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Estado de Minas

Ocidentais e orientais expressam emoções no rosto de maneira distinta


postado em 07/05/2012 08:40 / atualizado em 07/05/2012 08:50

Crianças japonesas durante treinamento contra desastres: asiáticos usam mais os olhos que os ocidentais para demonstrar medo, felicidade e raiva(foto: ISSEI KATO/REUTERS - 9/3/12)
Crianças japonesas durante treinamento contra desastres: asiáticos usam mais os olhos que os ocidentais para demonstrar medo, felicidade e raiva (foto: ISSEI KATO/REUTERS - 9/3/12)
 

Em seu clássico livro A expressão das emoções em homens e animais, Charles Darwin apresentou pela primeira vez a ideia de que as expressões faciais seriam uma espécie de código universal humano. Independentemente da língua falada, bastaria olhar para o rosto de outra pessoa para perceber o que ela estava sentindo. Os escritos do naturalista datam de 1872, mas a discussão continua viva até hoje. Agora, novo experimento, conduzido por pesquisadores da Universidade de Glasgow, na Escócia, indica que o britânico estava errado: a maneira que alguém expressa o que sente depende também do ambiente em que está inserido.

Apesar de os 22 pares de músculos faciais serem os mesmos em todos os seres humanos, nem sempre eles são usados de forma igual. Para chegar a essa conclusão, os cientistas escoceses resolveram estudar pessoas inseridas em culturas sabidamente distintas: orientais e ocidentais. A equipe de pesquisadores usou um programa de computação gráfica para criar 4.800 rostos de indivíduos de ambas as etnias em três dimensões. Nas imagens, as pessoas demonstravam um dos seis estados emocionais básicos: felicidade, surpresa, medo, nojo, raiva e tristeza.

Os 30 participantes do estudo – metade formada por brancos da Europa e a outra por orientais que haviam se mudado havia pouco tempo para um país do continente – foram convidados a assistir a essas imagens em uma tela de computador. Eles deveriam identificar qual sentimento, e com que intensidade, estava sendo demonstrado por cada face. O resultado indicou que a tarefa não era tão simples para os orientais quanto pareceu para os ocidentais. Os voluntários do primeiro grupo tendiam a sobrepor as categorias, como misturar surpresa e medo, o que não ocorria com os participantes europeus.

Clique e entenda melhor o estudo
Clique e entenda melhor o estudo

Os cientistas perceberam durante a pesquisa que, de maneira geral, os orientais demonstraram medo, felicidade e raiva com movimentos precoces na região dos olhos. Já os ocidentais precisam de mais músculos para demonstrar esses mesmos sentimentos e os identificam principalmente pelo movimento da região da boca. “Já sabemos de pesquisas anteriores que os leste-asiáticos interpretam sistematicamente mal as expressões de medo e nojo dos ocidentais, confundindo-as com surpresa e raiva, respectivamente”, explica Rachael Jack, uma das principais neurocientistas envolvidas no estudo. “É provável que as normas sociais específicas culturais tenham moldado os sinais de expressão facial deles.”

O motivo para as diferenças agradaria ao próprio Darwin: o ser humano evoluiu. Apesar de algumas expressões faciais básicas, como medo e nojo, originalmente terem servido como uma função adaptativa quando a fala ainda não existia, “as expressões faciais evoluíram e se diversificaram para servir ao papel primário da comunicação emocional durante as interações sociais”, analisa a neurocientista. Assim, dialetos ou sotaques também influenciariam a diversificação da expressão facial dos sentimentos básicos em diferentes culturas, o que daria origem a comportamentos faciais variados.

Comunicação Wanderson Castilho, professor e representante no Brasil do Instituto para Treinamento de Análises Comportamentais (Behaviour Analysis Training Institute – Bati), diz que o entendimento cara a cara faz parte de 75% da comunicação humana. “Nosso cérebro dá prioridade à visão”, justifica. Também autor de Manual do detetive virtual, mentiras no rosto e muitas faces (Editora Matrix), Castilho acredita que, apesar do resultado obtido no estudo, algumas expressões são universais. “O sorriso, por exemplo, é uma maneira que a natureza encontrou para demonstrarmos aos seres da nossa espécie que somos ‘aliados’ e que não representamos uma ameaça”, justifica.

Sergio Senna, doutor em psicologia e professor do Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal (Ibralc), explica que, no estudo da comunicação não verbal, há um grupo que defende que as respostas orgânicas são universais. Provar essa universalidade é que são elas. O que existe de concreto, de acordo com Senna, “são padrões comportamentais que podem ser interpretados com segurança dentro de um certo grupo cultural”.

Aqueles que defendem a universalidade de certas expressões faciais acreditam que, por serem ligadas ao sistema nervoso autônomo (SNA), elas seriam ‘autênticas’ e impossíveis de controlar. Mas será que os sinais do SNA são tão confiáveis assim? Para o especialista, depende de como se dá a ativação desse sistema e quais estímulos são capazes de fazê-lo funcionar. “Obviamente, não é só um determinado estímulo que o ativa”, responde Senna. “Em determinadas circunstâncias, estímulos de diversas naturezas podem iniciar respostas do SNA, como demonstrado nos experimentos de Pavlov”, completa.

De acordo com o psicólogo, assim como ocorreu com os cachorros dos estudos de Pavlov, nas pessoas, durante a vida, certos estímulos que eram neutros podem ser emparelhados. Eles, então, passam a gerar respostas autonômicas — como expressões faciais e gestos. “Esse raciocínio também serve para demonstrar que não dá para ver alguém gaguejar, ficar vermelho ou coçar o nariz e já ir dizendo que a pessoa está mentindo ou sentiu a emoção x.”

Condicionado
Em um experimento clássico, o fisiólogo russo Ivan Pavlov disparava um sinal sonoro antes de alimentar um cão. No início, o cão só salivava quando sua língua tocava a comida — uma resposta natural do sistema digestório. Com o tempo, no entanto, o cão começou a relacionar o som ao alimento, passando a salivar antes de ver a comida ou até mesmo quando não recebia comida nenhuma. Essa reação ganhou o nome de reflexo condicionado.


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