a importância de diferenciar a ruptura conjugal da continuidade da função parental, preservando o espaço emocional das crianças.

No campo jurídico, a advogada Ana Paula Ficheira Del-Vecchio alerta que a judicialização excessiva pode agravar o cenário. “Em muitos casos, a falta de diálogo entre os genitores e a judicialização excessiva acabam tornando o processo mais desgastante e menos eficiente, ampliando o impacto sobre todos os envolvidos. É fundamental que as partes compreendam que o processo não pode ser conduzido como uma extensão do conflito conjugal, mas sim como uma reorganização responsável da parentalidade, com foco na proteção dos direitos e do melhor interesse dos filhos”, afirma.

A advogada ressalta ainda que separações envolvendo filhos exigem atenção especial do ponto de vista jurídico. “Questões como definição de guarda, regulamentação de convivência, fixação de alimentos e eventuais alegações de alienação parental demandam decisões rápidas, técnicas e bem fundamentadas, sob pena de intensificar a instabilidade familiar e emocional”, destaca.

Diante desse cenário, especialistas defendem abordagens mais integradas e humanizadas, capazes de compreender tanto os aspectos legais quanto emocionais envolvidos na separação.

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O desafio é construir caminhos que permitam a reorganização familiar sem transformar crianças e adolescentes em vítimas silenciosas de disputas que não lhes pertencem.

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