RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Se o cuidador é quem cuida do paciente, por quem ele é cuidado? Essa é uma questão pertinente ao refletir sobre a saúde de parentes, cônjuges ou amigos que se responsabilizam por estar ao lado de uma pessoa com câncer: o cuidado consigo mesmo.
Os desafios que o paciente oncológico enfrenta durante o tratamento têm potencial de adoecer também quem está ao lado, segundo especialistas. Por isso, a atenção com o cuidador tem ganhado força entre oncologistas e sociedades médicas.
A atenção ao cuidador deve ser abordada pelo oncologista desde as primeiras consultas, segundo a médica Clarissa Baldoto, diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, que ministrou uma aula sobre a atenção à saúde mental do cuidador durante o congresso Onco in Rio, realizado pela Rede D?Or, nos dias 27 e 28 de março, no Rio de Janeiro.
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"Uma família que descobre o câncer vai ter conflitos, e nós, médicos, não podemos interferir nem criar mais. Precisamos administrá-los", diz.
A rotina intensa de cuidados com um paciente oncológico pode levar o cuidador a um processo de adoecimento físico e emocional, segundo recomendações da American Cancer Society. Entre os quadros mais comuns estão estresse crônico, burnout, ansiedade e depressão, além de alterações do sono, queda da imunidade e agravamento de doenças pré-existentes.
A sobrecarga contínua -marcada por longas jornadas, preocupação constante e negligência das próprias necessidades- também pode resultar em isolamento social e sensação de esgotamento emocional, evidenciando que, sem suporte e autocuidado, o cuidador se torna vulnerável a um ciclo de adoecimento semelhante ao do próprio paciente.
Clarissa afirma que a postura de um cuidador pode melhorar ou piorar a adesão ao tratamento, mas, para ser útil, a pessoa precisa, antes de tudo, estar saudável. Para ela, o médico não é ensinado a lidar com a saúde mental dos pacientes e acompanhantes. Ainda assim, é otimista: "a medicina está se conscientizando por conta própria sobre a importância disso".
Veja a seguir dicas da médica e da Sociedade Americana de Câncer para que pacientes e cuidadores tenham uma vida equilibrada durante o tratamento do câncer.
CONVERSE COM O MÉDICO
Segundo Clarissa, além de o médico identificar o lugar de cada familiar no tratamento, o cuidador também precisa conhecer o seu papel.
Para isso, é necessário conversar com os profissionais, ouvir as recomendações e encarar com clareza os prognósticos, sejam eles positivos ou negativos.
É por meio da conversa que o cuidador passa a discernir cada fase do tratamento e, consequentemente, repassar ao paciente as orientações médicas e por que elas devem ser seguidas.
"Buscar informações sobre a doença, sobre o que esperar de reações, efeitos colaterais, periodicidade do tratamento. Isso acaba te ajudando a ficar mais preparado para enfrentar a carga emocional", explica Clarissa.
ORGANIZE A ROTINA
Organizar a rotina é importante para evitar a sobrecarga do cuidador. Por isso, dividir responsabilidades com outros familiares e organizar tarefas em listas pode ajudar, como horários de consultas e medicações.
Estabelecer uma rotina realista é fundamental para não gerar frustrações com eventuais falhas, que são naturais. Faça o que é possível, e não se culpe por não dar conta em algum momento.
CUIDE DA SAÚDE MENTAL
Em situações em que o câncer exige muito do cuidador, é comum o desgaste mental. Há casos em que a pessoa precisa se afastar do trabalho e abandonar atividades de lazer, como sair com amigos ou praticar esportes, o que pode levar ao isolamento social.
Por isso, é importante reconhecer os limites e reservar tempo para si. Atividade física, lazer, contato com amigos e familiares e momentos de descanso são fundamentais.
Participar de grupos de apoio com outros cuidadores para troca de experiências pode ser útil -eles são comuns nos Estados Unidos.
"A gente sempre recomenda psicoterapia para o paciente, mas seria interessante que o cuidador também fizesse", diz Clarissa.
ATENÇÃO À SOBRECARGA
Cansaço extremo constante, irritabilidade ou tristeza persistente, isolamento social e problemas de sono podem indicar sobrecarga.
Sintomas físicos também podem aparecer, como dor, tensão e queda da imunidade. Nesses casos, é importante procurar apoio profissional e, se necessário, um médico.
Muitas pessoas abandonam a própria rotina de cuidados, como consultas médicas, o que abre brechas para o surgimento de doenças ou para diagnósticos tardios.
CUIDE DO CORPO
Além de manter consultas médicas periódicas, cuidados simples, como dormir bem e manter uma alimentação equilibrada, fazem diferença.
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O jornalista viajou ao congresso a convite da Rede D'Or.
