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Estado de Minas

Pesquisador da UFMG comprova a eficácia de trepadeira indiana contra doenças

Trepadeira é usada há anos pela medicina ayurvédica na Índia, mas só agora um grupo internacional de cientistas, inclusive brasileiros, comprova seus efeitos medicinais


postado em 03/06/2013 09:29 / atualizado em 03/06/2013 09:29

A tuberculose é uma doença que não para de crescer no mundo. A afirmação é do professor Vasco Azevedo, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG), residente do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat) e um dos pesquisadores que comprovaram a eficácia de uma planta, originalmente, indiana no combate à enfermidade e outras infecções causadas por bactérias.

Muito usada na Índia, a folha da trepadeira Betel, cientificamente conhecida por Piper betle, já tinha suas funções terapêuticas conhecidas pela medicina ayurvédica, ciência milenar indiana cujos princípios deram origem às medicinas chinesa, árabe, romana e grega. A planta era indicada no tratamento de inflamações, dores de cabeça e problemas respiratórios e o povo indiano, especificamente o do Norte do país, sempre usou suas folhas como forma de também auxiliar na digestão e limpeza bucal.

Mas só agora ela teve a sua eficácia comprovada cientificamente por uma equipe internacional de pesquisadores da Índia, Brasil, México, EUA e Dinamarca, liderada pelo indiano Debmalya Barh, do Instituto de Omics Integrativas e Biotecnologia Aplicada (IIOAB), em Nonakuri, na Índia. “Realizamos testes in vitro em duas bactérias, a Corynebacterium pseudotuberculosis, que causa uma falsa tuberculose em caprinos e ovinos, e a Vibrio cholerae, causadora do cólera. E pela primeira vez, destrinchamos os compostos isolados das folhas da Betel”, conta Vasco Azevedo, líder da equipe brasileira.

Professor do ICB/UFMG, Vasco Azevedo, ao lado do pesquisador indiano Sandeep Tiwari, que faz doutorado em bioinformática em BH: grupo multidisciplinar para avaliar a planta(foto: Arquivo pessoal)
Professor do ICB/UFMG, Vasco Azevedo, ao lado do pesquisador indiano Sandeep Tiwari, que faz doutorado em bioinformática em BH: grupo multidisciplinar para avaliar a planta (foto: Arquivo pessoal)
Segundo o biólogo, os pesquisadores observaram que a Betel teve efeito superior a certos antibióticos como penicilina, ampicilina e cloranfenicol. Desta forma, ela pode ser usada na fabricação de novos medicamentos que combaterão, além da tuberculose, as bactérias causadoras de diarreia, cólera e peste bubônica. “A identificação das metas comuns e compostos de segmentação de tantos patógenos mortais é uma grande conquista e considerado um progresso para o combate às doenças causadas por esses agentes patogênicos”, diz Vasco.

Em razão disso, a doutora Nidia Leon Sicairos, da Faculdade de Medicina da Universidade Autônoma de Sinaloa, no México, que liderou a equipe mexicana, definiu os compostos da planta como “compostos de ouro”. Comprovada a eficácia da Betel, os pesquisadores precisam agora testar os compostos da planta in vivo. E torcem pelo interesse de grandes laboratórios para dar continuidade ao trabalho e, consequentemente, desenvolver remédios.

“Se as empresas quiserem nos contratar, ótimo. Se não quiserem, também ótimo porque fizemos o nosso dever social, afinal esse é o objetivo das pesquisas. Tornamos público nosso conhecimento, mas o grande problema no Brasil é que não achamos empresas dispostas a investir num projeto desde o início. O país precisa investir nas pesquisas para dar um salto tecnológico”, critica o professor da UFMG, destacando que o trabalho foi publicado na Europa antes mesmo de ser patenteado, para tentar despertar o interesse de empresários do ramo de medicamentos.

“Sem patentear, você perde a primazia, mas foi a forma que encontramos para tentar despertar o interesse para a causa. Publicamos para ver se há interesse, se eles querem trabalhar com a gente ou querem nos contratar para trabalhar com eles, mas os empresários no Brasil querem sempre pagar menos. Na Europa, por exemplo, você tem 400 pesquisadores, hipoteticamente, trabalhando, enquanto no nosso país, não fazem pesquisa de desenvolvimento”, desabafa.

Vasco espera que os grandes laboratórios se interessem pela pesquisa, levando em consideração o aumento significativo dos casos de tuberculose no país. “A doença já foi considerada um mal de países em desenvolvimento mas, com a epidemia de HIV, ressurgiu com força total em nações consideradas de primeiro mundo. Ficamos quase 40 anos sem a fabricação de um novo medicamento para a tuberculose porque não era interessante para o país rico, não era doença de país rico. Mas com a Aids, começou-se a desenvolver novas drogas. Esperamos ganhar com isso.”

A tuberculose
De acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), 8,7 milhões de pessoas foram infectadas com a doença e 1,4 milhão morreram de tuberculose em 2011. As estatísticas no Brasil também não são animadoras. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil ocupa o 15º lugar entre os 22 países responsáveis por 80% do total de casos da enfermidade no mundo. No país, são notificados, anualmente, 85 mil casos novos. Além disso, são registrados cerca de 6 mil mortes por ano em decorrência da doença.

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