Os cuidados paliativos se consolidam como uma abordagem clínica voltada ao controle de sintomas, à comunicação clara e ao suporte contínuo a pessoas com doenças graves. Diferentemente da associação restrita às fases finais da vida, esse tipo de cuidado pode ser incorporado desde o diagnóstico de condições complexas, de forma simultânea a tratamentos modificadores da doença.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 56 milhões de pessoas necessitem de cuidados paliativos todos os anos no mundo. Apesar da dimensão da demanda, menos de 15% têm acesso a esse tipo de assistência. Para a OMS, cuidados paliativos são definidos como uma abordagem que previne e alivia o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação adequada e manejo de sintomas físicos, emocionais, sociais e espirituais.
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O cenário epidemiológico global contribui para a ampliação dessa necessidade. Dados do Ministério da Saúde mostram que as doenças crônicas não transmissíveis respondem por cerca de 74% das mortes registradas atualmente. O perfil de pacientes com múltiplas comorbidades e doenças de longa duração exige modelos assistenciais que ultrapassem a lógica de episódios agudos e internações sucessivas.
A incorporação precoce dos cuidados paliativos está associada à redução de internações evitáveis, ao menor uso de procedimentos invasivos sem benefício clínico e a uma maior coerência entre as condutas adotadas e os valores do paciente.
Revisões sistemáticas conduzidas por instituições acadêmicas internacionais, como a Universidade de Harvard e a Cochrane Collaboration, indicam melhora consistente no controle da dor, da dispneia e de sintomas ansiosos, além de avanços na qualidade da comunicação clínica.
Para a médica paliativista Laila Benatti Passos, da Suntor Clínica de Transição, ainda há equívocos sobre o papel dessa abordagem. “Cuidados paliativos não significam suspensão de tratamento. Eles organizam o cuidado a partir das necessidades reais do paciente, com foco em controle de sintomas, funcionalidade e decisões bem informadas”, afirma.
Segundo a especialista, a participação ativa do paciente no processo decisório é um dos pilares desse modelo. “Quando há comunicação clara sobre a condição clínica e os objetivos do cuidado, evitam-se intervenções desproporcionais. Isso qualifica as escolhas e amplia a segurança assistencial”, diz.
Laila destaca que os cuidados paliativos também dialogam com a reorganização do cuidado fora do hospital. “Há pacientes que não se beneficiam da permanência prolongada em ambiente hospitalar, mas seguem precisando de acompanhamento médico, ajuste de sintomas e suporte à família. Estruturas intermediárias permitem esse cuidado de forma contínua e organizada”, explica.
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Com o envelhecimento da população e a maior prevalência de doenças crônicas, os cuidados paliativos passam a ocupar um espaço cada vez mais relevante na jornada assistencial. A tendência observada em sistemas de saúde mais estruturados é a incorporação dessa abordagem como parte regular do cuidado, desde as fases iniciais da doença até sua evolução clínica, com foco em qualidade de vida e tomada de decisão compartilhada.
