Em um cenário de queda no início do pré-natal em diferentes países, especialistas alertam para um ponto que vai além dos exames: a escuta ativa da gestante. Dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que a proporção de mulheres que iniciaram o pré-natal no primeiro trimestre caiu de 78,3% em 2021 para 75,5% em 2024, aumentando o número de acompanhamentos tardios — um fator associado a piores desfechos maternos e neonatais.


No Brasil, apesar de o pré-natal ter ampla cobertura — com mais de 98,5% das gestantes recebendo algum acompanhamento segundo dados de 2025 analisados no estado do Rio de Janeiro — a qualidade e a completude do cuidado ainda são preocupantes. 


Em estudos recentes, embora quase todas as gestantes tenham sido acompanhadas, menos de um terço teve todos os exames essenciais registrados, como aferição de pressão arterial e exames de glicemia, fundamentais para diagnosticar condições como hipertensão ou diabetes gestacional.

A pesquisa também aponta que partes importantes das recomendações do pré-natal, como imunizações e suplementação, muitas vezes não estão plenamente documentadas ou realizadas na prática clínica, revelando lacunas no cuidado que podem impactar diretamente a saúde materna e fetal.


“O pré-natal não é apenas uma sequência de consultas. É o momento de identificar doenças ainda no ventre, acompanhar o desenvolvimento fetal com precisão e intervir quando necessário. Quanto mais cedo iniciamos esse cuidado, maiores são as chances de mudar a história daquela gestação”, afirma o pesquisador, professor e cirurgião materno-fetal brasileiro Rodrigo Ruano, da University of Miami.


A  Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos oito contatos de cuidado pré-natal ao longo da gestação como parâmetro ideal para melhorar desfechos maternos e neonatais — bem acima do número tradicionalmente realizados de consultas.


Ruano alerta que outro ponto central é a escuta ativa da gestante. Segundo ele, é comum as mulheres relatarem sintomas subjetivos no início da gestação que são subestimados, mas que podem indicar questões importantes quando avaliados em conjunto com exames clínicos e de imagem. Em particular, mães solo enfrentam desafios adicionais, desde a falta de rede de apoio até o estresse emocional, tornando a atenção integral ainda mais relevante.


“O médico precisa escutar. A gestante conhece o próprio corpo. Quando ela diz que algo não está bem, isso deve ser valorizado. A escuta ativa pode antecipar diagnósticos e evitar complicações”, assegura Ruano. 


O médico ainda destaca a ultrassonografia obstétrica, especialmente entre as 18 e 22 semanas, como uma ferramenta indispensável para avaliar a formação e o desenvolvimento dos órgãos fetais, permitindo a identificação de malformações cardíacas, anomalias no sistema nervoso e outras condições que podem demandar condutas especializadas.


Ruano, reconhecido mundialmente por sua atuação em procedimentos de alta complexidade — incluindo cirurgias fetais realizadas ainda no útero — ressalta que, embora essas técnicas sejam avanços extraordinários da medicina moderna, a prevenção e o acompanhamento precoces continuam sendo as estratégias mais eficazes para reduzir riscos.


“Muitas vezes, identificar cedo significa poder planejar, tratar e oferecer uma chance real de sobrevida e qualidade de vida”, afirma Ruano.
Ele também enfatiza a importância da abordagem multidisciplinar, com psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e outros profissionais de saúde complementando o cuidado clínico, especialmente em situações de diagnóstico de risco ou quando há impactos emocionais significativos.
“Enquanto os sistemas de saúde lutam para ampliar o acesso ao pré-natal de qualidade, a escuta humana emerge como um caminho transformador de acolhimento e cuidado tão necessários, principalmente para mães em situação de vulnerabilidade”, ensina o cirurgião. 

Perfil

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Rodrigo Ruano é cirurgião-fetal com mais de 20 anos de experiência e reconhecimento internacional. É considerado uma das maiores referências mundiais em procedimentos complexos de medicina materno-fetal, tendo atuado em diferentes países da América Latina, Europa e Estados Unidos. Foi pioneiro no Brasil em técnicas como a oclusão traqueal fetal para hérnia diafragmática congênita, além de procedimentos minimamente invasivos para o tratamento de tumores e malformações fetais. Também contribuiu para o avanço da cirurgia endoscópica aplicada a condições graves, como a espinha bífida, e desenvolveu abordagens inovadoras em terapias fetais regenerativas. Sua trajetória o coloca em posição de destaque na medicina fetal global, unindo expertise técnica, pioneirismo e compromisso em ampliar as fronteiras da cirurgia fetal em benefício de mães e bebês.

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