Em um cenário de queda no início do pré-natal em diferentes países, especialistas alertam para um ponto que vai além dos exames: a escuta ativa da gestante. Dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que a proporção de mulheres que iniciaram o pré-natal no primeiro trimestre caiu de 78,3% em 2021 para 75,5% em 2024, aumentando o número de acompanhamentos tardios — um fator associado a piores desfechos maternos e neonatais.
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Em estudos recentes, embora quase todas as gestantes tenham sido acompanhadas, menos de um terço teve todos os exames essenciais registrados, como aferição de pressão arterial e exames de glicemia, fundamentais para diagnosticar condições como hipertensão ou diabetes gestacional.
A pesquisa também aponta que partes importantes das recomendações do pré-natal, como imunizações e suplementação, muitas vezes não estão plenamente documentadas ou realizadas na prática clínica, revelando lacunas no cuidado que podem impactar diretamente a saúde materna e fetal.
“O pré-natal não é apenas uma sequência de consultas. É o momento de identificar doenças ainda no ventre, acompanhar o desenvolvimento fetal com precisão e intervir quando necessário. Quanto mais cedo iniciamos esse cuidado, maiores são as chances de mudar a história daquela gestação”, afirma o pesquisador, professor e cirurgião materno-fetal brasileiro Rodrigo Ruano, da University of Miami.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos oito contatos de cuidado pré-natal ao longo da gestação como parâmetro ideal para melhorar desfechos maternos e neonatais — bem acima do número tradicionalmente realizados de consultas.
Ruano alerta que outro ponto central é a escuta ativa da gestante. Segundo ele, é comum as mulheres relatarem sintomas subjetivos no início da gestação que são subestimados, mas que podem indicar questões importantes quando avaliados em conjunto com exames clínicos e de imagem. Em particular, mães solo enfrentam desafios adicionais, desde a falta de rede de apoio até o estresse emocional, tornando a atenção integral ainda mais relevante.
“O médico precisa escutar. A gestante conhece o próprio corpo. Quando ela diz que algo não está bem, isso deve ser valorizado. A escuta ativa pode antecipar diagnósticos e evitar complicações”, assegura Ruano.
O médico ainda destaca a ultrassonografia obstétrica, especialmente entre as 18 e 22 semanas, como uma ferramenta indispensável para avaliar a formação e o desenvolvimento dos órgãos fetais, permitindo a identificação de malformações cardíacas, anomalias no sistema nervoso e outras condições que podem demandar condutas especializadas.
Ruano, reconhecido mundialmente por sua atuação em procedimentos de alta complexidade — incluindo cirurgias fetais realizadas ainda no útero — ressalta que, embora essas técnicas sejam avanços extraordinários da medicina moderna, a prevenção e o acompanhamento precoces continuam sendo as estratégias mais eficazes para reduzir riscos.
“Muitas vezes, identificar cedo significa poder planejar, tratar e oferecer uma chance real de sobrevida e qualidade de vida”, afirma Ruano.
Ele também enfatiza a importância da abordagem multidisciplinar, com psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e outros profissionais de saúde complementando o cuidado clínico, especialmente em situações de diagnóstico de risco ou quando há impactos emocionais significativos.
“Enquanto os sistemas de saúde lutam para ampliar o acesso ao pré-natal de qualidade, a escuta humana emerge como um caminho transformador de acolhimento e cuidado tão necessários, principalmente para mães em situação de vulnerabilidade”, ensina o cirurgião.
Perfil
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Rodrigo Ruano é cirurgião-fetal com mais de 20 anos de experiência e reconhecimento internacional. É considerado uma das maiores referências mundiais em procedimentos complexos de medicina materno-fetal, tendo atuado em diferentes países da América Latina, Europa e Estados Unidos. Foi pioneiro no Brasil em técnicas como a oclusão traqueal fetal para hérnia diafragmática congênita, além de procedimentos minimamente invasivos para o tratamento de tumores e malformações fetais. Também contribuiu para o avanço da cirurgia endoscópica aplicada a condições graves, como a espinha bífida, e desenvolveu abordagens inovadoras em terapias fetais regenerativas. Sua trajetória o coloca em posição de destaque na medicina fetal global, unindo expertise técnica, pioneirismo e compromisso em ampliar as fronteiras da cirurgia fetal em benefício de mães e bebês.
