Abril, mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), traz em 2026 o tema Autonomia se constrói com apoio, um conceito que, na prática, reforça a importância de ambientes e profissionais preparados para atender diferentes perfis de pacientes. Mais do que uma data simbólica, o período também funciona como um convite à revisão de práticas na área da saúde.
Na odontologia, esse contexto ganha relevância. Consultórios concentram estímulos que, para a maioria das pessoas, passam despercebidos, mas que podem gerar desconforto em pacientes com TEA. Luz intensa, ruídos constantes e o próprio toque durante o atendimento são alguns dos fatores que podem impactar a experiência. Pesquisas recentes indicam que cerca de 65% das famílias já adiaram consultas odontológicas em função de dificuldades relacionadas à hipersensibilidade sensorial.
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Mais do que resistência ao tratamento, trata-se de uma forma distinta de perceber o ambiente. “Um barulho pode incomodar muito, uma luz pode ser forte demais, o toque pode gerar desconforto. Muitas vezes o que parece dificuldade é só uma forma diferente de sentir o ambiente”, afirma Caroline Guimarães Gil de Araújo, coordenadora de treinamento e desenvolvimento da OrthoDontic.
Quando não há adaptação, a experiência pode se tornar mais desafiadora, o que tende a impactar a continuidade do cuidado. Ao mesmo tempo, o número de diagnósticos segue em crescimento. A prevalência do autismo já é estimada em 1 a cada 36 crianças, segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta cerca de um em cada 100. No Brasil, o Censo 2022 indica a existência de mais de 2,4 milhões de pessoas no espectro, de acordo com o IBGE.
Esse cenário tem ampliado a atenção do setor para a necessidade de ajustes no atendimento. Segundo especialistas, mais do que mudanças estruturais, o principal avanço está na forma como a equipe conduz a experiência do paciente. “Muitos dos gargalos, como luz, som ou tempo de espera, se tornam mais críticos quando não há preparo de como conduzir o paciente. Por isso, o foco precisa estar em antecipar, explicar e adaptar”, explica Caroline.
Na prática, isso envolve uma mudança de abordagem. Mais do que eliminar completamente os estímulos (algo nem sempre possível), o atendimento passa a considerar formas de reduzir impactos e aumentar previsibilidade. Explicar cada etapa antes de executá-la, respeitar o tempo do paciente, ajustar a comunicação e organizar o ambiente são medidas que contribuem para uma experiência mais segura e confortável.
Esse movimento também passa por uma mudança de postura no atendimento. Na ortodontia, o cuidado deixa de ser apenas técnico e passa a considerar toda a experiência do paciente ao longo do processo. “Não é só sobre alinhar dentes, é sobre tornar o cuidado possível, seguro e sem trauma”, resume Caroline.
Outro ponto relevante é o papel da família, que atua como parceira no atendimento. “São eles que conhecem os gatilhos, as estratégias e os caminhos possíveis. Quando esse cuidado existe, a gente melhora a experiência e fortalece o vínculo de confiança e continuidade do tratamento”, afirma.
Nesse contexto, iniciativas estruturadas têm sido desenvolvidas para apoiar as equipes. A rede de ortodontia OrthoDontic estruturou um protocolo específico para o atendimento de pacientes com TEA a partir de demandas recorrentes das próprias clínicas.
A iniciativa surgiu da necessidade de oferecer mais segurança e direcionamento às equipes diante de situações que passaram a aparecer com maior frequência no dia a dia. “Percebemos que não era uma situação pontual, mas uma necessidade estruturada. A partir disso, organizamos um material para dar mais segurança e direcionamento às equipes”, afirma Caroline.
O protocolo abrange toda a jornada do paciente, da recepção ao atendimento em consultório, com orientações específicas para cada função dentro da clínica. O desenvolvimento combinou conhecimento técnico, com participação de profissionais da área de saúde mental, e a experiência prática das unidades que já atendem esse público.
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A proposta agora é ampliar o acesso a esse conteúdo por meio de uma trilha contínua de capacitação, com materiais disponíveis em plataforma própria e previsão de certificação para as unidades. Para especialistas, esse movimento reflete uma evolução importante no setor. A ampliação do acesso passa, cada vez mais, pela capacidade de adaptar o ambiente, preparar equipes e reconhecer que o cuidado precisa considerar as particularidades de cada paciente.
