O avanço das doenças crônicas silenciosas tem preocupado profissionais da saúde no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que os casos de diabetes cresceram 135% no país em 18 anos, enquanto cerca de 30% dos adultos brasileiros convivem com a hipertensão arterial. A preocupação é que muitas dessas condições podem evoluir por anos sem sintomas evidentes, atrasando o diagnóstico e aumentando o risco de complicações graves, como infarto, AVC e insuficiência renal.

Exames laboratoriais e de imagem realizados periodicamente são fundamentais para identificar alterações ainda nas fases iniciais da doença, muitas vezes antes mesmo do aparecimento dos sintomas. Mudanças discretas, como a presença de proteína na urina, podem indicar comprometimento renal precoce e ser detectadas por meio de exames como o de urina 24 horas.

“A prevenção ainda é a principal ferramenta para identificar doenças silenciosas. Muitas alterações aparecem primeiro nos exames, não no corpo. Um paciente pode descobrir uma lesão renal inicial por meio de uma proteinúria identificada em exames laboratoriais, mesmo sem apresentar qualquer sintoma. Esse diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento antes da progressão da doença”, explica Flávia Pieroni, endocrinologista do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica.

Quando o corpo quase não dá sinais

1. Hipertensão arterial
Conhecida como uma das principais doenças silenciosas, a hipertensão arterial pode permanecer assintomática durante anos. Em muitos casos, o diagnóstico só ocorre após complicações cardiovasculares. De acordo com Breno Giestal, cardiologista do Alta Diagnósticos, no Rio de Janeiro, a condição aumenta o risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e doença renal. “A hipertensão é chamada doença silenciosa porque, na maioria dos casos, o paciente só percebe quando surgem complicações. Por isso, aferir a pressão regularmente e manter acompanhamento cardiológico faz diferença no diagnóstico precoce”, afirma.

A aferição da pressão arterial – cujos parâmetros considerados normais atualmente são abaixo de 120/80 mmHg – somada à avaliação médica e a exames como eletrocardiograma, teste ergométrico e ecocardiograma, complementam a avaliação cardiovascular.

2. Diabetes tipo 2
O diabetes tipo 2 também pode evoluir silenciosamente por anos. “É comum encontrarmos pacientes com alterações importantes na glicemia sem nenhum sintoma evidente. Muitas vezes, o diagnóstico ocorre durante um check-up ou na investigação de outras condições, como hipertensão, alteração renal ou colesterol elevado. Quando não controlado, o diabetes tipo 2 pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, insuficiência renal, perda de visão e comprometimento da circulação. Sede excessiva, fadiga, perda de peso e alterações visuais costumam surgir em fases mais avançadas”, alerta a endocrinologista.

Exames de glicemia e hemoglobina glicada estão entre os principais métodos para diagnóstico e acompanhamento da doença.

3. Colesterol alto
Segundo o dr. Breno Giestal, o colesterol elevado normalmente não provoca sintomas, mas favorece o acúmulo de gordura nas artérias ao longo do tempo, aumentando o risco cardiovascular. Em muitos casos, a alteração é descoberta apenas em exames de rotina, como o lipidograma, o teste mais utilizado para avaliar os níveis de colesterol e triglicerídeos no organismo.

4. Doença renal crônica
Os primeiros sinais da doença renal crônica costumam ser discretos. De acordo com a dra. Flávia Pieroni, hipertensão e diabetes estão entre os principais fatores de risco para a doença. “Muitos pacientes descobrem a doença renal em estágios avançados, quando os rins já perderam parte importante da capacidade de filtração. Os sinais iniciais costumam ser discretos e facilmente ignorados, como inchaço nas pernas e nos pés, urina com espuma excessiva, cansaço frequente e alterações na pressão arterial. Exames simples de sangue e urina conseguem identificar alterações precoces e ajudar a evitar a progressão da doença para quadros mais graves”, afirma.

Exames como creatinina, ureia, urina 24 horas, análise de urina e ultrassom renal ajudam na investigação e no acompanhamento da saúde renal.

5. Esteatose hepática
Conhecida popularmente como gordura no fígado, a esteatose hepática está frequentemente associada à obesidade, ao diabetes e à síndrome metabólica. A doença pode permanecer silenciosa durante anos e evoluir para quadros mais graves, como inflamação hepática e cirrose.

Ultrassom abdominal e exames laboratoriais para avaliação das enzimas hepáticas estão entre os principais métodos utilizados para investigação.

6. Osteoporose
A osteoporose também pode avançar sem sintomas aparentes. Em muitos casos, a doença só é descoberta após fraturas causadas por quedas leves ou pequenos impactos. O risco aumenta principalmente após a menopausa e com o envelhecimento.

A densitometria óssea é o principal exame utilizado para avaliar a perda de massa óssea.

“Mulheres na pós-menopausa e homens acima de 50 anos com fatores de risco adicionais, como baixo peso, histórico familiar de fraturas ou uso crônico de certos medicamentos como corticoides, também podem fazer. Além disso, pessoas de qualquer idade que já sofreram fraturas por fragilidade ou que apresentam evidências radiográficas de perda de massa óssea devem investigar a condição com o exame”, afirma Laura Mendonça, reumatologista e densitometrista da clínica CDPI.

7. Câncer colorretal
O câncer colorretal pode não apresentar sintomas nas fases iniciais, o que reforça a importância do rastreamento preventivo. Quando presentes, os sinais podem incluir alteração do hábito intestinal, sangramento e perda de peso.

Exames como pesquisa de sangue oculto nas fezes e colonoscopia ajudam no diagnóstico precoce e aumentam as chances de tratamento. Além disso, avaliação de predisposição genética à doença também pode contribuir para sua detecção ainda em estágios iniciais.

“Embora os hábitos de vida tenham um peso enorme como causas do câncer colorretal, como ingestão excessiva de embutidos, refrigerantes e ultraprocessados, cerca de 10% dos casos em jovens possuem uma base hereditária. Identificar precocemente variantes genéticas por meio de exames de predisposição permite que o paciente saiba se possui um risco biológico elevado antes mesmo de qualquer sintoma aparecer. Se houver predisposição, o monitoramento por meio de colonoscopia deve começar muito antes do que as diretrizes gerais sugerem: atualmente, a partir dos 45 anos”, afirma Thereza Loureiro, oncogeneticista da Dasa Genômica e dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, marcas da Dasa no Rio de Janeiro.
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