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Estado de Minas

Fiocruz produz mosquito que não transmite dengue

Pesquisadores vão lançar os insetos na natureza. Primeiro teste será em na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro


postado em 24/09/2014 10:55 / atualizado em 24/09/2014 11:02

Mosquitos com Wolbachia no insetário da Fiocruz (foto: Peter Ilicciev / Multimagens Fiocruz)
Mosquitos com Wolbachia no insetário da Fiocruz (foto: Peter Ilicciev / Multimagens Fiocruz)

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vão liberar na natureza mosquitos Aedes aegypti que não transmitem o vírus da dengue. O primeiro teste será em Tubiacanga, na Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira, 23. É a primeira vez que essa estratégia é testada no continente americano - já há pesquisas em andamento na Austrália, Vietnã e Indonésia.

Os ovos dos mosquitos foram contaminados com a bactéria Wolbachia, encontrada em 60% dos insetos, como as drosófilas (pequenas moscas) e pernilongos. Essa bactéria atua como uma espécie de vacina para o Aedes aegypti - ela impede que o vírus da dengue se multiplique no organismo do mosquito, que deixa, assim, de transmitir a doença.

A Wolbachia também atua na reprodução dos insetos. Se o macho contaminado fertilizar ovos de fêmeas que não tenham a bactéria, esses ovos não darão origem às larvas. Se macho e fêmea estiverem contaminados, ou se só a fêmea tiver a bactéria, toda a prole carregará a Wolbachia. A bactéria é transmitida naturalmente para as gerações seguintes de mosquitos e o método se torna autossustentável: Aedes com Wolbachia acabam se tornando predominantes na natureza, sem que os pesquisadores precisem liberar insetos contaminados constantemente. Em localidades da Austrália, isso aconteceu em 10 semanas, em média.

A pesquisa com a Wolbachia começou na Universidade de Monash, na Austrália, em 2008. Inicialmente, os cientistas esperavam que a bactéria reduzisse o tempo de vida do Aedes, mas descobriram que ela também afeta a reprodução e bloqueia a multiplicação do vírus. "Estamos diante de uma estratégia científica inovadora e segura, que poderá contribuir para o controle da dengue e para a melhoria da saúde da população", afirmou o pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira, líder do projeto no Brasil. Ele integrava a equipe de cientistas que fez as descobertas na Austrália.

A Wolbachia é uma bactéria intracelular, que só pode ser transmitida de mãe para filho, no processo de reprodução dos mosquitos. Além disso, é maior que o canal salivar do mosquito. Ou seja, não sai pela saliva, meio pelo qual o homem é contaminado. Para garantir que não infecta seres humanos e animais domésticos, durante cinco anos, integrantes da equipe, na Austrália, alimentaram uma colônia de mosquitos com Wolbachia, usando seus próprios braços.

O projeto Eliminar a Dengue: Desafio Brasil foi lançado no Rio de Janeiro, em 2012. Nesses dois anos, os pesquisadores capturaram Aedes aegypti nos locais que servirão de testes, estudaram essas regiões e criaram os mosquitos contaminados em laboratório. Depois de lançados em Tubiacanga, os cientistas poderão avaliar a capacidade dos mosquitos com a bactéria se estabelecerem no meio ambiente e se reproduzirem com os mosquitos locais.

Cerca de 10 mil insetos serão liberados semanalmente em Tubiacanga, por até quatro meses. Para reduzir o incômodo da população, a Secretaria Municipal de Saúde fez uma campanha para eliminar focos de criação do mosquito. Depois da Ilha do Governador, os bairros da Urca e Vila Valqueire, no Rio de Janeiro, e de Jurujuba, em Niterói, receberão os mosquitos. Estudos de larga escala para avaliar o efeito da estratégia estão previstos para ocorrer a partir de 2016.

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