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Estado de Minas ESPERANÇA RENOVADA PARA CARDÍACOS

Medicamento para evitar trombose é testado para prevenir infarto, AVC e morte cardiovascular

Em estudo de fase III, droga é aplicada em 20 mil pessoas de 450 centros médicos, em 25 nações


postado em 06/01/2013 00:12 / atualizado em 06/01/2013 08:01

Colônia (Alemanha) – Vinte mil pacientes com doença arterial coronariana ou com doença arterial periférica começam a testar uma nova estratégia de prevenção de complicações cardiovasculares maiores, como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e morte cardiovascular, como é conhecida a morte súbita por problemas do coração. O estudo de fase III conhecido como Compass, ou Desfechos cardiovasculares para pacientes usando estratégias de anticoagulação, envolve 450 centros de 25 países, incluindo o Brasil, representado pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, vinculado à Universidade de São Paulo (USP). O objetivo é avaliar o impacto dos anticoagulantes na proteção desses pacientes.

Na investigação conduzida pelo Population Health Research Institute, líder de pesquisa acadêmica de ciência da saúde com sede em Hamilton, Canadá, os pacientes serão divididos para avaliar a eficácia do anticoagulante rivaroxabana – já adotado para evitar o tromboembolismo venoso em pacientes adultos após cirurgias eletivas de joelho ou quadril – também na prevenção das complicações cardiovasculares maiores. Um grupo vai receber rivaroxabana de 2,5mg, duas vezes ao dia, em combinação com o ácido acetilsalicílico de 100mg, uma vez ao dia. Outro grupo vai usar rivaroxabana de 5mg duas vezes ao dia, de forma isolada. Um terceiro receberá apenas ácido acetilsalicílico de 100mg uma vez ao dia.

Segundo o cardiologista e epidemiologista Salim Yusuf, diretor do Population Health Research Institute e principal pesquisador do Compass, trata-se de uma nova estratégia para evitar milhões de mortes. Isso porque a doença arterial coronariana é a causa mais comum das doenças cardiovasculares, sendo responsável por cerca de 7,3 milhões de mortes pelo mundo, todo ano. De um terço à metade de homens e mulheres de meia idade têm risco de desenvolver o problema durante a vida. E o número de pacientes cresce a cada dia. A expectativa é que a doença reduza os anos de vida de 82 milhões de pessoas no mundo até 2020.

Já a doença arterial periférica, subdiagnosticada, afeta mais de 27 milhões de pessoas só na Europa e América do Norte, sendo importante marcador das doenças cardiovasculares. Estima-se que 20% dos adultos com mais de 55 anos têm evidência da doença que também cresce com o envelhecimento da população. Segundo Estêvão Lanna Figueiredo, vice-presidente da Sociedade Mineira de Cardiologia e coordenador do serviço de Cardiologia do Hospital Lifecenter, enquanto na doença arterial coronariana obstruções crônicas nas artérias diminuem o fluxo de sangue, progressivamente, até que coração deixe de bombear o necessário, na doença arterial periférica o mesmo processo ocorre nos membros inferiores.

Essa oclusão é causada pelo acúmulo de gordura e também por coágulos. De acordo com o especialista, medicamentos como a rivaroxabana e também o dabigratan e o apixaban fazem parte de uma classe nova de anticoagulantes, os chamados inibidores da trombina – enzima responsável pela formação do trombo – e do fator Xa, outro importante desencadeador dos coágulos. “Se formos pensar em um medicamento que mudou a história da cardiologia esse medicamento foi o ácido acetilsalicílico, um antiagregante de plaquetas. Agora, esses novos anticoagulantes buscam provar sua contribuição. Antiagregantes e antigoagulantes têm papel definitivo na prevenção de doenças cardíacas.”

Os antiplaquetários são os medicamentos mais comumente descritos para a prevenção de complicações cardiovasculares maiores em pacientes com doença arterial coronariana ou com doença arterial periférica. A ideia agora é ver sua combinação com um anticoagulante. “Terapias antiplaquetárias e rivaroxabana têm mecanismos de ação complementares e quando combinados demonstraram melhorar os resultados em pacientes com síndrome coronária aguda. O estudo avaliará se a associação tem o potencial para proteção mais completa contra formação de coágulos em longo prazo”, explica Kemal Malik, chefe de desenvolvimento global e membro do Comitê Executivo da Bayer HealthCare.

Mudar hábitos é essencial

Nos últimos 30 anos ocorreu um considerável progresso na prevenção das doenças cardíacas. Parar de fumar, adotar uma dieta saudável, praticar atividade física, manter baixos níveis de colesterol, ter pressão arterial baixa e usar, a partir de presecrição médicas, o ácido acetilsalicílico são um conjunto de iniciativas eficientes. Segundo o cardiologista Salim Yusuf, a adoção de todos esses itens de prevenção pode reduzir a ocorrência de doenças cardiovasculares em até 70%. Para o especialista, nos próximos 10 anos as pesquisas devem focar na ação dos antitrombolíticos. “Já se sabe muito, mas é preciso implementar o que se conhece.”

Pesquisador brasileiro do Compass, o cardiologista Ricardo Pavanello acredita que se os resultados do estudo forem os esperados pelos investigadores estaremos diante de uma quebra de paradigma no tratamento das doenças cardiovasculares. “Além de eficácia semelhante à da varfarina, que consegue evitar mais de dois terços dos fenômenos tromboembólicos em pacientes com fibrilação atrial, a rivaroxabana tem boa relação custo-benefício e características mais favoráveis para o seu emprego clínico: dose oral e fixa, resposta previsível, baixa incidência de interações alimentares ou medicamentosas, e não exige controle rotineiro da anticoagulação e início e término rápidos do efeito”.

Segundo o especialista, o medicamento é absorvido rapidamente e tem concentração plasmática máxima em duas a quatro horas. A meia-vida é de cinco a nove horas em indivíduos jovens e de 11 a 13 horas em indivíduos idosos. “Apesar dessa meia-vida curta, existe a inibição da geração de trombina por 24 horas, sendo bastante seguro e eficaz, durante esse período de ação.” Hoje a rivaroxabana tem uso aprovado para prevenção de AVC e embolismo sistêmico em pacientes adultos com fibrilação atrial não valvular com um ou mais fatores de risco; para a prevenção e tratamento de trombose venosa profunda e tratamento de embolismo pulmonar; e para prevenção de tromboembolismo venoso em pacientes adultos que se submeteram à artroplastia eletiva de joelho ou quadril.

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