A cena é comum: a criança que não para quieta na sala de aula, que se irrita com facilidade, evita certos alimentos ou não tolera barulhos e texturas. Para muitos adultos, esses comportamentos ainda são interpretados como “falta de limite” ou indisciplina. Mas, em muitos casos, o que está por trás dessas reações é uma dificuldade de regulação sensorial, um aspecto do desenvolvimento infantil que vem ganhando atenção nos consultórios e nas escolas.

A regulação sensorial diz respeito à forma como o cérebro recebe, organiza e responde aos estímulos do ambiente, como sons, luz, toque e movimento. Quando esse processamento não acontece de maneira eficiente, a criança pode ficar mais agitada, irritada ou, ao contrário, retraída, não por escolha, mas por dificuldade em lidar com o excesso (ou a falta) de estímulos.

Segundo a terapeuta ocupacional Catiuscia Homem, CEO da Bloom, entender esse processo é essencial para evitar rótulos equivocados e garantir o suporte adequado. “Muitas crianças são vistas como ‘difíceis’, quando, na verdade, estão sobrecarregadas sensorialmente. O comportamento é uma forma de comunicação e, quando a gente aprende a ler esses sinais, muda completamente a forma de intervir”, explica.

Sinais que merecem atenção

Embora cada criança tenha seu próprio ritmo de desenvolvimento, alguns comportamentos podem indicar dificuldade de regulação sensorial:

  • Incômodo intenso com barulhos, luzes ou multidões
  • Seletividade alimentar relacionada a textura ou temperatura
  • Evitar contato físico ou, ao contrário, buscar estímulos o tempo todo
  • Dificuldade em permanecer sentada ou focada por períodos curtos
  • Reações desproporcionais a pequenas frustrações

De acordo com Catiuscia, esses sinais costumam aparecer tanto em casa quanto na escola e muitas vezes são percebidos primeiro pelos professores. “A escola é um ambiente rico em estímulos e, por isso, acaba evidenciando essas dificuldades. Por isso, o diálogo entre família e educadores é fundamental”, afirma.

O papel da terapia ocupacional

É nesse contexto que entra a terapia ocupacional, com foco no desenvolvimento da autonomia e na adaptação da criança ao ambiente. A intervenção envolve atividades lúdicas, ajustes na rotina e estratégias para ajudar o cérebro a processar melhor os estímulos do dia a dia.

“A terapia ocupacional não busca ‘controlar’ a criança, mas ajudá-la a se organizar internamente para que ela consiga participar das atividades com mais conforto e autonomia. Muitas vezes, pequenas mudanças na rotina e no ambiente já fazem uma grande diferença”, destaca Catiuscia.

O que pode ser feito?

Além do acompanhamento profissional, algumas atitudes podem ajudar pais e educadores no dia a dia:

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  • Observar padrões de comportamento e possíveis gatilhos
  • Evitar julgamentos e punições imediatas
  • Oferecer previsibilidade na rotina
  • Criar ambientes com menos sobrecarga sensorial
  • Validar os sentimentos da criança

Mais do que corrigir comportamentos, o desafio é compreender o que eles estão tentando dizer. Em um cenário de aumento das queixas relacionadas à atenção, comportamento e aprendizagem, a escuta qualificada e o olhar para o desenvolvimento sensorial podem ser decisivos para promover bem-estar e qualidade de vida desde a infância.

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