Uma série de pesquisas recentes acende um sinal de alerta sobre o comportamento e o bem-estar de meninos e jovens homens, especialmente os da geração Z, ou seja, nascidos entre 1997 e 2012. Entre os principais pontos de preocupação estão o crescimento de discursos misóginos, o isolamento social e o agravamento de indicadores de saúde mental.
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Um dos dados mais inquietantes vem de estudos internacionais, como a pesquisa Ipsos Global Trends, divulgada em março de 2026, que mostra que meninos mais jovens têm apresentado visões mais machistas do que gerações anteriores, incluindo a crença de que mulheres devem obedecer aos maridos. O fenômeno chama atenção por ocorrer justamente em um contexto de maior debate público sobre igualdade de gênero.
Nas redes sociais, esse cenário se reflete no aumento de conteúdos com discurso de ódio contra mulheres, muitas vezes amplificados por influenciadores que promovem visões distorcidas de masculinidade. Sem referências sólidas no mundo offline, muitos adolescentes acabam encontrando nesses espaços digitais modelos de comportamento, muitas vezes não saudáveis.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com o impacto do uso excessivo de telas, redes sociais e jogos online, que tem sido associado a isolamento social, sedentarismo, ansiedade e dificuldades de interação na vida real. Esse ambiente pode reforçar bolhas de pensamento e afastar ainda mais meninos e meninas, que já demonstram distanciamento crescente em valores e visões de mundo.
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Para a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), o papel da família é central para enfrentar esse cenário. “A presença ativa dos pais ou responsáveis faz toda a diferença. É fundamental criar um ambiente de diálogo aberto, sem julgamentos, para que o jovem se sinta seguro para compartilhar o que pensa e o que consome na internet”, afirma.
Outro estudo relevante, o relatório Lost Boys, divulgado em março de 2025 no Reino Unido, reforça esse quadro ao apontar que jovens homens vêm apresentando pior desempenho escolar, além de serem maioria entre os chamados “nem-nem” — aqueles que não estudam nem trabalham. O levantamento também destaca que homens jovens são mais propensos ao suicídio, evidenciando um cenário preocupante em termos de saúde mental.
O relatório chama atenção ainda para um fator estrutural: a ausência de referências masculinas positivas, como figuras paternas ou modelos de cuidado e responsabilidade. Essa lacuna pode contribuir para que meninos busquem orientação em ambientes digitais, onde frequentemente encontram discursos extremos ou simplificados sobre o que significa “ser homem”.
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Danielle também destaca a importância de acompanhamento e limites no uso de telas. “Não se trata apenas de restringir, mas de orientar. Os responsáveis precisam saber o que os filhos estão assistindo, com quem estão interagindo e estabelecer limites de tempo e de conteúdo adequados à idade. Isso ajuda a proteger e também a formar senso crítico”, explica.
O desafio é complexo e passa por diferentes esferas — da educação às dinâmicas familiares, passando pela regulamentação de conteúdos digitais, como está acontecendo com o ECA Digital, e pela promoção de espaços de escuta e acolhimento.
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A questão que se impõe é: como apoiar o desenvolvimento saudável dos meninos sem retroceder nos avanços das mulheres? Mais do que uma disputa, o tema aponta para a necessidade de olhar com atenção para uma geração que, em meio a tantas transformações sociais, parece estar perdendo referências, vínculos e perspectivas de futuro.
