O reganho de peso após dietas restritivas ou interrupção de medicamentos emagrecedores é uma queixa comum e, ao contrário do que muitos pensam, não está relacionado apenas à falta de disciplina. Segundo o endocrinologista Antonio Carlos, trata-se de um mecanismo biológico natural do organismo para preservar o peso corporal.
“O corpo possui um sistema gestor de fome e saciedade que tende a se ajustar ao maior peso já alcançado, salvo algumas exceções. Uma vez que o indivíduo desenvolve obesidade, esse sistema passa a modular a ingestão calórica para manter aquela massa corporal”, explica o médico.
- Canetas emagrecedoras e neurociência: existe relação?
- Dietas restritivas para datas especiais são gatilhos para transtornos alimentares
Esse mecanismo é também o principal responsável pelo chamado efeito sanfona. “O efeito sanfona é apenas o resultado do domínio desse sistema gestor. Quando o medicamento é retirado ou quando a restrição alimentar extrema deixa de ser sustentável, o controle da ingestão calórica retorna ao comando desses centros reguladores, favorecendo o reganho de peso”, afirma.
O especialista destaca ainda que o organismo não se adapta facilmente a um novo peso mais baixo. “Não existe evidência de que os centros de fome e saciedade possam ser conduzidos definitivamente a padrões de baixa ingestão calórica apenas pelo fato de o indivíduo ter emagrecido”, ressalta.
Leia Mais
Dietas muito restritivas podem agravar ainda mais esse cenário. “Durante o emagrecimento, ocorre aumento proporcional do hormônio da fome, a grelina, e redução dos hormônios da saciedade, especialmente a leptina. Em determinado momento, torna-se impossível sustentar voluntariamente a restrição alimentar, e o peso tende a ser progressivamente reconduzido aos níveis anteriores”, explica o endocrinologista.
Por isso, a continuidade do tratamento é considerada fundamental para evitar o reganho de peso. “A manutenção é a única alternativa eficaz no médio e longo prazo. Pequenas perdas podem ser sustentadas com mudanças comportamentais consistentes, mas perdas maiores frequentemente exigem continuidade do tratamento, seja com suporte farmacológico ou, em alguns casos, abordagem cirúrgica”, afirma.
Embora o reganho de peso geralmente esteja relacionado a esses mecanismos fisiológicos, o médico alerta que, em alguns casos, pode haver influência de medicamentos. “Doenças que causam ganho expressivo de peso são raras. O mais comum é que o aumento esteja relacionado ao uso de determinados medicamentos, como antidepressivos e outras drogas de ação central, que interferem nos mecanismos de controle do apetite”, diz.
- Estudo mostra rapidez com que se recupera peso após fim do uso de medicamentos para emagrecer
- Pessoas que param de usar canetas emagrecedoras ganham peso quatro vezes mais rápido do que as que fazem dieta, diz estudo
De forma geral, o endocrinologista reforça que o comportamento alimentar é fortemente influenciado por fatores biológicos. “Obedecemos aos nossos centros de fome e saciedade, e eles determinam nosso comportamento alimentar. Esses centros podem ser modificados por diversos fatores, como alimentos ultraprocessados, poluentes, substâncias presentes em plásticos, medicamentos, infecções e predisposição genética ou paragenética. Uma vez alterado, esse sistema passa a estabelecer parâmetros para preservar o peso corporal”, explica.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Segundo ele, isso ajuda a entender por que o reganho é tão frequente. “O reganho de peso é um resultado previsível quando as estratégias que permitiram o emagrecimento não são mantidas. Por isso, o tratamento da obesidade deve ser entendido como um cuidado contínuo, e não uma medida temporária”, afirma.
