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Estado de Minas

Saliva do carrapato tem propriedades anticoagulantes e antitumorais

Cientistas do Instituto Butantan encontram uma proteína essencial


postado em 05/10/2012 08:05 / atualizado em 05/10/2012 08:15

(foto: FOTOS: BLOGSPOT.COM.BR/REPRODUÇÃO DA INTERNET)
(foto: FOTOS: BLOGSPOT.COM.BR/REPRODUÇÃO DA INTERNET)
Vários laboratórios em todo o mundo investem alguns milhões de dólares na busca por um meio seguro e eficaz de inibir a coagulação sanguínea, que pode vir a ser usado em cirurgias e no combate a algumas doenças. E foi no Laboratório de Bioquímica do Instituto Butantan, em São Paulo, que pesquisadores brasileiros chamaram a atenção da comunidade científica para uma descoberta há anos procurada por muitos. Os cientistas desconfiaram que a saliva do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), um hematófago, parasita que se alimenta de sangue, poderia impedir a coagulação, já que ele precisa manter o líquido viscoso fluindo para poder sugá-lo.

E a suspeita se confirmou. A saliva realmente mantinha o sangue incoagulável. “Ela interfere em um ponto-chave da coagulação, que chamamos de fator 10 ativado. Ao inibir o fator 10, não há produção da trombina (que tem o papel de converter fibrinogênio em fibrina, uma proteína essencial para a coagulação. É como se a trombina fosse o tijolo e a fibrina o cimento da coagulação) e o processo é interrompido”, explica Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, farmacêutica responsável pela pesquisa.

O primeiro passo foi analisar o DNA da saliva do carrapato para identificar quais genes eram os responsáveis pelo feito. A equipe identificou essas proteínas e as comparou com as existentes na biblioteca de genes. “Conseguimos uma similar e a utilizamos em um vetor. São bactérias Escherichia coli que têm a capacidade de replicar essa proteína recombinante”, conta Ana Marisa.

Se a empolgação já era grande até aqui, aumentou com os primeiros testes. “Percebemos que essa proteína da saliva do carrapato tem também propriedades antitumorais. Passamos, então, a testá-lo em células de vários tipos de tumores diferentes, como melanoma, mama, renal e de pâncreas. Todos tiveram resposta positiva”, comemora.

A coordenadora do estudo Ana Marisa Chudzinski-Tavassi (4ª da esquerda para direita) e a equipe de pesquisadores: avanço(foto: Instituto Butantan/Divulgação)
A coordenadora do estudo Ana Marisa Chudzinski-Tavassi (4ª da esquerda para direita) e a equipe de pesquisadores: avanço (foto: Instituto Butantan/Divulgação)
Devido ao grande potencial terapêutico da molécula e como ela nunca havia sido descrita na literatura científica, a equipe registrou uma patente, licenciada pela União Química, no Instituto de Propriedade Industrial (INPI). A pesquisa também está protegida pelo Patent Cooperation Treaty (PCT), um protocolo da Organização Mundial de Propriedade Intelectual, agência das Nações Unidas que tem o papel de promover a inovação e a criatividade para o desenvolvimento social, cultural e econômico dos países.

Em testes mais complexos, camundongos com melanoma foram tratados com a proteína desenvolvida. Depois de 42 dias, os tumores de pele foram eliminados e os animais permaneceram sadios. “As células saudáveis morrem de forma programada. O câncer surge, justamente, quando a célula não morre dessa forma planejada pelo organismo e começa a se multiplicar. Percebemos que essa molécula induz a célula tumoral a essa morte programada, colocando-a de volta ao ciclo normal do organismo. Testamos em cobaias com câncer inicial, câncer implantado e metástase pulmonar. Em todos os testes, percebemos regressão da doença. Seja inibindo o aparecimento do câncer, redução da massa tumoral ou evitando a metástase”, afirma Ana Marisa.

