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Estado de Minas

Convicção de cientistas sobre a existência de seres vivos fora da Terra aumenta

A certeza de que água e planetas são comuns no espaço torna possibilidade de vida extraterrestre uma realidade


postado em 09/08/2015 11:00 / atualizado em 09/08/2015 11:46



Sigmund Freud acreditava que a humanidade tinha sofrido, ao longo da história, três grandes golpes na autoestima. O primeiro teria sido dado por Copérnico, quando o astrônomo desmentiu, no século 16, a tese de que a Terra era o centro do Universo. O segundo seria a Teoria da Evolução de Charles Darwin, que transformou o Homo sapiens em apenas mais um animal resultante da seleção natural, mesmo processo que criou a mosca ou o chimpanzé. A terceira decepção teria sido causada pelo próprio pai da psicanálise, no momento em que ele propôs que o homem não era senhor nem mesmo de seus atos, governados, na verdade, por impulsos inconscientes. Em algumas décadas, o ser humano poderá passar por uma quarta “ferida narcísica”, como Freud denominava esses golpes. E ela virá, mais vez, da astronomia.


Estudiosos do espaço estão convencidos de que, ao contrário do que se pensava até poucos anos atrás, o lar da humanidade não tem nada de especial. Planetas como a Terra existem aos montes no Universo, dizem, e, portanto, as chances de haver vida em outros corpos celestes são imensas. Tão grandes que Alan P. Boss, pesquisador do Departamento de Magnetismo Terrestre da Carnegie Institution for Science, nos Estados Unidos, acredita que não demorará muito para que a ciência detecte vida extraterrestre. “Deve demorar algumas décadas”, estima, por e-mail, o autor do livro The crowded Universe: The search for living planets (O Universo lotado: a busca por planetas vivos, em tradução livre).


Boss e outros especialistas não falam isso apenas porque desejam que seja verdade. As evidências cresceram muito nos últimos anos. Graças a tecnologias como o Telescópio Kepler, da Nasa — que ajudou, até agora, a confirmar a existência de 1.030 exoplanetas (corpos que orbitam um astro diferente do Sol) —, é possível afirmar que quase todas as estrelas têm planetas em sua órbita.


Estimativas nesse campo ainda são muito variadas, com estudos adotando critérios diversos, mas o mais recente cálculo, baseado em dados do Kepler, é de mais de um mundo em condições de abrigar vida para cada estrela do tipo do Sol. Como há cerca de 40 bilhões de estrelas semelhantes ao Astro-Rei apenas na Via Láctea (uma das mais de 100 bilhões de galáxias existentes no Universo), o número é, literalmente, astronômico. Portanto, com o aumento da capacidade tecnológica, descobertas como a do Kepler 452b, o objeto mais parecido ao Planeta Azul já identificado, devem se tornar algo prosaico. “Os planetas habitáveis estão lá, e não vejo como, em um bom número deles, não haver alguma forma de vida se desenvolvendo”, afirma Boss.

Oceanos Outra recente descoberta que reforça a convicção dos especialistas é a de que água líquida — o fator mais importante para o surgimento da vida além da posição que um planeta fica em relação à sua estrela — é abundante no Cosmos. O líquido é tão comum que deverá ser encontrado no próprio Sistema Solar. Em abril do ano passado, por exemplo, um estudo coordenado por Luciano Iess, da Universidade de Roma, concluiu que Enceladus, um dos satélites de Saturno, tem um imenso oceano no subsolo. A sonda Curiosity, da Nasa, já encontrou sinais de que o líquido jorrava em Marte no passado. E há outras possibilidades.


“Nosso Sistema Solar tem muitos lugares que são bons candidatos para abrigar vida, seja hoje, seja no passado. Mas eu destacaria os oceanos subterrâneos de Europa (lua de Júpiter) e Enceladus”, diz Christa van Laerhoven, pesquisadora do Instituto Canadense para Astrofísica Teórica, ligado à Universidade de Toronto. A pesquisadora é outra convencida de que as chances de haver vida extraterrestre são imensas. “Uma vez que água e planetas são abundantes, faz sentido existirem planetas a uma distância certa de suas estrelas para conter água líquida em suas superfícies.”


Alan Boss completa dizendo que a descoberta deverá vir ou das missões nos corpos próximos da Terra ou da nova classe de telescópios que está sendo fabricada para estudar exoplanetas — projeto com o qual ele colabora. “O próximo grande passo é construir telescópios espaciais capazes de produzir imagens dos mundos parecidos com a Terra mais próximos. Será difícil de fazer, mas a Nasa planeja lançar o primeiro deles em 2024, e um muito mais poderoso talvez uma década depois”, revela.
Uma questão que permanece em aberto, no entanto, é o tipo de vida que pode ter surgido em outros cantos do Universo, ressalta Ansgar Reiners, professor de astrofísica na Universidade de Göttingen, na Alemanha. “Nós podemos definir vida como qualquer tipo de processo biológico. Processos assim podem, provavelmente, acontecer na presença de material orgânico, água e temperaturas adequadas. Nós sabemos hoje que essa combinação não é muito rara no Universo e na nossa galáxia. Portanto, eu concordo que devem existir muitos lugares onde processos biológicos estão acontecendo”, afirma o pesquisador. “Mas, se em algum local isso leva a formas de vida mais complexas como conhecemos na Terra, por exemplo, plantas, mamíferos e/ou inteligência, permanece uma questão totalmente aberta, porque não sabemos a probabilidade de esse tipo de evolução acontecer e quais são os requisitos para tanto. Além disso, ainda não sabemos o suficiente sobre o ambiente de outros planetas”, completa.

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