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Estado de Minas

Sequenciamento genético ainda é método pouco confiável para prever doenças, diz estudo norte-americano


postado em 03/04/2012 07:47 / atualizado em 03/04/2012 08:09

Quando os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos anunciaram, em 1990, um ambicioso projeto de mapeamento do genoma humano, a expectativa nas comunidades científica e médica foi enorme. Parecia que, ao decifrar as letras que, combinadas, formam a vida, seria possível consertar todos os erros que levam ao desenvolvimento de males tão diversos quanto câncer e diabetes. Passadas mais de duas décadas, porém, especialistas estão mais cautelosos em relação a essa tecnologia.

Um estudo publicado ontem na edição on-line da revista Science Translational Medicine mostrou que, ao menos por enquanto, as informações obtidas pelo sequenciamento genético são evasivas e não substituem métodos mais simples e seguros de prevenção de doenças, como não fumar, praticar exercícios físicos e adotar uma alimentação saudável. A pesquisa usou modelos matemáticos, rastreando o risco de desenvolvimento de 24 males, como câncer, problemas autoimunes, neurológicos e cardiovasculares, além de obesidade, em milhares de pares de gêmeos.

Enquanto o sequenciamento indicou a possibilidade de, no futuro, os indivíduos terem pelo menos uma das doenças pesquisadas, no geral, os resultados foram negativos para a maior parte dos males rastreados. “O que isso quer dizer é que, se usarmos o sequenciamento, uma tecnologia cada vez mais barata e acessível, como única forma de prevenção, vamos falhar. O sequenciamento não consegue calcular completamente o risco de um indivíduo desenvolver doenças a ponto de começarmos uma intervenção terapêutica para evitá-las”, contou o oncologista Bert Vogelstein, pesquisador da Universidade Johns Hopkins, em uma teleconferência de imprensa.

Para Vogelstein, que é codiretor do Centro de Câncer e Genética Ludwig, em Baltimore, no estado norte-americano de Maryland, mesmo que o sequenciamento fique tão barato quanto um exame de sangue, ele não vai substituir as estratégias atuais de prevenção. “O que vai continuar influenciando na diminuição das taxas de mortalidade são o diagnóstico precoce, que pode ser feito muito bem com os equipamentos que já temos disponíveis, e a adequação de um estilo saudável, receita que, independentemente da doença para a qual se tem predisposição ou que já se desenvolveu, é universal”, acredita.

Victor E. Velculescu, do Departamento de Bioestatística da Universidade de Harvard e coautor do estudo, explica que, para testar a eficácia do sequenciamento na predição de doenças, a melhor opção é pesquisar gêmeos. “Gêmeos compartilham o genoma; portanto, têm riscos idênticos de desenvolver determinada doença”, diz. Segundo ele, se o sequenciamento for, de fato, um determinante para que o indivíduo sofra, no futuro, daquele mal, gêmeos servem como parâmetro.

Isso ficaria claro quando em um dos gêmeos há os genes ligados à doença e, no outro, ela já se desenvolveu. Dessa forma, saberia-se, com certeza, que a presença de uma determinada sequência de letras no DNA de uma pessoa é um indicativo de que ela terá certa doença. Da mesma forma, a ausência de mutações significaria uma “alforria”: se o indivíduo não tem predisposição genética para o câncer, ele não terá o tumor.

Impacto

De acordo com Velculescu, uma das principais perguntas sobre o sequenciamento total do genoma humano é qual seu verdadeiro impacto na medicina personalizada. “Suponha que, por exemplo, a tecnologia se torne barata o suficiente para que todo bebê, ao nascer, tenha acesso a ela, como um exame rotineiro. Você, então, poderia identificar quais os riscos daquele indivíduo e, desde cedo, direcionar os cuidados médicos tendo em mente esses riscos determinados. Ao mesmo tempo, não precisaria se preocupar tanto com doenças para as quais o bebê não tivesse marcadores genéticos”, diz. As coisas, porém, não funcionam dessa forma, e o estudo conduzido com gêmeos foi fundamental para descartar, ao menos por enquanto, o potencial da metodologia de prever o futuro.

