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Estado de Minas

Dobra número de planetas em zona habitável

Oito corpos com tamanho próximo ao da Terra e com chances de abrigar vida são encontrados com a ajuda do telescópio Kepler. Dois dos objetos são muito parecidos com o Planeta Azul


postado em 09/01/2015 00:12 / atualizado em 09/01/2015 09:38

Reprodução artística de um dos planetas mais parecidos com a Terra já encontrados(foto: DAVID A.AGUILAR (CFA)/DIVULGAÇÃO)
Reprodução artística de um dos planetas mais parecidos com a Terra já encontrados (foto: DAVID A.AGUILAR (CFA)/DIVULGAÇÃO)

Uma das condições para a vida florescer é a presença de água na forma líquida na superfície de um planeta. Essa é uma característica que pode estar presente em oito corpos celestes de tamanho pouco maior que a Terra, identificados por astrônomos do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian (CfA). No encontro anual da Sociedade Astronômica Americana, em Seattle, eles relataram a descoberta desses planetas, localizados a uma distância da Terra que varia entre 470 e 1,1 mil anos-luz. Esses corpos estão na “Zona Cachinhos Dourados” de suas estrelas – região nem muito quente nem muito fria para a existência de água na superfície.

Com a descoberta, dobra o número de pequenos planetas – com menos de duas vezes o diâmetro da Terra – que potencialmente se encontram na zona habitável de suas estrelas-mães. “A maior parte deles tem uma boa chance de ser rochosa (outra condição para serem habitáveis)”, diz Guillermo Torres, pesquisador do centro e principal autor do estudo, que utilizou dados do telescópio Kepler, da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos. Entre os oito, a equipe do CfA detectou os dois mais parecidos com a Terra até agora: o Kepler-438b e o Kepler-442b, que orbitam estrelas anãs-vermelhas menores e mais frias que o Sol. Enquanto o primeiro leva 35 dias para circundar sua estrela, o segundo completa a órbita a cada 112 dias terrestres.

As chances de Kepler-438b, um planeta com diâmetro apenas 12% maior que a Terra, ser rochoso são de 70%, apontaram os cálculos da equipe de astrônomos. Já Kepler-442b tem tamanho um terço maior que o da Terra e chance de 60% de ser rochoso. Para estar na zona habitável, um exoplaneta deve receber tanta luz solar quanto a Terra. Caso a incidência seja muito grande, a água ferve e evapora. Já no caso de pouca luz, o líquido congela. “Para nossos cálculos, escolhemos adotar os limites mais amplos possíveis que levem a condições adequadas à vida”, diz Torres. Dessa forma, há uma pequena chance de alguns dos oito não estarem de fato na Zona Cachinhos Dourados. Para três deles, incluindo o 438b e o 442b, as chances são muito grandes.

O primeiro recebe cerca de 40% mais luz que a Terra — em comparação, Vênus é banhada por radiação solar duas vezes maior que nosso planeta. Como resultado, a equipe de astrônomos calculou que o planeta tem 70% de chance de estar na zona habitável de sua estrela. Por outro lado, a luz que incide sobre o Kepler-442b equivale a dois terços da que atinge o Planeta Azul. Dessa forma, a probabilidade de o corpo estar na zona habitável é de 97%. “Não temos certeza se algum desses planetas de nossa amostra é realmente habitável”, pondera David Kipping, também cientista do CfA e coautor do estudo. “Tudo que podemos dizer é que são candidatos promissores.” Antes disso, os dois planetas mais semelhantes à Terra já detectados eram o Kepler-186f, 1,1 vez maior e com 32% da luz, e Kepler-52f, planeta 1,4 vez maior e com 41% da luz.

