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Estado de Minas

O esplendor das mesquitas

No sincretismo entre a arte persa e as civilizações que formam a identidade iraniana, a lei se funda na religião, que está no centro da vida


postado em 27/12/2017 00:12 / atualizado em 29/12/2017 16:20

Shiraz, irã

 

"Oh você crê! Quando a chamada para a oração é proclamada na Sexta-Feira, apresse-se com fervor para o encontro com Deus e deixe de lado os seus negócios. É o melhor ... ah se você soubesse"  Livre tradução do Alcorão

Se em Teerã - metrópole com cerca de 8,8 milhões de habitantes, que concentra mais da metade da indústria nacional, incluindo fábricas de automóveis, armamentos e químicos –, os chamados são ouvidos apenas nas proximidades das mesquitas, em localidades pequenas como Nain, na província de Esfahan, o potente apelo dos muezins pelos alto-falantes instalados no alto dos minaretes reverberam, três vezes ao dia, pelos quatro cantos. Tanto menor, mais tradicionais as cidades e maior o rigor em seguir à risca as cinco orações diárias. Nas teocracias, é imperativo ter uma religião. As conversões ao Islã são bem-vindas e incentivadas, mas o caminho inverso é inaceitável e pode resultar em complexos processos penais.

O Islã chegou ao Irã no século 6, com a invasão árabe, onde o zoroastrismo – que aliás precede todas os credos monoteístas no mundo – era a religião oficial. O território foi incorporado pelo califado, governado em princípio de Medina (Arábia Saudita), mais tarde de Damasco (Síria) e, na sequência de Bagdá (Iraque). Conversões e diáspora marcaram esse processo e, no intercâmbio cultural que se seguiu, os califados também absorveram antigas tradições iranianas, imitando em suas cortes a etiqueta Sassânida (224 – 651).

Embora não tenham sido os primeiros governantes xiitas do Irã, a Dinastia Safávida (1500-1736) tornou-a religião oficial em todo o território.  Esse legado religioso se mantém e se expressa na atual Constituição do Irã, que declara o xiita duodecimano a religião oficial. O xiismo é professado por mais de 90% da população – entre 90% e 95%; menos de 1% é representado pelas minorias zoroastriana, cristã e judaica; há entre 4% e 10% de sunitas.

De ascendência étnica possivelmente de azeris, curdos e gregos, a dinastia safávida, embora tenha instituído o xiismo como a religião oficial, teve sua origem na Ordem Sufista denominada Safaviyya, corrente contemplativa do Islã, que procura desenvolver uma relação íntima, direta e contínua com Deus, utilizando-se das práticas espirituais transmitidas pelo profeta Mohammed. Originou-se na cidade de Ardabil,  região do Azerbaijão, de onde estabeleceu o controle sobre o território da antiga Pérsia. Foi, desde a queda do Império Sassânida, a primeira dinastia que se considerava “nativa” a criar um estado unificado iraniano.

No século 17, o Império Safávida se estendia da Geórgia, a Oeste até o Afeganistão, a Leste, e do Mar Cáspio, ao Norte até o Golfo Pérsico, ao Sul. Se no período Seljúcida (1104-1194), Esfahan assumiu papel central na administração do império turco, com os Safávidas, a cidade se tornaria a capital em 1596. Descrita no século 17 por franceses como a mais bela do Oriente, já somava à época 162 mesquitas, 48 colégios, 1802 caravançarais (pousadas para mercadores viajantes) e 273 banhos públicos.

No coração de Esfahan,  a capital política, social cultural, econômica, religiosa da Dinastia Safávida, a  praça Naqsh-e Jahan, significa a “imagem do mundo”. Listada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é ainda hoje considerada a maior do planeta: esparrama-se por 512 metros de comprimento e 159 metros de largura, portanto,  81.408 metros quadrados. Nela ocorriam celebrações, passeios, partidas de polo, reunião e paradas das tropas, além de execuções públicas. Em seu perímetro, estão integrados por um conjunto de arcadas um espetacular bazar, a mesquita Lotfollah, erigida para a corte real - e por isso, se posta diante do Palácio Ali Qapu, em tradução livre Portal da Exaltação (Ali, do árabe, significa “exaltação” e Qapu, do turco, “portal”). Ao Sul da praça, está a monumental mesquita Imam, também chamada mesquita Masjed-e Shah, que em sua concepção original era destinada ao público. Voltada para Meca, é considerada uma das principais obras de arte da arquitetura persa na era islâmica. As instalações em perfeito estado de manutenção desse espaço de orações e reverência à Deus contrastam com a precariedade da preservação do palácio Ali Qapu, símbolo do poder político.

As mesquitas Jamehs, referência ao principal espaço de reunião e orações de Sexta-Feira, espalham-se pelas cidades do Irã. Algumas constituem obras de arte da arquitetura, sincretismo da herança cultural persa com  os fundamentos da arte islâmica. Em Yazd, ao centro da cidade antiga, a grande mesquita de 800 anos é coroada com o par de minaretes, os mais altos da Pérsia, que se elevam a 45 metros. São encobertos com o nome de Alah e versos do Alcorão. De cor predominantemente azul, apresenta em seu interior um minucioso trabalho em mosaico, ornamentado pelas chamada muqarnas, cúpulas que se assemelham a uma colmeia de abelhas, em forma côncova, aplicadas na parte inferior das cúpulas. Localizada ao Sudoeste do Irã, em Shiraz, entre as mesquitas, o destaque é o esplendor de Mirza Hasan Ali Nasir al Molk. Ao amanhecer, a luz sobre os vitrais, transforma este templo construído entre 1876 e 1888, num caleidoscópio de cores.

Linha do tempo

636
Invasão árabe põe fim à Dinastia Sassânida, último Império Persa. Inicia-se uma nova era, islâmica.

Século 9
Consolida-se a moderna língua persa, conhecida por Farsi

1037-1219
Domínio turco

1219-1500
 Mongóis e sucessores

1500-1736
Dinastia Safávida

1736-1747
 Dinastia Afshar: iraniano que pertencia à tribo otomana, considerado excepcional general, chamado Napoleão da Pérsia.

1749-1779
Dinastia Zand

1789
Inicia-se a Dinastia Cajar

1828
 Irã cede controle do Cáucaso para a Rússia, depois da segunda guerra com a Russo-Persa

1890
 “Distúrbios do tabaco”: após revolta e protestos em massa, o xá Naser al-Din força a retirada das concessões à Grã-Bretanha

1907
 Com a instauração da monarquia constitucional, são introduzidos limites ao poder absoluto do xá

1914-1918
 Apesar de declarar neutralidade na Primeira Guerra Mundial, Irã torna-se cenário de combates brutais

1921
 O comandante militar Reza Khan ascende ao poder

1923
Reza Khan se torna primeiro-ministro

1925
Fim da dinastia Cajar, com a votação do Parlamento, que depõe Ahmad Cajar e o substitui por Reza Khan

1926  
Reza Khan é coroado e funda a Dinastia Reza. Mohammad Reza, filho mais velho do xá, é proclamado príncipe herdeiro

1941
Invasão anglo-soviética do Irã. Reza Pahlavi é forçado a abdicar em favor do filho.

1941
 Mohammad Reza Pahlavi é coroado

1953
Após um golpe de Estado apoiado pelo Reino Unido e Esatdos Unidos em 1953, o Irã tornou-se gradualmente autocrático.

1979
Revolução Iraniana, conduzida pelos líderes religiosos, entre os quais o imã Khomeini, implantou a República Islâmica.

 

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