Os implantes hormonais usados para fins estéticos, também chamados de chips da beleza, são alvo, ao mesmo tempo, de medidas contra o seu uso indiscriminado e de especialistas e influenciadores que vendem os hormônios como uma fórmula para recuperar a disposição, potencializar a perda de massa magra, promover aumento de libido, entre outros ganhos.
Em 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma resolução suspendendo a manipulação, comercialização, propaganda e o uso de implantes hormonais manipulados (feitos em farmácias de manipulação).
A medida foi tomada a partir de denúncias apresentadas por entidades médicas, entre elas a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que apontam um crescimento no atendimento de pacientes com problemas decorrentes do uso de implantes que misturam diversos hormônios em formato implantável, inclusive substâncias que não possuem evidência de eficácia e segurança para essa forma de uso.
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Segundo entidades, eles podem conter inúmeras substâncias, normalmente compostas por testosterona ou por gestrinona - um progestágeno com efeito androgênico (desenvolvimento de características masculinas). Combinações contendo estradiol, oxandrolona, metformina, ocitocina, outros hormônios e nicotinamida adenina dinucleotídeo (NADH) também são produzidas.
Não aprovados pela Anvisa para uso comercial e produção industrial, os implantes hormonais, quando manipulados, não possuem bula ou informações adequadas sobre farmacocinética, eficácia ou segurança. A exceção é o implante de etonogestrel, chamado de Implanon, que é aprovado como anticoncepcional e, recentemente, foi incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Vale destacar que não existe dose segura para o uso de hormônios para fins estéticos ou de performance e seus efeitos colaterais podem ser imprevisíveis e graves. Especialistas destacam casos de:
- Infarto agudo do miocárdio
- Tromboembolismo
- Acidente vascular cerebral (AVC)
- Complicações cutâneas, hepáticas, renais e musculares
- Infecções
- Manifestações psicológicas e psiquiátricas, como ansiedade, agressividade, dependência, abstinência e depressão
Anabolizante
Paulo Augusto Carvalho Miranda, endocrinologista e ex-presidente da SBEM (23/24), deu início ao debate sobre o tema no Segundo Congresso de Departamentos da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), realizado entre os dias 10 e 11 deste mês. “Quem de vocês já recebeu, via WhatsApp ou Instagram, propostas de curso para acesso a pacientes high ticket? Ou parcerias?”, questionou.
A prática, segundo ele, é uma estratégia da indústria da manipulação para transformar consultórios em pontos de venda de manipulados. “Infelizmente, alguns colegas aceitam”, afirma. A manipulação, no geral, não é proibida no Brasil, mas o que deveria ser exceção vira regra no mundo dos implantes, em que as indicações de uso são vagas, genéricas e repletas de promessas.
“Hoje, a indicação vai desde a desregulação hormonal, menopausa e sarcopenia, muitas vezes para problemas reais, mas para os quais não há evidência científica que sustente aquela medicação”, destaca.
Em resumo, a terapia hormonal nesse molde é um esteroide anabolizante, que integra a lista C5 da Anvisa, que regulamenta substâncias anabolizantes sujeitas a controle especial, e também é proibida pela Federação Mundial de Antidoping. “Nós temos problemas críticos: ausência de estudos de estabilidade bem conduzidos e falta de metodologia científica, porque, evidentemente, há estudos publicados em revistas predatórias a partir do pagamento, que validam aquilo que está sendo falado, mas isso não é ciência”, explica.
A prática também tem sido mascarada com o nome de ‘hormônios bioidênticos’ (THB) - substâncias hormonais que possuem a mesma estrutura química e molecular encontrada nos hormônios sintetizados pelo corpo humano. Porém, é só mais uma nomenclatura para definir formulações hormonais produzidas em laboratórios de manipulação.
“Apesar da defesa por alguns profissionais de saúde com argumentos de que a THB seja uma terapia hormonal natural, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas e a Sociedade Americana de Saúde Reprodutiva defendem a posição de que não há dados disponíveis que corroborem esse tipo de prescrição sem padrão adequado e definido”, declara a Febrasgo sobre o tema.
Paulo Augusto Carvalho destaca que a indústria da manipulação tem estratégias para transformar consultórios em pontos de venda de manipulados
Quando a testosterona vai ser indicada para a mulher?