Software

Os astrônomos estudaram todos os candidatos planetários identificados pela missão Kepler, da Nasa. Todos, porém, eram pequenos demais para se confirmar apenas pela medida da massa. Em lugar disso, eles avaliaram o tamanho desses corpos usando um programa de computador chamado Blender, desenvolvido por Torres e pelo colega Francois Fressis. O software, rodado pelo supercomputador Pleiades, da Nasa, já foi utilizado previamente para validar algumas das descobertas mais icônicas da missão, como os dois primeiros planetas de tamanho semelhante ao da Terra que orbitam uma estrela parecida com o Sol, e o primeiro exoplaneta menor que Mercúrio.

Depois das análises do Blender, a equipe passou mais um ano fazendo observações dos planetas com instrumentos de última geração, como o espectroscópio de alta resolução. Esses estudos revelaram que quatro dos planetas validados são sistemas multiestelares. Contudo, as estrelas que os acompanham são distantes demais e não os influenciam significativamente. Assim como muitas descobertas da Missão Kepler, os planetas detectados recentemente estão distantes o suficiente para tornar as observações algo bastante desafiador, destacaram os astrônomos.

Fábula infantil

A expressão faz referência à história infantil “Cachinhos Dourados e os três ursos”, na qual uma menina entra em uma cabana habitada por uma família de animais. Ao encontrar três pratos de mingau na mesa, ela os prova e acha o primeiro muito quente, o segundo muito frio e apenas o terceiro está na temperatura ideal.

Andrômeda de perto
A Nasa divulgou a imagem em mais alta resolução já produzida da galáxia de Andrômeda, vizinha da Via Láctea. A fotografia é, na realidade, a junção de vários dados colhidos pelo telescópio espacial Hubble, potente o suficiente para captar detalhes desse conjunto estelar localizado a 2 milhões de anos-luz. Segundo um comunicado da Nasa, a façanha é parecida à de fotografar uma praia e garantir uma boa resolução para vários grãos de areia. Essa cartografia fotográfica representa, segundo a Nasa, um grande avanço no estudo de grandes galáxias espirais, o tipo mais comum no Universo, dando uma chance inédita de analisar os astros que as compõem individualmente.

 

Milésima confirmação

Enquanto esteve em pleno funcionamento, antes de apresentar problemas em 2013, o telescópio Kepler monitorou mais de 150 mil estrelas para descobrir quais delas tinham corpos em suas órbitas. O trabalho gerou milhares de candidatos a planetas, pequenos pontos no Universo que os cientistas devem estudar com mais atenção para verificar do que se trata. Com a confirmação dos oito novos planetas, atingiu-se a marca de mil confirmados.

Os cientistas envolvidos no projeto também adicionaram 554 candidatos à lista de planetas potenciais, seis dos quais teriam tamanho parecido com o da Terra e estariam na zona habitável. Com isso, o número de possíveis exoplanetas chegou a 4.175. “Cada novo resultado obtido pela missão Kepler nos coloca um passo mais próximo de responder a dúvida de se estamos sozinhos no Universo”, disse John Grunsfeld, administrador associado do Diretório de Missão Científica da Nasa. “A equipe do Kepler continua a produzir resultados impressionantes com os dados colhidos por esse venerável explorador”, acrescentou.

A sonda Kepler forneceu imagens de estrelas entre maio de 2009 e abril de 2013, quando parte de seus equipamentos apresentou problemas, prejudicando as observações. Mesmo assim, o montante de dados gerados é tão imenso que descobertas como a anunciada ontem não param de surgir e ampliar o conhecimento do homem sobre o Cosmos.

“A cada nova descoberta desses mundos pequenos e possivelmente rochosos, cresce nossa confiança de que seremos capazes de determinar a frequência com que ocorrem planetas como a Terra”, disse Doug Caldwell, pesquisador do SETI Institute e coautor da descoberta dos oito corpos. “O dia em que saberemos quão comum esses corpos são está no horizonte.” Depois de ser apresentado no encontro da Sociedade Astronômica Americana, o estudo será publicado em breve no Astrophysical Journal.

 

 

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