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Estado de Minas BAFÔMETRO DO CORAÇÃO

Pesquisadores mineiros desenvolvem aparelho para detectar insuficiência cardíaca


postado em 12/01/2013 14:19 / atualizado em 12/01/2013 14:30

(foto: Arte EM)
(foto: Arte EM)
O aumento da população idosa brasileira, a herança genética e os hábitos de vida complicados e desregrados dentro de uma rotina cada vez mais agitada nem sempre são bons sinais para o coração. Prova disso é o aumento da insuficiência cardíaca no país, um problema de saúde pública com elevada taxa de mortalidade. Apesar dos avanços significativos na compreensão da fisiopatologia e do tratamento, as dificuldades do diagnóstico precoce da doença ainda representam um grande entrave para os profissionais de saúde. Foi diante do quadro alarmante que uma equipe da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) se debruçou nos últimos anos até chegar a um experimento inovador capaz de detectar o problema sem qualquer tipo de dor.

Diferentemente dos exames atuais bastante caros, feitos a partir de equipamentos invasivos e dolorosos, a descoberta da equipe mineira propõe o inverso. Um aparelho com um nanossensor, acoplado num dispositivo semelhante a um bafômetro, consegue detectar na hora, depois de assoprado pelo paciente, uma substância característica da patologia.

Quando o indivíduo começa a ter problema, o biomarcador – essa substância que está relacionada à presença da doença ou seu avanço –, aumenta. “Em vez de fazer o exame pelo sangue resolvemos propor algo com o ar exalado. O método não é invasivo, é confortante e indolor. Representa algo inovador para ter uma informação fidedigna, rápida e prática”, salienta a professora da área de toxicologia da Faculdade de Farmácia da UFJF Nádia Rezende Barbosa Raposo. Ela coordenou o projeto ao lado do professor Marcos Brandão.

TESTE SIMPLES
A Organização Mundial da Saúde (OMS) há tempos recomenda que a comunidade científica busque um parâmetro objetivo e preciso para a identificação de doentes com disfunção ventricular, em particular aqueles em estados iniciais da doença; um marcador mais preciso para um correto prognóstico e estratificação dos pacientes; um teste simples e reprodutível para o diagnóstico e monitorização do tratamento instituído. Até o experimento da equipe mineira ocorrer não havia ainda um método que conseguisse dar conta da solicitação da OMS. A descoberta surgiu depois de um longo processo de pesquisa, que partiu de um problema para buscar as possíveis soluções.

“Pensamos em desenvolver esse sensor porque conseguimos, por meio do ar exalado, detectar um biomarcador com correlação à doença”, conta a cientista. O projeto mineiro, que ainda está em fase final de certificação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), deverá estar no mercado, se tudo correr como planejado, em dois anos. “Acreditamos que teremos uma facilidade de inserção do projeto no mercado, contribuindo para reduzir bastante o número de óbitos. Hoje, cerca de 50% dos pacientes morrem em quatro anos após o diagnóstico da insuficiência cardíaca porque sabem tardiamente da doença. Buscamos algo para minimizar esse efeito. Nossa pesquisa visa o diagnóstico precoce.” A perspectiva da receptividade do experimento no mercado é grande, pois existem milhares de cardiologistas atuando no país e milhões de pacientes atingidos pelo problema.

“Temos público, a solução, e se conseguirmos colocar no mercado a tecnologia com preço acessível, vamos avançar muito na questão”, espera. Os caminhos para uma descoberta como a do nanossensor que detecta problemas cardíacos são longos e feitos, em geral, em equipe. No caso da descoberta da Universidade de Juiz de Fora, que contou com participação efetiva dos alunos Hudson Caetano Polonini, Francisco José Raposo, Karla Gonçalves e Rebeca Mól Lima, o processo começou com a detecção do problema. Em seguida, foi analisada a viabilidade mercadológica do projeto e iniciada a fase de experimentos. Nem sempre o sucesso é garantido.

“A cada dia vamos descobrindo novas etapas. Tem dias que saímos tristes, porque as coisas não funcionam como imaginávamos, mas no outro já conseguimos avançar. É uma evolução.” Pela lei da inovação, mesmo que o novo aparelho renda muito dinheiro devido às perspectivas do mercado, os criadores só poderão ficar com um terço do valor dos royalties. O restante vai para a UFJF e para os demais parceiros envolvidos.

Reconhecimento internacional

A descoberta da equipe da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) ganhou reconhecimento fora do Brasil, no concurso Idea to Product (I2P) – América Latina, ocorrido em setembro, em São Paulo. A competição premia universitários que apresentem propostas de produtos únicos, com viabilidade de mercado e tecnologias inovadoras. Foram inscritos 39 projetos, e a universidade mineira conseguiu classificar o nanossensor que diagnostica os problemas de insuficiência cardíaca e ainda participou de outro experimento classificado, o Nanobee. Esse último foi desenvolvido em parceria com as universidades federais de Ouro Preto e Lavras e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Saiba mais - insuficiência cardíaca

A insuficiência cardíaca é um problema de saúde pública que ocasiona limitações das atividades diárias do paciente e piora sua qualidade de vida. São várias as causas, podendo ser associada à genética ou a questões como a não prática de exercícios físicos, alimentação inadequada, causas metabólicas, estresse. Os sintomas são dificuldades respiratórias, inchaço nos membros inferiores, aumento do abdômen e fadiga. Como são sintomas inespecíficos, a insuficiência cardíaca pode ser confundida com outras doenças mascarando o diagnóstico precoce que minimizaria os índices
de morte atuais.

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