Este sábado (28/3) é o Dia Mundial da Endometriose, data para conscientização da doença inflamatória crônica que afeta milhões de mulheres, causando dores intensas e infertilidade. Uma em cada dez mulheres tem endometriose no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Esse é um universo grandioso de quase 10,4 milhões de pessoas com o problema.

“A endometriose ocorre quando as células do endométrio, mucosa que reveste a parede do útero, encontram-se fora da cavidade uterina. As lesões geralmente estão localizadas na pelve, mas podem ocorrer em vários locais, como intestino e bexiga. E isso impacta na qualidade de vida dessas mulheres, com restrição de suas atividades e surgimento de dor, desconforto, ansiedade e depressão, além de dificuldade de engravidar”, explica o ginecologista e obstetra, mestre e doutor em tocoginecologia pela UNICAMP, Nélio Veiga Junior.

A endometriose, na verdade, é a principal causa de infertilidade feminina, já que, ao se espalharem pelo aparelho reprodutivo, as células do endométrio dificultam desde a fertilização do óvulo até a implantação do embrião.

Estima-se que o número de mulheres com endometriose pode ser ainda maior e que hoje se tem um cenário de subdiagnóstico da doença, o que se deve principalmente à negligência dos sintomas, que, muitas vezes, passam despercebidos.

“A endometriose tem como principal sintoma dor pélvica intensa, que geralmente não recebe atenção por ser confundida com cólicas menstruais. Isso faz com que o diagnóstico da condição seja realizado muito tardiamente, quando as mulheres encontram alguma dificuldade para engravidar”, detalha o especialista em reprodução humana e diretor clínico da clínica Mater Prime, em São Paulo, Rodrigo Rosa.

Por esses motivos, apesar de surgir geralmente de forma leve durante a adolescência, a endometriose, muitas vezes, só é diagnosticada na fase adulta. “Então, o acompanhamento ginecológico regular é fundamental para qualquer mulher, mas, principalmente, para mulheres que fazem uso de pílula anticoncepcional e outros métodos contraceptivos, afinal, é a melhor maneira de detectar uma condição como a endometriose precocemente, o que aumenta as chances de tratamento e evita complicações”, pontua Nélio Veiga Junior.

Nélio explica que a doença ainda não possui causa definida, estando relacionada a fatores genéticos e imunológicos, ou seja, uma resposta imunológica que desencadeia inflamação. Logo, torna-se muito difícil falar em prevenção. Mas tem tratamento, que é indicado de acordo com a gravidade da endometriose e as características individuais da paciente.

“Em quadros mais leves, o tratamento pode ser realizado através de mudança do estilo de vida, fisioterapia do assoalho pélvico e medicação, incluindo, além da pílula anticoncepcional, analgésicos e anti-inflamatórios. Já quadros mais avançados podem requerer tratamento cirúrgico através da laparoscopia, cirurgia minimamente invasiva que visa eliminar os focos da endometriose”, diz Nélio Veiga Junior.

Caso a mulher deseje engravidar, o médico também poderá recomendar um especialista em reprodução humana. “Inclusive, muitas mulheres só descobrem que tem endometriose quando encontram alguma dificuldade para engravidar”, afirma Rodrigo.  E o diagnóstico tardio reduz as chances de sucesso dos tratamentos de fertilidade, como a Fertilização In Vitro.

“O tratamento cirúrgico da endometriose é realizado por meio da laparoscopia, procedimento minimamente invasivo que visa eliminar os cistos causados pela doença”, afirma Rodrigo, que ainda reforça que, ao contrário do que muitos pensam, a gravidez, apesar de ajudar na prevenção da doença, não é capaz de curar a endometriose.

“O que acontece é que as mudanças hormonais que ocorrem na gravidez podem ajudar a diminuir os sintomas e controlar a endometriose. Mas a gestação não cura a doença”, esclarece o especialista. Como a endometriose é uma doença crônica, o tratamento não é definitivo, atuando apenas no alívio dos sintomas e controle da doença. Logo, os sintomas e a dificuldade de engravidar podem retornar após algum tempo. “Além disso, apenas 50% das pacientes tratadas por meio da laparoscopia possuem chances de engravidar futuramente”, alerta.

Em alguns casos, a cirurgia da endometriose pode ser um problema para mulheres que ainda desejam engravidar. “No caso de retirada de endometriomas, que são cistos de endometriose nos ovários, o procedimento pode causar danos, por exemplo, ao tecido ovariano, assim resultando na perda dos folículos ao redor e, consequentemente, na diminuição da reserva ovariana em até 70%”, diz Rodrigo Rosa.

Então, para mulheres que serão submetidas ao procedimento e desejam engravidar posteriormente, é sempre aconselhado que preservem a fertilidade através do congelamento de óvulos para garantir a possibilidade de gravidez no futuro. “O congelamento de óvulos, também conhecido como criopreservação, consiste no congelamento dos óvulos em nitrogênio líquido na temperatura de -196°C, o que inativa seu metabolismo sem prejudicar sua viabilidade”, conta Rodrigo Rosa, que lembra que o custo do congelamento de óvulos depende do protocolo de estimulação ovariana, da dose total dos hormônios utilizados, da quantidade de óvulos coletados, do procedimento de vitrificação e do tempo de armazenamento contratado.

Dessa forma, com o congelamento, mesmo que a reserva ovariana da mulher seja afetada pela cirurgia, ainda existe a possibilidade de gravidez através da Fertilização In Vitro. Mas é importante enfatizar que isso não quer dizer que a cirurgia não seja indicada para mulheres que ainda desejam engravidar.

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“Em muitos casos, a cirurgia pode sim contribuir para melhora da fertilidade. O mais importante então é que a indicação do tratamento seja individualizada caso a caso. Por exemplo, a intervenção cirúrgica pode não ser indicada para pacientes que já possuem baixa reserva ovariana, que pode ser avaliada através do ultrassom transvaginal e do exame de hormônio anti-mülleriano (AMH)”, diz Rodrigo Rosa.

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