Cientista Vaclav Smil investiga a obsessão humana por tamanho e por medir tudo
Autor do livro "O tamanho das coisas - uma explicação do mundo" afirma que a resposta faz parte de documento histórico da evolução do mundo e da humanidade
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O resumo para quem vem em busca de respostas à pergunta clássica é que, sim, tamanho é documento. Sempre foi e continuará sendo, até o fim dos tempos. Só que não da forma marota que algum leitor possa estar imaginando, mas sim como documento histórico da evolução do mundo e da humanidade. É o que o cientista Vaclav Smil, 82, autor de mais de 50 livros e professor emérito distinto da Faculdade de Meio Ambiente da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, no Canadá, busca provar com o recém-lançado "O Tamanho das Coisas - Uma Explicação do Mundo" (Intrínseca).
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A obsessão humana por medir as coisas, aponta o autor, é antiquíssima. Para tanto, usamos unidades físicas reais ou modos implícitos, contrapondo alguém ou algo a um padrão ou a uma imagem mental. E fazemos isso não por capricho, mas porque tamanhos implicam nosso cotidiano de inúmeras maneiras.
Em termos de expectativa sobre tamanhos, por exemplo. É ela quem é acionada quando uma roupa ou calçado apertam, ou uma ferramenta se torna difícil de manejar, ou se um degrau sai do padrão e atrapalha a redistribuição dos móveis em casa. Para Smil, vivemos em um mundo rigidamente definido pelos tamanhos, quer isso nos deixe felizes ou chateados.
"O Tamanho das Coisas" é uma obra infalível para os amantes de números, porque eles estão por toda a parte, mas é sobretudo voltada aos curiosos de todas as naturezas, inclusive os que detestam física e matemática.
Por meio dele, aprendem-se dados aleatórios como o que mostra que a capacidade da maior usina hidrelétrica é hoje mais de 600 vezes maior do que era em 1900, ou que desde o início do século 20 a população da maior cidade teve um aumento de 11 vezes, saltando para 37 milhões de pessoas na Grande Tóquio, mesmo período em que a economia americana cresceu quase 32 vezes.
Amamos tanto os tamanhos que os colocamos como peças centrais em clássicos da literatura mundial, como "As Viagens de Gulliver", de Jonathan Swift, publicado em 1726, e "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, de 1865.
Em "O Tamanho das Coisas", Smil faz uma investigação profunda e riquíssima da obra-prima de Swift, cujo início relata o encontro do protagonista com uma raça composta de pessoas minúsculas, com menos de 15 centímetros de altura, habitantes da fictícia ilha de Lilliput.
Smil especula sobre as alturas e massas corporais dos personagens, e esmiúça supostos erros do autor de Gulliver -debatidos anteriormente com seriedade por outros cientistas, segundo ele, como a bióloga americana Florence Moog? como conceber criaturas bípedes eretas com quase 116 toneladas, ou deslizar ao dizer que o número 12 ao cubo seria 1.724, e não 1.728.
O quarto capítulo do livro aborda o tamanho aplicado ao design das coisas, como nas peças de vestuário, mobiliário, objetos de uso pessoal, pés direitos de construções, equipamentos eletrônicos, bicicletas. E ressalta a importância de assentos de avião confortáveis e com bons tamanhos -a indústria da aviação, no entanto, parece ir na contramão ao optar por gradualmente diminuir o pitch médio (ou "espaço para as pernas").
É a deixa para o autor falar das desvantagens e vantagens de ser alto no mundo de hoje. Segundo Smil, cientistas estudam por exemplo uma relação possível entre altura e longevidade, e entre altura e salários mais altos. Ao mesmo tempo, houve especulações recentes em estudo na Coreia do Sul (em uma coorte de 23 milhões de pessoas) sobre mulheres de maior estatura serem mais propensas a desenvolver câncer de mama.
Por mais que seja vez ou outra entremeada por gráficos e fórmulas matemáticas, a linguagem de Smil é acessível, envolvente e em muitas ocasiões até bem-humorada. Como quando, ainda sobre as vantagens competitivas do que é grande, ele associa os rebanhos de ungulados na África e as "indústrias e empresas modernas de mídia eletrônica". "Tanto os gnus do Parque Nacional do Serengeti, Tanzânia, como o Google estão se saindo muito bem", escreve.
As transições de temas são suaves, e as exemplificações não estão ali para empilhar dados, mas para enriquecer o leitor, que vai sair do livro mais informado sobre questões tão distintas quanto "Puppy", a escultura de plantas de um cachorro com quase 13 metros de altura instalada pelo artista Jeff Koons no País Basco, e anorexia nervosa e transtorno dismórfico corporal.
Um dos momentos mais peculiares é quando Smil reflete sobre como "o normal se tornou normal", especialmente no que tange aos corpos humanos. Ele relembra a história do duque e da duquesa de Buckingham, que em 1626 deram de presente à rainha Henrietta Maria um menino de sete anos de idade. Com apenas 45 centímetros de altura, menor que a média atual de recém-nascidos do sexo masculino, o "presente" foi colocado dentro de uma grande torta, vestindo uma minúscula armadura, e depois disposto entre o acervo régio de corpos extremos.
O TAMANHA DAS COISAS
Preço R$ 79,90 (320 págs.) e R$ 54,90 (e-book)
Autoria Vaclav Smil (tradução Renato Marques)
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Editora Intrínseca