Ação seletiva
Outro fator fundamental percebido foi que a proteína ataca somente as células doentes: ela não tem nenhuma ação sobre as células sadias. “Nenhuma cobaia apresentou hemorragia. O que é muito bom. Afinal, em qualquer medicamente, o efeito benéfico deve ser maior que o maléfico. Na quimioterapia, por exemplo, células doentes e sadias são afetadas”, pontua a cientista.

Para que a pesquisa resulte em um medicamento, ainda existem alguns passos a serem dados. Viabilizar a produção em larga escala; realizar testes de eficácia e segurança farmacológica conforme as regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tratando animais de diferentes espécimes e numa última etapa fazendo testes em humanos. Até o momento, a equipe do Instituto Butantan fez o que se chama prova de conceito, que são todos os testes possíveis de serem realizados em laboratório.


A pesquisa vai, agora, entrar justamente na fase pré-clínica, com os testes de segurança farmacológica. “No Brasil, historicamente, a indústria farmacêutica não investe nesse tipo de pesquisa por insegurança jurídica”, revela. As descobertas oriundas de instituições públicas são protegidas por lei, o que torna complicado a relação com as empresas privadas. “Estamos trabalhando nisso há seis anos. Já teríamos tempo para dizer se a técnica funciona ou não em humanos, pois há dinheiro e gente interessada. Não fizemos por conta da questão jurídica”, lamenta Ana Marisa. No entanto, como a pesquisa é bastante promissora, os laboratórios BioLab, Aché e União Química formaram um consórcio para a produção de futuros medicamentos que podem surgir a partir da descoberta.


Substância do Amblyomma cajennense não havia sido descrita na literatura
Substância do Amblyomma cajennense não havia sido descrita na literatura
Câncer de pâncreas

Um dos resultados do estudo do Butantan que mais chamaram a atenção foram os envolvendo o câncer de pâncreas. “Não existe um tratamento efetivo contra esse tipo de câncer. Não há resposta. No máximo, uma cirurgia como alternativa. Testamos em câncer humano, induzido em animal, e tivemos resultados positivos com essa molécula. Então, podemos vislumbrar um tratamento inédito para a patologia”, reforça a farmacêutica Ana Marisa Chudzinski-Tavassi.

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de pâncreas representa 2% de todos os tipos, com nove mil novos casos anualmente. Desses, 75% morrem ainda no primeiro ano de tratamento. Em cinco anos depois do diagnóstico, a taxa de mortalidade sobe para 94%. A incidência do câncer de pâncreas ainda é considerada baixa, mas tem registrado aumento a cada ano com a maior expectativa de vida.


Febre maculosa
A picada do carrapato-estrela pode ter efeitos maléficos para a saúde. A febre maculosa, doença muitas vezes fatal, é transmitida pelo aracnídeo. Trata-se de uma doença infecciosa febril aguda, de gravidade variável, cuja manifestação pode ser leve até grave, com elevada taxa de letalidade. A febre é causada pela bactéria Rickettsia rickettsii, que infecta o carrapato. Os sintomas podem aparecer entre dois e 14 dias depois de o humano ser picado pelo carrapato contaminado. Os primeiros sintomas são febre elevada, dor de cabeça e e mialgia intensa e/ou prostração. Nos primeiros dias de febre pode aparecer a mácula, que dá nome à doença. São lesões róseas de pele, nos punhos e tornozelos, que progridem para o tronco, face, mãos e pés. Em dois ou três dias, elas adquirem certo volume e maior coloração, podendo ficar sensíveis ao toque. Podem ficar arroxeadas. Nas áreas de maior atrito, podem se unir e formar uma placa, que se parece com um hematoma. O tratamento precoce é essencial para evitar formas mais graves da doença. A doença não é transmitida de pessoa para pessoa. Embora o carrapato costume se alimentar do sangue de cavalos, pode ser encontrado em vários outros mamíferos, como capivaras, gambás, coelhos, no gado e em cães.


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