No estudo, para cada doença, os cientistas agruparam genomas que conferem riscos em um conceito que chamaram de “genomatipos”. Por exemplo, o genomatipo 1 significa zero risco, o 2 confere 3% de risco; o 3, 10%, e assim por diante. Teoricamente, saber em qual dos patamares se encontra poderia ajudar a tomar medidas preventivas. “Imagine que uma mulher receba o resultado de seu exame, mostrando que, ao longo da vida, seu risco de desenvolver câncer de mama é de 90%. Ela pode decidir fazer uma mastectomia profilática. Se o percentual, porém, cair para 50%, ela pode apenas considerar essa ideia. Por outro lado, se o teste indicar apenas 14% de risco, essa não seria uma opção, de forma alguma”, exemplifica Vogelstein.

O problema é que, ao analisar os milhares de pares de gêmeos, a matemática não se mostrou tão exata assim. Quase todos os testes foram negativos para as 24 doenças estudadas e, no caso de indivíduos que tinham determinados males, como câncer, o marcador não foi encontrado no gêmeo sadio, o que indica que o teste pode não ser tão confiável para quem espera do sequenciamento uma bola de cristal.

Além disso, comparando-se à média da população, a incidência de doenças ou a probabilidade de os gêmeos estudados desenvolvê-las foi praticamente a mesma. “Voltando ao exemplo da mulher. Digamos que o sequenciamento mostre que ela só tem 2% de risco de ter câncer de ovário. Isso poderia ser maravilhoso, mas, na verdade, ao longo da vida, ela poderá, sim, ter esse tumor, na mesma proporção que a população em geral. O sequenciamento não é um passe livre”, alerta Kenneth Kinzler, oncologista e também autor do estudo.

Segundo o médico, um teste como esse poderia ser útil para alertar pacientes com histórico de câncer na família se eles têm genes herdados que aumentam o risco de tumores malignos. “Mesmo assim, câncer hereditário é algo raro. A maioria aparece não por herança genética, mas por causa do estilo de vida, a exposição ambiental e a erros aleatórios nos genes durante a divisão celular, que não podem ser previstos por um teste de sequenciamento total.”

Técnica ajuda a tratar câncer
Se o sequenciamento genético não é a ferramenta ideal para a detecção precoce do risco de desenvolvimento de doenças, quando o mal já está instalado, a abordagem pode ser extremamente útil, principalmente no caso do câncer. Cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis estão usando a tecnologia para identificar as mutações do tumor maligno que originou o problema – algo considerado chave para personalizar o tratamento do câncer – e mapear a evolução genética da doença, além da resposta do organismo ao tratamento.


“Estamos descobrindo informações clinicamente relevantes nas amostras tumorais que sequenciamos nas nossas pesquisas”, afirma, em nota, Elaine Mardis, codiretora do Instituto de Genoma da Faculdade de Medicina. “A análise do genoma pode desempenhar um papel importantíssimo. Ganharemos muito tempo durante o tratamento de um paciente, ao identificar o mais cedo possível as mutações do tumor responsável pelo câncer e determinar se as células que transportam essas mutações foram, de fato, eliminadas pelo tratamento.”

Até agora, a equipe de Mardis sequenciou o DNA completo das células tumorais de mais de 700 pacientes com câncer. Ao comparar as sequências genéticas nas estruturas doentes às células saudáveis do mesmo paciente, eles conseguem identificar onde estão as mutações. As informações obtidas pelo método, de acordo com a médica, poderão levar os pesquisadores a reclassificar os tumores com base em sua composição genética, em vez de sua localização no organismo. Em pacientes com câncer de mama, por exemplo, Mardis encontrou mutações em numeroso genes que, previamente, não estão associados com tumores desse órgão.

Um certo número desses genes foram identificados no pulmão, na pele e na região colorretal, entre outras. “O importante é que já existem no mercado drogas que têm essas mutações genéticas como alvo, como imatinib, ruxolitinib e sunitinib, embora não sejam prescritas para o câncer de mama. Estamos encontrando mutações genéticas em vários tipos de tumores que poderiam ser tratadas com essas substâncias”, diz Mardis. “À medida que avançamos nos estudos, acreditamos que o sequenciamento vai contribuir com informações cruciais para determinar as melhores opções de tratamento para os pacientes.”


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