O Alzheimer é frequentemente associado às falhas de memória que surgem na velhice. Mas, segundo especialistas, a doença pode começar a se desenvolver décadas antes dos sintomas clássicos aparecerem. Esse período inicial, em que o cérebro já sofre alterações sem que a pessoa perceba, vem sendo chamado de “Alzheimer silencioso”.
De acordo com a médica geriatra Simone de Paula Pessoa Lima, da empresa especializada em home care, Saúde no Lar, o termo descreve justamente a fase em que a doença já está em atividade no cérebro, mas ainda não provoca sinais evidentes no dia a dia.
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“O termo ‘Alzheimer silencioso’ se refere a um período em que a doença já está agindo no cérebro, mas a pessoa ainda não apresenta nenhum sintoma evidente. Hoje sabemos que o acúmulo de proteínas anormais pode começar de 15 a 20 anos antes das primeiras falhas de memória serem notadas pela família”, explica.
A especialista afirma que essa descoberta mudou a forma como a medicina compreende a doença. “O Alzheimer deixou de ser visto apenas como ‘coisa da idade avançada’ e passou a ser entendido como um processo lento e contínuo, que começa muito antes de o paciente chegar ao consultório.”
O que acontece no cérebro
Durante essa fase silenciosa, alterações progressivas ocorrem no cérebro mesmo quando a pessoa aparenta estar saudável. Segundo Simone, proteínas anormais começam a se acumular e comprometem o funcionamento das células cerebrais.
“Na prática, o cérebro passa por uma espécie de ‘acúmulo de lixo tóxico’. Primeiro, a proteína beta-amiloide se deposita entre os neurônios, formando placas. Depois, a proteína tau se acumula dentro das células. Isso gera uma inflamação silenciosa e vai ‘desligando’ as conexões entre os neurônios, levando à morte celular”, detalha.
As primeiras regiões afetadas são áreas importantes para a memória e o aprendizado, como o hipocampo. O problema, segundo a geriatra, é que o cérebro ainda consegue compensar os danos por muito tempo.
“Como a pessoa ainda consegue realizar suas tarefas diárias normalmente em casa ou no trabalho, o problema passa despercebido a olho nu. Quando a memória finalmente começa a falhar, uma parte significativa dos neurônios já foi perdida.”
Mudanças sutis podem ser sinais de alerta
Embora o quadro clássico de demência demore a surgir, alguns sinais discretos podem aparecer anos antes do diagnóstico. A médica destaca que lapsos ocasionais fazem parte da rotina de qualquer pessoa, mas algumas mudanças merecem atenção.
“Não estamos falando de esquecer onde deixou a chave, mas de lapsos diferentes: dificuldade cada vez maior para encontrar palavras no meio de uma frase, perder-se em trajetos conhecidos ou apresentar uma desatenção incomum.”
Mudanças de comportamento também podem ocorrer. De acordo com ela, uma pessoa antes muito ativa pode perder o interesse pelos próprios hobbies ou começar a ter dificuldade para planejar tarefas que sempre executou com facilidade, como organizar as contas da casa. Quando esses sinais passam a ser frequentes e interferem na rotina, é importante procurar avaliação médica.
Fatores de risco e prevenção
A idade continua sendo o principal fator de risco para o Alzheimer, mas hábitos de vida têm impacto importante no desenvolvimento da doença. Pressão alta, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo e isolamento social estão entre os fatores associados ao aumento do risco.
“A boa notícia é que o que faz bem para o coração e para os músculos também faz bem para o cérebro”, ressalta Simone. Ela destaca que atividade física, alimentação equilibrada, sono adequado e controle das doenças crônicas são medidas fundamentais. Além disso, manter a mente ativa e preservar vínculos sociais ajuda a fortalecer o que os médicos chamam de reserva cognitiva.
“Aprender coisas novas, conviver com amigos e manter uma vida social ativa são algumas das melhores ferramentas de prevenção”, afirma.
Exames conseguem identificar alterações precoces
Os avanços da medicina também têm permitido detectar sinais do Alzheimer antes do aparecimento dos sintomas clássicos. Exames como PET scan cerebral, análise do líquor e testes sanguíneos modernos conseguem identificar proteínas associadas à doença.
“Vivemos um momento histórico na medicina. Hoje, já contamos com exames que detectam a presença dessas proteínas anormais antes mesmo dos sintomas começarem”, explica a geriatra.
Ela ressalta, porém, que os exames não substituem a avaliação clínica. “Nenhum exame substitui uma boa consulta. O diagnóstico do Alzheimer exige ouvir com atenção a história do paciente e de seus familiares.”
Diagnóstico precoce dá mais qualidade de vida
Embora o Alzheimer ainda não tenha cura, identificar a doença cedo pode ajudar a retardar sua progressão e preservar a autonomia do paciente por mais tempo.
“Descobrir a doença cedo faz toda a diferença porque nos permite agir enquanto o cérebro ainda tem uma boa reserva de funcionamento.”
Segundo a médica, o diagnóstico precoce permite controlar fatores de risco, iniciar medicamentos e terapias de estímulo cognitivo, além de preparar o paciente e a família para as mudanças futuras.
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“Quanto mais forte estiver o corpo e a mente, mais resistência o cérebro terá contra a doença, garantindo mais independência e qualidade de vida por muito mais tempo.”
