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Estado de Minas

Quando o ferro está em excesso no organismo

Hemocromatose, ou presença elevada do mineral no organismo, pode lesar diversos órgãos e tecidos, quadro que leva à cirrose hepática, doenças que afetam o sistema endócrino e cardiomiopatias


postado em 27/05/2012 07:43

Uma doença que pode ser silenciosa, sem manifestações clínicas, ou dar sinais de sua presença com dor abdominal crônica, geralmente associada ao aumento do fígado, diabetes, perda de libido, atrofia testicular, manifestações cardíacas, como arritmias, dores articulares e até mesmo hiperpigmentação da pele. “Nas fases mais graves da doença podem ocorrer insuficiência hepática crônica e esplenomegalia (aumento do tamanho do baço); edema dos membros inferiores (pernas) e icterícia (pele e mucosas amareladas)”, alerta o hematologista Wellington Morais Azevedo, sobre a hemocromatose. Ele dirige um centro especializado em Belo Horizonte, o Núcleo de Hematologia e Oncologia.

O problema de nome esquisito é um distúrbio do metabolismo do ferro caracterizado pelo aumento da sua absorção no intestino e de depósitos progressivos do mineral nos órgãos e tecidos, resultando em lesão e comprometimento funcional de outros órgãos, em particular do fígado, pâncreas e coração, além das articulações e da glândula hipófise.

Segundo Azevedo, a hemocromatose pode ser primária, quando genética ou hereditária, ou secundária a outra patologia. “No caso da hemocromatose hereditária, o paciente deve iniciar o tratamento o quanto antes. No caso da secundária, é preciso tentar controlar a doença de base do paciente”, alerta. De acordo com o hematologista, “para entender a patologia é necessário que saibamos um conceito básico: o corpo humano não ‘gosta de eliminar’ ferro e, na maioria das vezes, tende a armazená-lo caso seja necessário para a produção da hemoglobina, molécula responsável por levar oxigênio aos tecidos. Os indivíduos normais absorvem 1mg/dia de ferro. Já os portadores de hemocromatose absorvem de 2mg a 4 mg/dia de ferro”, esclarece.

O especialista explica também que, no caso da hemocromatose hereditária, ocorre alteração no metabolismo do ferro, caracterizada por sua sobrecarga tecidual, podendo causar lesões em vários órgãos. “Esse quadro leva à cirrose hepática, endocrinopatias (doenças que afetam o sistema endócrino) e cardiomiopatias (doença do músculo do coração). É uma síndrome caracterizada pelo bloqueio da entrada de ferro na circulação, quando ele não é necessário, de uma maneira geneticamente determinada, e está relacionada a mutações em genes diferentes. É necessário fazer controle, porque esse excesso acumulado em órgãos e tecidos pode levar a lesões irreversíveis, diminuindo muito a qualidade de vida da pessoa, além de poder causar doenças que predispõem ao câncer”, acrescenta.

Exames

O diagnóstico é feito por meio de exames laboratoriais, pesquisa genética, biópsia de fígado, ressonância nuclear magnética ou tomografia computadorizada de abdômen. Entre as orientações ao paciente detectado com hemocromatose estão evitar alimentos com alto teor de ferro, porém não eliminá-los totalmente da dieta (carne vermelha e fígado, por exemplo); suplementação com ferro e vitamina C; bebidas alcoólicas; e frutos do mar. Realizar sangria terapêutica, que é a retirada de sangue (como se fosse um procedimento de doação) de uma quantidade previamente calculada em função do peso da pessoa, com o objetivo de reduzir o acúmulo de ferro no organismo.

“A quelação do ferro também é usada e consiste no uso de medicamentos que se ligam ao excesso do mineral, sendo capazes de eliminá-lo. Esse procedimento é indicado apenas em casos específicos. Vale lembrar que, se o paciente já apresenta quadro de cirrose hepática, esse é irreversível. No entanto, a melhora na qualidade de vida é muito importante”, ressalta Wellington Azevedo.

No caso da hemocromatose hereditária não há cura. Na secundária, caso ainda não tenham ocorrido lesões hepáticas permanentes, tratando-se a doença de base é possível um controle importante da doença, garante o especialista.

Nutriente do bem

O ferro é um nutriente essencial na função de todas as células, tendo como principal papel o transporte de oxigênio para os diferentes tecidos, fazendo parte do grupo heme da hemoglobina (Hb). O ferro também é um constituinte essencial de várias enzimas. Devido às suas propriedades de oxidação-redução, permite às células o transporte de elétrons durante a cadeia respiratória para a obtenção de energia. No entanto, o ferro pode provocar graves danos nos tecidos. Sua participação em reações químicas que produzem radicais livres de oxigênio são, muitas vezes, a principal causa de danos oxidativos ao nível das membranas celulares, proteínas e DNA. Em condições fisiológicas normais, a concentração de ferro no organismo humano é cuidadosamente regulada e mantida aproximadamente entre 40mg ferro/kg de peso corporal na mulher e 50mg ferro/kg de peso corporal no homem


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