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Estado de Minas

Voynich, manuscrito resgatado em 1912, intriga cientistas

Especialistas buscam decifrar seu significado. Doutorando de física da USP tenta desvendar o mistério usando redes complexas para entender sua lógica


postado em 01/10/2013 09:40 / atualizado em 01/10/2013 13:05

Celina Aquino

(foto: Arquivo EM)
(foto: Arquivo EM)

Há séculos um texto intriga o mundo. Escrito em uma língua enigmática, o Manuscrito de Voynich é conhecido como o livro que ninguém consegue ler. De fato, não há quem entenda o seu significado, mas três pesquisadores brasileiros, usando sistemas de computador, atestam que o documento não é uma sequência aleatória de palavras. “Vimos que existe nele um padrão encontrado em línguas naturais”, revela o engenheiro de computação Diego Raphael Amancio, de 26 anos, doutorando em física computacional na Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos. “Agora ficam duas hipóteses em aberto: a linguagem pode ser nova ou ter sido criptografada.” Com a pesquisa, que deve ser concluída no mês que vem, o jovem espera ajudar outros estudiosos a desvendar o mistério.


Interessado em investigar textos, Amancio resolveu aplicar o conceito de redes complexas para entender a lógica do Manuscrito de Voynich. Depois de analisar um gráfico em que cada palavra é representada por um ponto, o pesquisador da USP chegou a um padrão de escrita do documento, levando em conta a forma como os termos se conectam. Em nenhum momento, considerou-se o significado. “Uma pessoa pode escrever sobre vários assuntos, mas sempre vai seguir o mesmo estilo de texto”, esclarece.


O grupo comparou, de diferentes maneiras, o padrão de escrita do Manuscrito de Voynich com trechos do Novo Testamento da Bíblia em 15 idiomas. Considerando a hipótese de que o documento misterioso é uma brincadeira, os pesquisadores embaralharam as palavras contidas nos livros religiosos para que fosse possível compará-lo com textos sem significado. Amancio, no entanto, não detectou nenhum padrão de texto aleatório no Manuscrito de Voynich. Pode até ser que o autor desconhecido tenha tentado pregar uma peça nos leitores, mas a estratégia parece não ter sido a elaboração de um livro sem sentido.


A conclusão se mostrou ainda mais plausível diante do resultado das análises da Bíblia na ordem correta. “Não há nada de diferente do que encontramos em línguas naturais, pois o jeito de escrever é compatível com os estilos já existentes. Só não sabemos o que ele significa”, acrescenta.


 Publicada há dois meses na revista online Plos One, a pesquisa também considerou a possibilidade de o Manuscrito de Voynich ter sido elaborado em um idioma inventado. A hipótese ganha força com a descoberta de que o padrão de escrita do documento é bem parecido com o do texto bíblico em esperanto, única língua até agora conhecida que foi criada pelo homem. O indício está na quantidade de palavras repetidas que aparecem seguidas no documento. “Há muito mais repetições no Voynich – às vezes aparecem três vezes seguidas a mesma palavra – que nas outras línguas analisadas. Pode ser que isso seja uma característica particular desse novo idioma novo”, esclarece o aluno da USP.
 
Mapeamento automático

Há dois anos como pesquisador no Instituto Max Planck para Física de Sistemas Complexos, em Dresden, na Alemanha, o físico Eduardo Goldani Altmann, de 33, ficou interessado em adaptar a técnica de análises estatísticas para estudar um texto cujo alfabeto é desconhecido. Mapeando de maneira automática a frequência das palavras e como elas estão distribuídas, o brasileiro conseguiu detectar as palavras-chave do Manuscrito de Voynich, que são aquelas que carregam mais informação sobre o conteúdo e dão ideia de qual é o sentido do texto. “Queremos dar uma contribuição para ajudar na compreensão do documento”, destaca Altmann. O resultado serviu de base para a comparação com os 15 trechos do Novo Testamento da Bíblia (veja quadro).