Para Bárbara Campos de Abreu Marino, cardiologista, coordenadora da Cardiologia do Hospital Madre Teresa e professora de Medicina da PUC Minas (Campus Betim), tem sido cada vez mais comum ouvir que “a menopausa causa uma queda abrupta e dramática dos níveis de testosterona”; que “toda mulher precisa de testosterona para energia, foco mental e vitalidade”; ou que “um exame de sangue mostrando testosterona ‘baixa’ confirma a necessidade de tratamento”.
Quando, na realidade, o declínio é gradual e relacionado à idade, iniciando-se por volta dos 20 ou 30 anos, ou seja, não há queda súbita na menopausa natural. Além disso, níveis séricos, que representam a concentração de determinada substância, não preveem sintomas, sendo necessário um diagnóstico clínico individualizado.
“Mesmo após a menopausa, os ovários continuam a produzir testosterona, embora em quantidades reduzidas. Às vezes, temos até um leve aumento, uma vez que ocorre a queda da globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), responsável por transportar hormônios sexuais, o que pode levar a um aumento temporário da testosterona livre no corpo”, informa.
Uma exceção a essa queda da testosterona seria a remoção cirúrgica dos ovários, que leva a uma redução súbita de até 50% da testosterona. “Mas temos que lembrar que os ovários são responsáveis por apenas 25% da produção desse hormônio, seguidos pelas glândulas suprarrenais (25%) e pelos tecidos periféricos (50%)”, pontua a docente.
Um estudo da Austrália, publicado no The Lancet, avaliou a concentração sanguínea de testosterona e pré-androgênios em 1.104 mulheres com idade entre 40 e 69 anos, as quais não faziam uso de nenhuma medicação que pudesse interferir na dosagem. Os resultados destacam dois pontos:
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Os níveis de testosterona das participantes diminuíram, em média, 25% entre as idades de 40 e 58 anos
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Não houve diferença nos níveis de testosterona entre mulheres na pré-menopausa, perimenopausa ou pós-menopausa
“Com isso, os pesquisadores concluíram que as concentrações de testosterona diminuem a partir dos 40 anos de idade e que a menopausa, por si só, não é indicada para suplementação de testosterona. Ou seja, a testosterona na mulher declina com a idade, e não com a menopausa.”
Para Bárbara Campos, tem sido cada vez mais comum ouvir que "toda mulher precisa de testosterona para energia, foco mental e vitalidade"
O que temos de utilização baseada em evidência para o uso da testosterona?
De acordo com Bárbara Campos, a única evidência consistente é para o desejo sexual hipoativo (DSHH) em mulheres na pós-menopausa. “Porém, ainda faltam dados robustos sobre a segurança a longo prazo, em 24 meses, e sobre o uso em mulheres na pré-menopausa.”
Ainda assim, a especialista enfatiza que apenas o nível de testosterona total não deve ser utilizado para diagnosticar o DSHH, mas sim como um valor de referência para monitoramento, já que se trata de um diagnóstico complexo, que requer avaliação biológica, psicológica e relacional da mulher - levando em consideração fatores como baixa de estrogênio, problemas no relacionamento, uso de medicações (como os inibidores de recaptação de serotonina, que interferem na libido), estresse, falta de sono e excesso de carga de trabalho.
“No final, a pergunta não é se ‘a testosterona funciona para todos’, mas sim: ‘para quem, para quê, em que dose, por quê e por quanto tempo?’. E hoje a ciência responde de forma muito mais restrita do que o marketing das empresas”, afirma.
Órfãs de tratamento
Mas, se o implante não é indicado para tratar esses sintomas, o que fazer? Para Paulo, é importante destacar que pacientes com indicação de implante, na verdade, não estão sendo tratados.
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“Na verdade, quem trata é o médico que sabe o que está fazendo, seja ele endocrinologista, ginecologista etc. O ponto mais importante é que a endocrinologia não é contra o uso de terapias hormonais, ela é contra o abuso. O implante hormonal, muitas vezes, representa esse abuso, porque tem uma lógica comercial e não apresenta um padrão de qualidade adequado para ser utilizado em larga escala”, aponta.
