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Estado de Minas GADGET DA ACESSIBILIDADE

Empresa brasileira desenvolve aplicativos para portadores de distúrbios de linguagem e articulação

Blogueira testa e reprova programas disponíveis para o sistema Android


postado em 15/08/2013 14:31 / atualizado em 15/08/2013 17:09

Shirley Pacelli

'Tenho visto uma mudança radical na aprendizagem das crianças desde que os tablets começaram a ser utilizados para o ensino' - Bárbara Fernandes, diretora da Smarty Ears(foto: Smarty Ears/Divulgacao )
'Tenho visto uma mudança radical na aprendizagem das crianças desde que os tablets começaram a ser utilizados para o ensino' - Bárbara Fernandes, diretora da Smarty Ears (foto: Smarty Ears/Divulgacao )
Se antes era preciso dar prêmios para as crianças participarem ativamente de uma terapia com uma fonoaudióloga, hoje basta mostrar a elas os tablets e a mágica está feita. É o que assegura a brasileira Bárbara Fernandes, de 30 anos, fundadora e diretora da Smarty Ears (ipadfono.com), empresa que cria aplicativos para psicopedagogia e fonoaudiologia. Fernandes foi a primeira fonoaudióloga nos Estados Unidos a propor o uso de dispositivos móveis para crianças com distúrbios de linguagem e articulação. A empresa foi fundada em 2009 e hoje tem mais de 60 apps em inglês e 11 em português, com planos de expansão.

“Tenho visto uma mudança radical na aprendizagem das crianças desde que os tablets começaram a ser utilizados para o ensino. Pela primeira vez, elas estão fascinadas para passar por uma sessão com a fonoaudióloga”, ressalta. Segundo ela, os pais também começaram a participar mais ativamente no aprendizado porque, enfim, têm uma ferramenta em casa (smartphone ou tablet) que pode ser utilizada. Crianças que se comunicaram pela primeira vez com a mãe usando um iPad como voz e um idoso que era médico e teve melhoradas as habilidades perdidas depois de um derrame são alguns exemplos dos benefícios potenciais dos programas em dispositivos móveis.

Para a diretora, existe uma diferença muito grande entre aplicativos que são desenvolvidos por pessoas leigas e profissionais da educação. Ela conta que sempre foi fascinada por tecnologia e já usava o computador com seus pacientes frequentemente. Quando o iPhone foi lançado, em 2007, ela viu que não havia aplicativos para a plataforma e decidiu criá-los. “Meus 10 anos como fonoaudióloga me dão experiência e conhecimento para saber qual a melhor forma de avaliar o aprendizado usando dispositivos móveis”, conta.

A equipe da Smarty Ears é formada por 20 fonoaudiólogos e professores de educação regular e especial. Durante o desenvolvimento do app, pais de meninos com deficiência, programadores e ilustradores também entram em cena. Isso possibilita criar aplicativos em várias áreas: pessoas que sofrem de gagueira, idosos que sofreram derrame e têm dificuldade de leitura e escrita, crianças em treinamento de pronúncia e outros, como os autistas, para a melhora de habilidades de comunicação.

Entre os aplicativos mais populares no Brasil, está o Academia da Articulação para crianças, além do recém-lançado Afasia-Pro, destinado a adultos com afasia (distúrbio na formulação e compreensão da linguagem). Os dois podem ser baixados por familiares para o treinamento em casa. A maior parte dos aplicativos é paga, mas tem valor bem abaixo dos softwares para computador. “No Brasil, programas para fonoaudiologia e para crianças com deficiência sempre foram muito caros e ainda são. Quando fizemos a pesquisa, eles custavam cerca de R$ 200. Os nossos são, em média, R$ 20”, ressalva Fernandes.

MOBILIDADE
Os aparelhos móveis são o foco da atenção da empresa justamente por serem portáteis e também intuitivos, facilitando o aprendizado em qualquer lugar: no carro, em casa ou na escola. Todos os programas criados são exclusivos para a plataforma iOS, porque, segundo a diretora, o iPad tem sido estudado por vários profissionais nos Estados Unidos e têm se mostrado o tablet que alcançou o maior sucesso entre crianças com deficiência. “O sistema iOS é o mais fácil a ser utilizado e é muito intuitivo – o que é fundamental para pessoas que já têm tanta dificuldade. Os aparelhos Android estão começando a dar sinal que podem um dia competir nessa área, mas, na minha opinião, ainda deixam muito a desejar”, justifica Fernandes.

Clique para conhecer mais aplicativos que auxiliam a fala e articulação(foto: EM/ DA Press)
Clique para conhecer mais aplicativos que auxiliam a fala e articulação (foto: EM/ DA Press)


Prova dos nove
No ano passado, a jornalista e fã de tecnologia Cler Oliveira, de 37 anos, foi procurada pelo amigo Fernando, que então tinha se tornado deficiente visual, para lhe dar uma mãozinha com o tablet que havia ganhado da namorada. Ele precisava de um leitor de tela para usar o aparelho. Cler procurou e a primeira opção que achou era muito cara, cerca de R$ 200. Mesmo assim, baixou a versão de demonstração e, vendada, testou o aparelho. A surpresa foi grande quando ela percebeu que era impossível realizar atos básicos de maneira simples com a plataforma. Descobriu então um segundo programa, o Lis, que, apesar da necessidade de conhecimento em braile, seria uma alternativa.

Vitimado por um câncer, Fernando não chegou a conhecer o software. Desde então, a jornalista resolveu fazer dos testes dos aplicativos um blog com dicas e curiosidades para poder ajudar um número maior de pessoas. Criado em janeiro, o Aplicativos para pessoas com deficiência (aplicativosparapcd.com) tem cerca de 300 visitas diárias e foi criado em janeiro. “Segundo o último censo, há 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil. Esse público consome tecnologia. Os desenvolvedores têm que ter um cuidado maior para criar programas para ele”, diz Oliveira. Uma amiga de Cler, que é deficiente visual, volta e meia, descobre erros de digitação com um aplicativo de audiodescrição com que confere o conteúdo do blog.

Para ela, o grande problema é que, normalmente, os programas não dão autonomia total aos usuários com deficiência. É preciso que outra pessoa intervenha, que baixe e abra o app. Cler diz preferir o sistema operacional iOS por ter melhores configurações de acessibilidade embarcadas no dispositivos. “O programa da Apple guia você. Eu testei de olhos fechados e falei: meu Deus, quero um para mim”, conta. Já aplicativos Android, para tornarem o aparelho mais acessível, como o Talkback, precisam evoluir. A jornalista tem o hábito de enviar e-mails aos desenvolvedores com dúvidas diversas, mas são raros os casos em que têm retorno.

Cler, que tem também outros dois blogs, diz que o Aplicativos é o seu xodó. É o único que conta com recursos de acessibilidade 2.0. Entre as ferramentas que já testou, o PDF to Speech, que permite ouvir gravação sonora de arquivos em PDF, é o que ela julga o mais completo. “Ando muito de ônibus e me canso de ler. Aí coloco o fone e vou ouvindo o livro”, diz. O Call anouncer diz o nome da pessoa e número que está ligando no seu smartphone. Segundo ela, os mais baixados são sempre as pranchas de comunicação alternativa. “Já testei vários aplicativos e alguns não prestaram para nada. Tinha um de localização, que, se o seguisse, estaria perdida”, lembra.

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