As palavras-chave, geralmente, aparecem distribuídas de maneira diferente de palavras auxiliares (como verbos, pronomes, artigos e adjetivos): elas costumam estar bem próximas em uma parte do texto e depois desaparecem. “Posso usar a palavra chuva muitas vezes em um texto longo. Se na história para de chover, não a uso mais. Já a palavra bonito, que é descritiva, pode aparecer o mesmo número de vezes, mas mais distribuída”, exemplifica o físico. No Novo Testamento, foram destacadas palavras como Pilatos, anjo, menino, sepulcro e Maria, que não necessariamente aparecem em grande quantidade, mas estão concentradas em alguma parte do livro religioso, o que demonstra que são representativas do conteúdo.


Na publicação misteriosa, a medida de intermitência das palavras-chave, que mostra o grau de concentração delas no texto, é muito mais alta que na Bíblia. O engenheiro de computação Diego Raphael Amancio garante que há explicação para a descoberta. “A Bíblia não é dividida por assuntos como o Manuscrito de Voynich. Vendo figuras de plantas, depois de planeta, conseguimos distinguir algumas sessões e é óbvio que algumas palavras vão estar mais concentradas em uma parte e pouco presentes em outra. Isso não é característica do idioma, mas de como o documento está organizado”, informa.
O pesquisador da USP espera que agora os criptógrafos se concentrem nas palavras-chave e tentem chegar ao significado delas, o que pode facilitar a tradução do enigmático livro.

 

Saiba mais - O Manuscrito 

A publicação que atualmente integra o acervo da biblioteca da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, é cercada de mistérios. O nome é uma homenagem ao livreiro polonês Wilfrid Voynich, que resgatou o documento perdido na coleção de padres jesuítas italianos, em 1912. Calcula-se que o livro de bolso com 240 páginas e palavras indecifráveis tenha sido escrito no século 15. Apesar de não ser possível entender o texto, as ilustrações coloridas dão pistas de quais assuntos são tratados. Seguindo a lógica das figuras, chegou-se à conclusão de que o Manuscrito de Voynich é dividido em cinco seções: botânica (desenhos de plantas desconhecidas), astronomia, (diagramas que parecem se referir a estrelas), biologia (com figuras femininas), farmacologia (ampolas, frascos e ervas medicinais) e a seção final, sem nome (com pequenas estrelas que parecem ser as marcações de um índice).

 

O que nos interessa - Aplicação no dia a dia

 

Futuramente, as técnicas usadas para analisar o Manuscrito de Voynich podem solucionar problemas cotidianos. O engenheiro de computação Diego Raphael Amancio estuda aplicar o conceito de redes complexas para o reconhecimento de autoria. A partir dos padrões de textos escritos por pessoas conhecidas, o computador será capaz de avaliar automaticamente quem escreveu o texto de autoria duvidosa. Já as análises estatísticas utilizadas pelo físico Eduardo Goldani Altmann podem ser mais eficiente que os mecanismos de busca na internet. Sem que alguém tenha que ler o texto, o método conseguirá identificar palavras-chave e facilitar o entendimento do conteúdo.

 

Distribuição de palavras

 

Palavras-chave encontradas na Bíblia (em três idiomas)
e no Manuscrito de Voynich, sem correlação ou sentido similares

 

Português      Inglês      Alemão      Voynich
nasceu      begat      zeugete      cthy
Pilatos      Pilates      zentner       qokeedy
céus       talents      himmelreich      shedy
bem-aventurados      loaves       pilatus      qokain
Isabel       Herod      schwert      chor
anjo       tares      Maria      lkaiin
menino      vineyard      Elisabeth      qol
vinha       shall      Etliches      lchedy
sumo       boat       unkraut      sho
sepulcro      demons      euch      qokaiin
joio       five      schiff      olkeedy
Maria       pay      ihn      qokal
portanto      sabbath      weden      qotain
Herodes      hear      heuchler      dchor
talentos      whosoever     tempel      otedy

 


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