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Estado de Minas

Novos estudos baseados em DNA desvendam a intrincada ocupação das Américas

Trabalhos publicados nas revistas científicas Nature e Science trazem novos dados que prometem esquentar as teorias sobre os primeiros fluxos migratórios da humanidade


postado em 23/07/2015 12:00 / atualizado em 23/07/2015 12:07

Teoria dos Primeiros americanos sustenta que desbravadores ancestrais teriam cruzado o Estreito de Bering (foto: DAVID J. MELTZER/DIVULGAÇÃO %u2013 15/11/14)
Teoria dos Primeiros americanos sustenta que desbravadores ancestrais teriam cruzado o Estreito de Bering (foto: DAVID J. MELTZER/DIVULGAÇÃO %u2013 15/11/14)
Brasília – A já emaranhada história da ocupação da América ganhou mais dois apertados nós, com a divulgação de artigos independentes, publicados nas maiores revistas científicas do mundo: Science e Nature. As edições semanais dos periódicos trazem evidências obtidas por DNA que podem suportar tanto a corrente dos que defendem um único fluxo migratório quanto a dos que acreditam que a colonização do novo continente aconteceu em várias ondas. Ambos os trabalhos têm participação de pesquisadores brasileiros.


Por muito tempo, acreditou-se que, por volta de 15 mil anos atrás, quando o Alasca e a Sibéria estavam unidos por uma faixa de terra, o povo que vivia na porção siberiana atravessou o Estreito de Bering e alcançou a América do Norte. Essa mesma população teria se dividido, mais tarde, em dois troncos, sendo que um se manteve no norte do continente, enquanto o outro desceu para desbravar o centro e o sul americano. Contudo, a diversidade étnica dos habitantes das Américas fez com que muitos cientistas apostassem em outra teoria, a de que, depois da chegada dos primeiros povos, essa região do planeta continuou sendo povoada em várias ondas migratórias.

Tanto uma corrente quanto outra sempre se apoiaram em evidências arqueológicas. Agora, porém, os cientistas contam com um material mais moderno, porém não menos polêmico: o DNA. Foi a análise de material genético de nativo-americanos e sua comparação com o genoma de outros povos do mundo que serviram de base para os dois estudos.

O trabalho que aparece na Science foi conduzido pelo Centro de Geogenética da Universidade de Copenhague, com participação de cientistas do mundo todo, incluindo Niède Guidon, arqueóloga brasileira da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), de São Raimundo Nonato (PI). Os pesquisadores sequenciaram o genoma de 31 siberianos, habitantes do Pacífico e nativo-americanos modernos. Além disso, coletaram e analisaram DNA dos restos mortais de pessoas que viveram nas Américas do Norte e do Sul entre 200 mil e 6 mil anos atrás. Os materiais foram, então, inseridos em um grande banco de dados genético mundial, que fez as comparações.

Os dados mostram, segundo os cientistas, que os primeiros americanos chegaram da Sibéria em uma única onda há não mais que 23 mil anos, no auge da última era glacial. Por milhares de anos, mantiveram-se isolados no Estreito de Bering para, em seguida, migrar para onde hoje é a América do Norte. Lá, por volta de 13 mil anos, separaram-se. De acordo com o líder do estudo, o geneticista dinamarquês Eske Willerslev, a descoberta suporta a teoria do fluxo migratório único.

Curiosamente, essa teoria é rechaçada por Niède Guidon, arqueóloga brasileira que também assina o artigo da Science. Ela afirma que sua única participação no estudo foi fornecer material genético de índios brasileiros para a pesquisa genética. A especialista de 83 anos, ainda na ativa, é defensora de uma polêmica e pouco apoiada tese, segundo a qual, há 80 mil anos, o homem moderno já habitava a América. Ele teria saído da África e chegado à costa brasileira, atravessando o Oceano Atlântico que, na época, era 60 metros mais raso que hoje, diz Niède.

De acordo com a arqueóloga da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), no Parque Nacional Serra da Capivara,  a datação por carbono de artefatos encontrados no Piauí prova que a colonização americana é muito mais antiga. “Não tenho dúvidas de que o homem já estava na América há, no mínimo, 80 mil anos. Ventos e correntes marinhas os trouxeram da África para o Brasil”, diz.

A diversidade genética e as múltiplas ondas migratórias foram defendidas pelo trabalho da Nature, que teve colaboração de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em um comunicado de imprensa, o principal autor do trabalho, Pontus Skoglund, da Universidade de Harvard, contou que sempre apoiou a teoria do único fluxo migratório, até que, em 2012, ao analisar bancos de DNA de nativos-americanos, ficou impressionado com a semelhança entre o genoma dos índios brasileiros Karitiana, Gê e Suruí, do Norte da Amazônia, e de nativos da Austrália, da Nova Guiné e das Ilhas Andaman, no Pacífico. “Era algo inesperado e confuso”, admitiu.

