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Estado de Minas

Experiência com célula-tronco pode evitar rejeição em transplantes


postado em 09/03/2012 10:04

 

O transplante de órgãos traz vida nova a portadores de doenças crônicas, mas o preço que se paga ainda é alto. Para evitar rejeição, eles precisam tomar, durante toda a vida, medicamentos imunossupressores. Esses remédios têm uma série de efeitos colaterais, deixando o paciente, inclusive, mais suscetível a infecções e tumores malignos. Um estudo publicado na revista especializada Science Translational Medicine ontem relata uma experiência bem-sucedida realizada em humanos, que poderá significar o fim da rotina da ingestão de pílulas pelos transplantados. Os pesquisadores conseguiram, a partir de células-tronco, desenvolver uma técnica pela qual o organismo, naturalmente, se adapta ao novo órgão, sem reconhecê-lo como um intruso.

Proporcionar maior qualidade de vida depois do transplante é o objeto de estudo do cirurgião Joseph Leventhal, do Northwestern Medicine Hospital, em Chicago, nos Estados Unidos, há mais de uma década. Ele se dedica a pesquisar maneiras de evitar que o corpo do receptor rejeite o novo órgão, sem a necessidade de tomar imunossupressores por longos períodos. “Pense em uma criança que recebe um transplante. Ela tem a vida toda pela frente, o que faz com que os efeitos tóxicos desses medicamentos se acumulem por muito tempo. O risco de que, mais tarde, ela tenha um câncer, por exemplo, é imenso, pois esse é um dos efeitos colaterais dos imunossupressores. Por isso, quando temos um candidato a receber o transplante, sempre pesamos os benefícios potenciais e os malefícios que o pós-operatório pode trazer”, explica.

Diretor do programa de transplante renal da Universidade de Northwestern, Leventhal uniu seus conhecimentos ao da cientista Suzanne Ildstad, chefe do Instituto de Terapias Celulares da Universidade de Louisville (também nos EUA). Ela é uma das mais reconhecidas pesquisadoras mundiais na área de células-tronco e, em 1994, descobriu raras estruturas presentes na medula óssea, as células facilitadoras, que ajudam a evitar a doença do enxerto contra o hospedeiro, como é chamada a rejeição de órgãos transplantados. “O que muitas pessoas não sabem é que, depois de um transplante, o receptor tem de tomar entre 20 e 25 pílulas por dia. A vida dos pacientes transplantados, atualmente, não é fácil”, reconhece Ildstad.

A médica afirma que as pesquisas no campo de transplantes têm se focado em métodos que “enganem” o sistema imunológico do receptor. “O que tentamos é fazer com que o organismo do paciente ache que aquele novo órgão é algo bom e, assim, não tente expulsá-lo. Na nossa pesquisa, em particular, acreditamos no potencial das células facilitadoras como agentes da tolerância nos transplantes. Outra área na qual essa tecnologia poderá ter grande impacto é a de reconstituição do tecido de queimados, algo que pode beneficiar milhões de pessoas em todo o mundo”, destaca. Ildstad diz que o método poderá ser útil, ainda, no tratamento de doenças autoimunes, quando o corpo rejeita suas próprias estruturas e começa a se atacar.

Compatibilidade
Com Leventhal, Suzanne Ildstad coordenou uma equipe multidisciplinar formada por 55 pesquisadores de oito diferentes instituições para desenvolver a nova técnica, que já está na fase 2 de estudos. Depois de bem-sucedido em modelos animais, o procedimento foi testado em pacientes humanos para checar a segurança.

Na pesquisa, oito pacientes entre 29 e 59 anos, todos portadores de doenças renais crônicas, receberam do doador não apenas um rim, mas parte de seu sistema imunológico. A ideia dos cientistas era alcançar o quimerismo completo pós-transplante, entre pessoas com mesmo tipo sanguíneo, mas sem a necessidade de compartilhar os mesmos antígenos leucocitários humanos. Essas proteínas contidas na superfície celular fazem com que dois tecidos sejam compatíveis imunologicamente. O paciente e o doador, porém, precisam fazer um teste chamado crossmatch, para checar se o receptor tem antígenos que rejeitem as células do órgão que vai receber.

Geradas na medula óssea, as células-tronco escapam do tecido gelatinoso e podem ser coletadas no sangue do doador. Antes do transplante, os médicos retiraram essas estruturas e as misturaram a células-tronco facilitadoras. A essa altura, o receptor já passa por um tratamento para esvaziar parte do tutano e, dessa forma, ter espaço para que as células-tronco da medula do doador possam crescer e se desenvolver (veja infografia).

“O que buscamos nesse protocolo foi reeducar o sistema imunológico do receptor, de forma que as suas células e as do doador pudessem coexistir em harmonia. Assim, o órgão transplantado não é rejeitado e, ao mesmo tempo, não há necessidade de se tomar remédios que inibam essa rejeição”, explica Leventhal.

Dos oito pacientes que se submeteram à técnica, aplicada entre 2009 e 2010, todos antingiram o quimerismo em um mês. Cinco não tomavam mais medicamentos à época da redação do artigo, e os outros três precisaram continuar com os imunossupressores, mas em doses menores. “Mesmo um ano depois que os cinco pacientes pararam de usar os remédios, exames na medula óssea mostram que o quimerismo era de 100%, e esse é um resultado extremamente animador”, conta Leventhal. Ele reconhece que o número de pessoas submetidas à técnica é pequeno, mas está entusiasmado com o potencial do transplante duplo. O próximo passo, segundo o pesquisador, é testar se o sucesso se aplica também a pessoas que já fizeram o transplante de rim.

Em uma análise perspectiva escrita para a Science Translational Magazine, James F. Markmann e Tatsuo Kawai, do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, consideram “fascinante” a pesquisa de Leventhal e Ildstad. “Se os resultados se sustentarem e se expandirem em número, eles podem ter um enorme impacto no transplante de órgãos sólidos”, escreveram. “Muitas coisas ainda têm de ser aperfeiçoadas, mas, nos últimos 50 anos, nenhuma outra técnica de transplante foi tão promissora quanto essa.”

 

 


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