Skoglund procurou universidades brasileiras para obter material genético antigo e moderno de indivíduos desses grupos indígenas. A análise do DNA indicou que as três etnias compartilham um ancestral com os povos da Oceania mais do que com qualquer outra população moderna. Misteriosamente, os grupos do Pacífico que deram origem a esses índios brasileiros – batizada pelo cientista de População Y (veja quadro) — desapareceu há milhares de anos. Já a equipe dinamarquesa defende que os traços genéticos da Oceania foram adquiridos pelos índios brasileiros em miscigenações posteriores, quando a América já estava povoada.

Apesar das divergências quanto às ondas migratórias, os dois trabalhos rechaçam a teoria defendida por Niède Guidon, pois ambos sustentam que a porta de entrada para a América foi o Estreito de Bering. Contudo, enquanto o artigo da Science afirma que esse foi o único fluxo migratório, o da Nature aposta em migrações subsequentes.

 

No estudo da Nature, cientistas relatam ter descoberto que vários índios da Amazônia brasileira, entre eles os caritianas, tinham um fator genético fortemente associado aos índios australasianos(foto: RICARDOMORAES/VILLAGE ELDER/DIVULGAÇÃO %u2013 13/12/09)
No estudo da Nature, cientistas relatam ter descoberto que vários índios da Amazônia brasileira, entre eles os caritianas, tinham um fator genético fortemente associado aos índios australasianos (foto: RICARDOMORAES/VILLAGE ELDER/DIVULGAÇÃO %u2013 13/12/09)

Quem descobriu a América?

Veja as principais teorias sobre o povoamento do continente

 

» Primeiros americanos ou Clovis first

Sustenta que uma única população ancestral foi responsável por povoar o continente, do topo da América do Norte ao ponto mais baixo da América do Sul. Há 15 mil anos, esses desbravadores alcançaram o novo mundo desde a Sibéria, atravessando uma faixa de terra no Estreito de Bering. Com o tempo, chegaram ao extremo sul americano. A pesquisa da Science acrescenta dados à teoria, afirmando que, há 13 mil anos, o derretimento de gelo abriu rotas pelo interior da América do Norte, e a população ancestral, já acomodada no continente, se dividiu em dois ramos, que levaram à diversidade vista hoje.

» Múltiplas ondas

Concorda que os primeiros americanos chegaram pelo Estreito de Bering, mas afirma que essa população foi procedida por outros povos, em múltiplas ondas migratórias. O estudo da Nature sugere que parte das tribos indígenas amazônicas atuais tem material genético de indivíduos provenientes da Australásia (Austrália, Nova Guiné, Nova Zelândia e pequenas ilhas próximas). Uma pesquisa anterior do principal autor do estudo mostrou que os indígenas canadenses têm traços de DNA de outras duas ondas migratórias.

» 80 mil anos atrás


A teoria é defendida pela brasileira Niède Guidon. A arqueóloga afirma que já havia presença humana na região da Serra da Capivara, no Piauí, há 80 mil anos. Essa é a idade de amostras de carvão vegetal que teriam sido utilizadas para fazer fogueiras. Como não há fósseis humanos do período, a maior parte da comunidade científica discorda da teoria. Ainda assim, há dois anos uma equipe da Universidade Michel de Montaigne, na França, publicou um estudo indicando que o Piauí já era povoado há 20 mil anos. Essa é a idade de artefatos encontrados na Toca da Tira Peia, avaliadas com técnicas de luminescência.

» O estudo da Nature

A equipe analisou o genoma de 30 populações nativo-americanas da América Central e da América do Sul, e de 197 populações não-americanas ao redor do mundo.

Os cientistas descobriram que os índios suri, caritianas e gê, todos da Amazônia brasileira, tinham um ancestral genético fortemente associado aos índios australasianos. Os outros índios da América do Sul, da América Central e da América do Norte não têm traços desse povo no DNA.

A pesquisa sugere que a População Y (de Ypykuéra, ou ancestral, em tupi), que deixou sua marca genética nas tribos amazônicas, já estavam miscigenadas com uma linhagem de nativo-americanos quando aportou no norte do Brasil. Como e quando os Y chegaram à América do Sul é um mistério

» O estudo da Science


A equipe internacional sequenciou o genoma de 31 siberianos, habitantes do Oceano Pacífico e nativo-americanos e comparou ao DNA de 23 antigos povos indígenas das américas do Norte e do Sul (incluindo os brasileiros suruí e palicur). Os materiais foram comparados aos contidos em uma base de dados populacional, composta pelo material genético de
3.053 pessoas de 169 populações.

Os cientistas afirmam que os ancestrais dos nativo-americanos separaram-se das populações do Velho Mundo por volta de 23 mil anos atrás e se mantiveram isolados na Beríngia por cerca de 8 mil anos. Há 15 mil anos, atravessaram o Estreito de Bering.

Há 13 mil anos, já na América, esse povo se separou em dois grupos distintos: um manteve-se no norte da América do Norte, o outro desceu para o sul da América do Norte, para a América Central e para a América do Sul. Segundo os pesquisadores, os traços genéticos da Australásia encontrados em alguns nativo-americanos são fruto de miscigenações mais recentes, e não têm a ver com ondas migratórias.

 

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